Atena narrando...
A gente veio num barzinho aqui no morro, onde dizem ser o “Mirante”. Um lugar familiar, ponto de encontro da galera do hospital.
Carla não parava de falar ao meu lado, ria das próprias palhaçadas — minha cabeça estava longe.
Carla: Alô, terra chamando! — sorri — Foi tão r**m assim?
Atena: Não... Foi r**m, mas não a pior coisa do mundo. Sei lá, é complicado. — fiz um coque no cabelo.
Encarei a entrada do bar, e o "Gordão" entrou com uns caras. Ele me olhou, e eu parei de encarar.
Pedimos uma torre e uma porção, tiramos fotos juntas e trocamos os números.
Atena: Você mora aqui?
Carla: Faz uns meses que me mudei pra cá por causa do trabalho. Comecei a fazer plantão e ficou complicado sair do morro frequentemente. E você, mora onde?
Atena: São Conrado.
Ficamos conversando, e depois fomos embora. Pedi um Uber e fui pra casa...
[. . .]
Uma semana depois...
Essa semana passou rápido. Trabalhei ontem à noite e vou ser liberada hoje às dez horas.
Resumindo: tô morta.
Parei pra um intervalo e saí do postinho pra fazer um lanche.
Paguei o moço da barraca e, ao voltar, quando ia entrar, me puxaram pelo braço.
Neurótico: Me ajuda aqui, médica?
Atena: Eu não sou... — olhei pra ele, e ele estava com uma criança nos braços — O que aconteceu com ela?
Neurótico: Febre alta, vomitando... esses bagulhos aí.
Atena: Vem. — fui até a recepção — Rebeca, a pediatra está aí?
Ela nem me olhou, enjoada.
Rebeca: Não. Manda esperar.
Neurótico: Aí, adianta esse processo aí antes que eu meta bala no bagulho. — falou alto e sério.
Ela se assustou.
Rebeca: Desculpa, senhor, mas... não temos mais pediatra.
Ela vai ter que atender. — respirei fundo.
Atena: Beleza, sem problemas... vem!
Abri a porta do consultório e fiz exame de rotina nela.
Atena: Oi, neném... como é seu nome? — distraí ela enquanto enfiava a agulha do soro no braço.
Nella: Antonella, mas pode me chamar de Nella. — sorri.
Atena: Lindo nome. Meu nome é Atena. Quantos aninhos você tem?
Nella: Seis anos. — fez cinco com uma mão e um com a outra.
Coloquei o medicamento no soro.
Atena: Olha, vou te dar um pirulito quando o soro acabar. — apontei pro soro, e ela assentiu sorrindo.
Tirei a luva e joguei no lixo. O Neurótico estava encostado na maca, observando tudo. Me aproximei dele.
Atena: Sua filha?
Neurótico: Não, Antena. Minha sobrinha.
Atena: É Atena.
Neurótico: Mudou nada, Antena. — debochou sorrindo. Revirei os olhos.
Atena: Ela vai ficar bem, só foi uma virose. Vou passar remédio pra febre, caso volte. E se piorar, você tem que ir em outro hospital — que não seja esse. — ele assentiu. — Vou pegar minhas coisas pra ir embora, antes de sair passo aqui.
Peguei minhas coisas no armário e falei com algumas pessoas. Voltei no quarto, o soro estava quase acabando.
Esperei terminar, tirei a agulha do braço dela, passei a receita e saí junto com eles.
Isso é bastante errado, pelo fato de eu não ser especializada na área.
Deveria ter, no mínimo, uma pediatra pra supervisionar.
A Nella pegou na minha mão, sorrindo, e saímos. Tirei o pirulito da bolsa e entreguei a ela.
Nella: Obrigada.
— Sorri e acenei pra ela.
Neurótico a pegou no braço. Fui pelo meu caminho de sempre, o sol torrando meu cérebro.
Escutei uma buzina — nem olhei pra esse nojento.
Neurótico: Entra aí, pô.
Ah, era ele. Pensei que fosse mais um daqueles caras que passam no carro falando coisas nojentas.
Olhei pra ele, olhei pro sol, dei a volta e entrei no carro.
Olhei pra Nella na cadeirinha e pisquei pra ela.
Neurótico: Vai pro ponto de ônibus?
— Assenti.
— Vou passar na farmácia antes. Tu vai comigo.
Mandão.
Ele parou na farmácia, compramos o remédio.
Entramos novamente no carro, e ele me deixou no ponto.
Atena: Valeu.
Ele me olhou com aquela cara de bandido m*l e apenas acenou com a cabeça.
Desci e fiquei esperando no ponto, minha carruagem chegar.