Serafina:
Pensei que nunca mais pisaria aqui.
E olha eu aqui.
Respiro fundo, a mala da Gucci na mão, rodinhas emperradas na terra batida a poeira que o Uber levantou ainda flutua no ar e me faz espirrar cheira a barro quente, cigarro, fritura… e passado.
Serafina, de novo às origens.
O Morro do p**a-p*u.
Saí desse inferno com dezessete anos na época, trabalhava na Pousada do Mirante, lavava banheiro, arrumava quarto e sonhava em sumir daqui.
O velho empresário se apaixonou por mim.
E como eu e mamãe sempre lutamos com o que tínhamos, eu fui aproveitei a chance.
Fui morar com ele num condomínio de rico, casa com piscina, tinha até cozinheira só pra mim ai, que saudade daquelas manhãs de roupão, cheiro de café fresco, unhas feitas, jatinho privado me esperando no hangar uma verdadeira madame.
Mamãe se orgulhava ela nunca teve tanta sorte sempre me dizia, séria, me penteando antes de eu sair.
Faz um caixa dois, Serafina. Faz o velho casar contigo, garantir teu futuro e eu sorria, me achando esperta.
Mas falhei penso nisso enquanto subo o morro, o salto afundando, quase chorando sem querer o velho morreu e os três filhos dele, que sempre me olharam como se eu fosse uma invasora, pegaram tudo.
Eu? eu fui chutada como lixo desgraçados.
Nunca gostaram de mim e no fundo, vai, eu entendo eu tinha idade pra ser irmã deles.
Agora passo por um grupo de moleques do corre, encostados no muro, Glocks na cintura, risadinhas baixas quando me veem.
Um deles sussurra algo que não entendo. Outro estala a língua as velhas na varanda me olham por cima dos óculos, cochicham, balançam a cabeça.
Eu sigo, com os ossos doendo, o salto afundando num chiclete mastigado, no barro respiro.
“Serafina, é só o começo tu já passou por pior.”
E já avisto a casa da minha mãe.
Humilde mas nossa pelo menos isso eu consegui nesses cinco anos comprei a casa, tirei mamãe do aluguel.
Lembro bem da noite em que assinei a escritura ela chorou e me abraçou tão forte que pensei que meu peito ia rachar.
Hoje, ela me espera na porta com os braços cruzados e um olhar que mistura deboche e riso a velha não muda bem a cara, nem a língua.
Pai? nem sei quem é mamãe me teve aos quinze e desde então sempre fomos só eu e ela mais irmãs do que mãe e filha às vezes.
Chego mais perto, e ela me fita, rindo, a mão apoiada na cintura, encostada na parede descascada.
—Carminha: Tu é burra, Serafina.
ela solta, antes mesmo que eu fale.
—Carminha:Cinco anos e não soube fazer o velho casar contigo?
— Mãe… não começa eu tô de luto.
Ela me olha com aquele sorriso torto, quase m*****o, e larga uma gargalhada que ecoa pelo beco.
—Carminha: De luto?
ri mais ainda.
—Carminha: De luto tu vai ficar quando eu sentar a mão na tua cara por ser trouxa passa pra dentro, lazarenta.
Eu rio de nervoso, enxugando as lágrimas antes que ela perceba entro, passando pela porta emperrada, sentindo o cheiro de feijão no fogo, as paredes com rachaduras, a foto nossa na parede com o vidro quebrado.
E penso que, no fundo, a velha tinha razão ela me serviu um olhadão de comida.
O prato quase transbordava arroz soltinho, feijão grosso, carne acebolada, farofa com ovo por cima.
A mesa ainda era a velha, a de madeira, cheia de marcas de cigarro, com a toalha puída e mamãe… mamãe ainda era a mesma dura, de olhar sério, de fala cortante, mas no fundo eu sabia era só o jeito dela de amar.
Sentou na ponta da mesa, acendeu um cigarro e falou, sem rodeio:
—Carminha: Agora tem que avisar o chefe do morro que tem morador novo eu já avisei ontem, mas amanhã tu tem que ir lá eles puxam ficha, tão neuróticos, tá tendo muita invasão.
Eu só olhei pra ela, mastigando, respirando fundo.
— Aham. Tá bom.
—Carminha: E já falei que tu precisa trabalhar.
acrescentou, soprando a fumaça.
— Ah, fala sério, mãe eu recém cheguei.
revirei os olhos, largando o garfo no prato ela me olhou fulminante, quase jogou a cinza no meu cabelo de propósito.
—Carninha: Tô cagando pra tua chegada o chefe precisa de faxineira lá na mansão e tu não vai perder essa oportunidade.
— Mãe… enlouqueceu? Eu não vou pegar outro velho, me nego...
Ela revirou os olhos também e bufou.
—Carminha: Não é o velho ele já aposentou. Agora é o filho.
— Desde quando bandido aposenta? — perguntei, sem conter o deboche.
Ela me encarou, séria.
—Carminha: Desde que cadeia existe, minha filha escuta aqui tu precisa entrar naquela casa a mulher dele é uma madame fresca, dondoca chata pra cäralho, mas paga bem.
— E tu é uma exploradora de filhas. — disparei, empurrando o prato pra frente.
Ela caiu na risada, gargalhou de verdade, batendo a mão na mesa.
—Carminha: Quando eu tinha que sair com o dono do mercadinho pra gente ter o que comer, eu reclamei? Reclamei?.
perguntou, me apontando o dedo eu fiquei quieta.
Aquele sim era nojento só de lembrar dava um nó na barriga mas eu sabia que na época ele mandava até bala pra ela todo mês, e a gente nunca passou fome.
—Carminha: Não reclamei nada, Serafina. Foi a melhor época. Comida boa, fartura, dinheiro vivo. Eu me lembro até hoje…
ela disse, com um sorrisinho meio melancólico, como quem saboreia um pecado antigo.
Eu olhei pra rachadura na parede, respirei fundo.
E pensei que talvez já estivesse no inferno mesmo, então o que seria trabalhar pra outro d***o?