Larissa
Acordei com a minha mãe batendo na porta do meu quarto e ao abrir os olhos percebi que o sol já despontava no céu. Guardei tudo correndo dentro da caixa e a coloquei novamente dentro do armário, respirei fundo e abri a porta do quarto. A encontrei com o rosto inchado de chorar, tendo certeza que a sua noite foi em claro, então procurei toda a força para que pudesse seguir e sabe de uma coisa? Uma das minhas inspirações era aquela mulher que descreveu os seus anos naquela carta e que me mostrou que rancor, ódio e raiva não devem fazer parte da nossa vida, por mais difícil que seja. Ela seria uma inspiração para mim, além é claro da criação que tive dos meus pais.
Abracei a minha mãe e a levei para a cozinha para tomarmos café da manhã ou pelo menos tentar comer algo. E enquanto ela apenas mexia o seu pão no café, não comendo nada, ergui a minha cabeça e olhei para o horizonte da minha janela pensando que hoje começaria uma nova etapa na minha vida. Sei que vou chorar, fraquejar e às vezes até me desesperar, mas teria que continuar a minha vida como meu pai me pediu.
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Ano de 2009, Interior de Minas Gerais
Após a morte do meu pai em 2007 quando eu tinha dezesseis anos, a nossa vida mudou muito. Tivemos que deixar a nossa casa e ir morar com os meus avós maternos, deixei de ter o meu próprio quarto, passando a dividir um com a minha mãe, que depois que ele se foi parece que envelheceu mais do que os anos que se passaram, pois ela não se cuida, só quer saber de trabalhar e me dar o que preciso.
Para não sacrificá-la, não peço muita coisa, quando preciso de maquiagem para ir numa festa pego emprestada com a minha prima que é dois anos mais nova que eu, mas isso não acontece muito, pois como também quase não tenho roupas, evito sair e prefiro focar nos estudos, com isso passei para uma faculdade no Rio de Janeiro e no início do próximo ano me mudo para lá.
Conseguimos um quarto bem barato para eu morar, então vou dividir um apartamento com algumas meninas, já que pagar um só para mim não caberia no orçamento.
Comemoramos hoje, novembro, meu aniversário de dezoito anos, com um bolo simples feito por minha mãe, é claro, além de refrigerantes e as pessoas que moram no meu coração, minha pequena família e Diogo, que está passando o feriado em Minas, e seus pais.
Num determinado momento Diogo me chama para conversarmos um pouco no quintal da casa dos meus avós, em baixo de uma árvore, onde há um banco de ferro pintado de branco que gosto de sentar à tarde para ler ou estudar. Nos acomodamos ali admirando um pouco daquele céu estrelado que só as cidades do interior com poucas luzes são capazes de nos presentear.
– Lari, estava morrendo de saudades de você. — Disse ainda sem tirar os olhos do céu infinito.
– Eu também, Diogo, morro de saudades do tempo em que ficávamos todos os dias juntos, ouvindo música, lendo, conversando. Sinto falta da sua ajuda nos estudos, já que sempre foi tão inteligente.
– Sabe, lá na faculdade tenho alguns colegas, saio às vezes, mas nada tem graça sem você. Sempre sinto a necessidade de dividir contigo todos os momentos. Quando fui embora um pedacinho de mim ficou aqui e sempre me sinto incompleto.
– Mas olha, saiba que tudo que fez por mim todos esses anos foi muito importante, os abraços, o carinho, seu apoio nos momentos difíceis e sua ajuda com os estudos que agora me levou até a faculdade no Rio de Janeiro. – Falo essas coisas para fugir da saia justa que ia ficar com as declarações de Diogo, já que sei o que sente por mim desde o dia da morte do meu pai quando ele se declarou.
– Eu fico feliz de ser importante pra você assim como você é para mim, talvez de formas diferentes, mas me sinto realmente grato por suas palavras e sentimentos, Lari! – Ele talvez percebendo que desconversei faz o mesmo. – Bem, vou indo, meus pais já devem estar me esperando. Uma ótima noite! Durma bem!
Me dá um beijo no rosto e se levanta se distanciando de mim e entrando na minha casa. Sinto que apesar de dizer que me respeita por não sentir o mesmo que ele e prometendo que nada irá mudar entre nós por causa disso, Diogo fica triste por eu não ter por ele o mesmo sentimento. Me machuca fazê-lo sentir essa dor da falta de reciprocidade, mas eu não posso mentir para meu melhor amigo, pois o faria sofrer e eu não me perdoaria por isso.
Sigo para dentro de casa, me despeço de todos e vou para o meu quarto. Depois que todos se vão, minha mãe entra em nosso quarto e calmamente se senta ao meu lado na minha cama.
– Filha, quero que saiba que seu pai estaria muito orgulhoso de você, com apenas dezoito anos já entrou na faculdade e está indo morar sozinha. Só te peço uma coisa... Não faça nada que vá se arrepender, querida. Viva, seja feliz, curta a sua vida. Mas se cuide, pois eu não estarei ao seu lado lá no Rio de Janeiro. Eu te amo, por isso te peço, cuidado! – Fala a minha mãe com o seu olho cheio d'água. – Pode deixar, mãezinha! Te amo muito também e não vou decepcionar vocês!
Depois disso o silêncio se instalou no quarto e assim adormecemos.
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Era meado do mês de dezembro, o dia da minha formatura, e claro que quem me acompanharia na festa que sempre a escola organizava era Diogo, que já estava na cidade por conta das suas férias na faculdade, e eu realmente não queria outra companhia, tinha que ser ele.
Ele estava em frente a minha casa pontualmente às vinte horas me aguardando, encostado no seu carro, um pálio prata quatro portas. Diogo era um cara simples, e a sua família que nem tinha tanto dinheiro estava bancando seu sonho de ser médico com muito esforço.
Ele vestia uma calça jeans preta, camisa social para fora da calça, gravata e sapato social, todos da mesma cor, naquele corpo lindo de 1,75, cabelos escuros e cheios de cachos, como um anjo, com seus olhos castanhos escuros, que muitas meninas babavam e queriam. Já ele me queria e eu não o via dessa forma, como namorado, mas confesso que ao o ver ali, lindo como estava, fiquei mexida. Eu escolhi um vestido verde água tomara que caia com uma faixa de pedrarias abaixo do b***o que era plissado e logo abaixo dessa faixa já começava camadas de tecido cortado em pontas de vários tamanhos dando um leve volume ao vestido, uma sandália de salto prata, não tão alta, porque não estava acostumada a usar saltos, com uma maquiagem bem levinha e o cabelo solto somente com um pequeno enfeite em strass.
Quando Diogo me viu percebi que os seus olhos brilharam, confesso que senti algo, estava mais bonito que nunca, parecia diferente, foi a primeira vez que o vi com outros olhos, mesmo depois da sua declaração de amor na noite do falecimento do meu pai a dois anos atrás na minha varanda, Eu o enxergava como um amigo e nada mais. Parecia que naquele momento Diogo havia se transformado em homem, eu sei que é no sentido figurativo, pois ninguém muda da noite para o dia, mas era assim que o via naquele instante, ou talvez a mudança tenha sido em mim.
Desci os dois degraus indo lentamente ao seu encontro me deliciando com aquele momento especial e quando cheguei junto a ele, o meu coração disparou, não sei o que aconteceu e já não sabia se estava com medo ou ansiosa pelo que aquela noite poderia se transformar.