Capítulo 2

785 Words
Larissa Depois de um dia de aula somente para constar da carga horária escolar, saio no horário de sempre e vou caminhando pelas ruas tranquilas de Serra, cidade do interior, sem violência, onde as crianças correm pelas ruas brincando, com poucos carros, muito ar puro e um lindo toque colorido das flores que fazem uma verdadeira aquarela, naquele fundo com várias tonalidades de verde. Serra é uma cidade que fica entre as montanhas, e sua beleza natural se faz presente em todas as horas do dia. Mas infelizmente terei de deixá-la para poder ir atrás dos meus sonhos. Após passar pela praça, fazer o sinal da cruz em frente à igreja, afinal toda cidadezinha do interior tem uma igreja na praça central, não é mesmo? Cumprimento alguns conhecidos, chuto uma bola que vinha em minha direção para um menininho do outro lado da rua, brinco um pouquinho de roda com três lindas menininhas que estão na calçada, e claro, não posso deixar de me lembrar da minha infância e de quantas vezes brinquei assim com meu pai, minha mãe, Diogo, Carina e Carlos, meus primos gêmeos, e algumas amiguinhas. Segui em direção a minha casa, mas ao virar a esquina vejo uma movimentação estranha na porta e logo sou atingida por um pânico que me assola de tal forma que não consigo me movimentar. Diogo, meu amigo de infância, vem ao meu encontro e me abraça, só então saio da minha paralisia o olhando, mas não gosto do que vejo. Meu inconsciente me diz pra não perguntar nada, porque não vou gostar da resposta, posso garantir, pois o conheço o suficiente para ver em seu rosto uma tristeza, um pesar em seu olhar. Diogo me envolve com seu abraço protetor, por ser três anos mais velho, já tendo entrado para a faculdade de medicina há dois, e me ajuda a andar o restante do caminho até a porta de entrada da minha casa onde encontro mais gente, mas juro que não consigo registrar ninguém no ambiente. Procuro desesperadamente por minha mãe que não encontro por ali, porém meu amigo ainda me apoiando me leva até o quarto dos meus pais, onde a encontro recostada na cabeceira da cama, segurando a mão do meu pai com lágrimas escorrendo em seu rosto sem emitir nenhum som. Meu pai, que quase não tem mais sinais de vida também está de olhos fechados respirando bem fraquinho, ainda consigo ver seu peito descendo e subindo bem devagar, mas não encontro forças para ir até eles, tudo parece ter parado, tenho medo de me movimentar e tudo realmente acontecer, pois não quero ser a fagulha que dará inicio ao incêndio iminente. É nesse momento que meu pai abre com muito custo seus olhos e olha diretamente para mim, pedindo que todos saiam do quarto, pois quer falar somente comigo, Diogo me leva até meu pai e me ajuda a sentar na beira da cama. Minha mãe protesta dizendo que ele não pode fazer esforço, mas meu pai pede novamente e todos acabam por se retirar e ficamos somente eu e ele naquele quarto iluminado minimamente por uma pequena a******a da cortina, pois a claridade o incomodava. Já ao seu lado ele pega minha mão com muita dificuldade e me fala: — Filha, vá até o guarda-roupa e pegue uma caixa preta de madeira bem lá no fundo atrás das calças. — Levantei com cuidado, já não gostando do tom daquela conversa, mas fiz o que me pediu e achei a caixa. Voltei para o seu lado com a caixa em mãos e esperei. Ele me pediu para que a abrisse e foi o que fiz. Dentro dela havia uma foto de um bebê e um envelope que tinha meu nome e mais algumas coisas, peguei-o e olhei para meu pai que fez sinal para que eu abrisse e pediu com a voz fraca. — Leia com seu coração aberto e a bondade que sempre esteve presente nele. Abri o envelope e vi a letra de meu pai nas folhas em minha frente, mas tinha medo de unir as letras, juntar as sílabas e entender o que aquelas palavras me diriam, já pressentindo que algo ali mudaria um pouco, senão muito, a minha história conhecida até então. Mas com uma força que veio não sei de onde, comecei a ler o que tanto papai queria me contar e não teve coragem para fazer até então, se escondendo atrás das palavras escritas naquele papel, mas ele com muito sacrifício me pediu para só lê-la após a sua morte, o que obviamente não acatei, queria saber ainda com ele ali ao meu lado, para não restar a menor dúvida, por isso iniciei a leitura.
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