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1382 Words
Capítulo 19 Marcela narrando — Você não deveria estar triste? — a menina me perguntou, parada à minha frente, olhando-me com aqueles olhos vivos e curiosos. — Triste? — repeti, confusa, sem entender de imediato a pergunta. — Por causa do seu marido — disse, inclinando a cabeça, como se já soubesse a resposta antes de eu falar. — Ele está m*l, meu pai disse. Suspirei, lembrando-me de Roberto, da distância forçada, da situação perigosa que nos separava. — Sim — falei, baixinho. — Mas acho que é bom sorrir de vez em quando. Não acha? Ela apenas assentiu com a cabeça, pequena e sábia, como se realmente entendesse. Algo naquela menina me lembrava Perigo: a alegria, a inteligência, a forma como ela falava de sua mãe, casada com o primo do seu pai. Eu ainda não havia entendido totalmente as conexões familiares, mas naquele instante, por alguns segundos, ela me fez esquecer o motivo pelo qual estava ali, as circunstâncias que me aprisionaram e toda a tensão que me consumia. — Vamos sair? Tomar sorvete? — perguntou, animada. — Eu não posso — respondi, hesitante. — Por quê? — insistiu, franzindo a testa, como se aquilo fosse impossível de compreender. — É… — tentei achar uma desculpa que fizesse sentido. — Prefiro ficar aqui… estou cansada. Ela me encarou, meio incrédula. — Você não é velha para estar cansada — disse, cruzando os braços. — Gente velha fica cansada. — Quer dizer, gente idosa — corrigi, rindo de leve. — Se minha mãe soubesse que chamei alguém de velho, me deixaria de castigo. — Sua mãe está certa — ela respondeu com uma seriedade que me surpreendeu. — Devemos dizer idosos ou senhores. Eles são cansados porque já viveram muito. Sorri para ela. — Você fala como minha mãe — ela comentou, olhando-me com admiração. — Não deve sair sozinha, então — acrescentei, tentando protegê-la. — Espere seu pai voltar, e aí você poderá ir para qualquer lugar. — Eu vou para todos os lugares aqui no morro — disse, cheia de confiança. — Mas é perigoso — respondi, preocupada. — Você precisa se cuidar. — É tranquilo — respondeu, segura. — Fica tranquila. Ela saiu da sala, e eu fui atrás, indo chamar sua atenção. Mas, de repente, um vapor armado surgiu, bloqueando a saída. — Para dentro, dona — disse ele, sério. — Se não tem ordem para sair, não sai. — É que a menina saiu sozinha — expliquei, tentando justificar a situação. — Ela é filha do patrão — respondeu ele, firme. — Você entra. Não questionei mais nada. Entrei em silêncio e fechei a porta atrás de mim. Sentei-me no sofá e observei aquela casa inteira. Tudo parecia irreal, como se eu estivesse vivendo um sonho estranho, mergulhada em uma realidade que parecia mais um filme de ação do que minha própria vida. Perigo narrando Andava de um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo. Cada movimento, cada informação parecia desconexa, mas algo me dizia que havia uma lógica por trás de tudo. — Tudo indica que Roberto saiu do país — disse Yuri, a voz carregada de preocupação. — Você tá louco, Yuri? — perguntei, incrédulo. — Estou te falando — respondeu ele, firme. — Tudo indica que ele saiu junto de Laura. — E abandonou Marcela? Ele não faria isso — falei, sentindo um aperto no peito. — Pelo jeito, ele fez — disse Yuri, sem hesitar. Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos. — Nós vamos atrás de Saul — declarei, tentando manter a determinação. — Isso é perigoso — alertou ele. — Devíamos esperar, ver qual será o próximo passo. Se tudo isso for um plano de Roberto, estamos mortos. — Estamos na frente dele — respondi, confiante. — E se ele sabe que estamos com Marcela, não vai nos matar porque fica sem ela. — Ele foi embora do Brasil — disse ele, incrédulo. — Abandonou o barco. Larga de mão disso. Tira essa mulher daqui, ela só vai trazer problemas. Ou você vai ficar com ela aqui e ele nem aí. — Ela não sai daqui — falei com firmeza. — Vai continuar aqui, ponto final. Ninguém vai tirá-la. Faça a contagem da carga, Yuri, e me diga a real depois. — Vou fazer isso — disse ele, saindo da boca. Observei a mudança de comportamento de Yuri, algo que não havia percebido antes. Acendi um baseado e fiquei observando-o descer o morro, cada movimento dele me deixando mais atento. Liguei para Ph. — Preciso de ajuda — falei. — Qual? — ele perguntou, atento. — Quero que você descubra todos os passos de Laura e rastreie o telefone do Yuri — expliquei, sentindo a urgência aumentar. — Do Yuri? — ele questionou. — Sim — confirmei. — Agora, isso é prioritário. Estou desconfiado do comportamento dele, precisamos evitar falar sobre certas coisas perto dele. — O que tá pegando? — perguntou Ph, curioso. — Mudou de comportamento rapidamente — falei. — Algo me diz que não é normal. Espero estar errado, mas é uma intuição r**m. — Ele sabe de Saul? — perguntou Ph. — Eu comentei — respondi. — Deve ser isso — ele falou. — Saul é o sub do morro, e quando voltar, pega o lugar dele. — Não, não acho que seja só isso — falei, pensativo. — Sinto que há algo mais acontecendo. Espero que seja só besteira minha. — Vou levantar as duas coisas que você pediu e te retorno — disse Ph. — Valeu — respondi, desligando. Nesse momento, Joana entrou pela porta, correndo até mim. — Papai! — exclamou. — Não era para você estar em casa sozinha? — perguntei, surpreso. — Ah, mas eu vim ficar com você e não sozinha com sua amiga — respondeu ela, sorrindo e me abraçando com força. — Ela é legal, mas eu gosto de você, papai. — Vocês se deram bem? — perguntei, curioso. — Eu chamei ela para tomar sorvete — disse ela, rindo. — Primeiro ela disse que não podia, depois disse que não queria… qual é a verdade? — Como assim, qual é a verdade? — perguntei, intrigado. — Por que ela não quer ir? Por que não pode? — respondeu, a franqueza de criança em seu olhar. — Ela se enrolou toda, e eu sei quando alguém mente. — Você sabe de tudo, né? — perguntei, sorrindo. — Vai lá tomar seu sorvete — incentivei, finalmente cedendo. — Depois vamos passar o tempo todo juntos? — perguntou, cheia de expectativa. — Vamos, eu prometo — respondi. — Vou resolver umas coisas e depois vou com você. — Eu te amo, pai — disse, me abraçando de novo. — Eu também — respondi, emocionado. Ela saiu, contente, correndo para a sorveteria perto da boca. Enquanto isso, Ph me enviou o ID de Laura. Consegui rastrear rapidamente todos os lugares por onde ela havia passado nos últimos dias. Um local em particular chamou minha atenção: o Morro da Fé. Ela havia estado lá quase todos os dias nos últimos meses. Fiquei intrigado. Por que o Morro da Fé? Seria algum tipo de aliança com Roberto? E o que ela ganharia com isso? Nunca tivemos problemas com aquele morro; sempre mantivemos distância. Pesquisei nos arquivos da facção sobre o local. — Bn — chamei, e ele atendeu rapidamente. — Fala aí — respondeu, firme. — O que você sabe sobre o dono do Morro da Fé? — perguntei. — O dono é Plutão — respondeu. — Pouco se sabe sobre ele. O nome de batismo é Igor. Herdou o morro do pai. Na verdade, ninguém vê muito ele, sempre se mantiveram na deles. Por que a pergunta? — Você tem amizade com eles? — perguntei. — Nunca fui lá — respondeu ele, seco. — Por quê? — Pesquisa para o meu TCC — disse, tentando disfarçar, e ele gargalhou. — Engana o trouxa não — falou. — Sempre soube que você era trouxa — respondi, rindo. — Fala a verdade, o que tá pegando? — insistiu ele. — Logo mais te conto — disse. — Preciso desligar. — Olha aí então — respondeu ele. — Te amo, Bn — falei, sorrindo. — Vai tomar no cu — respondeu ele, desligando.
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