Capítulo 2 — Flores

2461 Words
Sempre achei que a pior parte de um plantão fosse acordar antes do sol nascer. Durante anos, reclamei do despertador tocando quando a cidade ainda dormia, do frio das madrugadas de inverno e da dificuldade de convencer meu corpo de que cinco e meia da manhã era um horário aceitável para existir. Naquela manhã, porém, descobri que estava errada. A pior parte não era levantar cedo. Era acordar com a estranha sensação de que alguma coisa estava fora do lugar. Abri os olhos antes mesmo do despertador tocar. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra. A única claridade vinha da fresta da janela, onde o céu começava a ganhar um tom azul-acinzentado, anunciando que o sol logo surgiria. Fiquei deitada por alguns segundos. O ventilador girava lentamente no teto, espalhando o ar fresco pelo pequeno quarto. O ponteiro do relógio fazia um tic-tac constante sobre a cômoda, enquanto, do lado de fora, alguns pássaros começavam a cantar. Era uma manhã como tantas outras. Então por que meu peito estava tão apertado? Levei a mão ao coração. Respirei fundo. Talvez fosse apenas o cansaço. Ou a lembrança da festa. Fechei os olhos por um instante, mas a imagem de Marcelo Ferraz surgiu imediatamente. Os olhos escuros. O sorriso calmo demais. A maneira como continuou me encarando mesmo depois de eu ir embora. Senti um arrepio percorrer meus braços. Antes que pudesse mergulhar novamente naquelas lembranças, a voz da minha avó atravessou a casa. — Nanda! O café está pronto! Sorri sem perceber. Só de ouvir aquela voz, o peso em meu peito diminuiu um pouco. — Já estou indo, vó! Levantei da cama e caminhei até o guarda-roupa. Minha rotina era simples. Escolhi uma calça jeans confortável, uma camiseta azul-clara e um casaco fino para enfrentar o frio da manhã. Prendi o cabelo em um coque desajeitado e lavei o rosto com água gelada na esperança de espantar o sono. Quando me olhei no espelho, encontrei olheiras discretas sob os olhos. — Você está um desastre — murmurei para o meu reflexo. O reflexo pareceu concordar. Saí do quarto sentindo o cheiro inconfundível de café recém-passado. A cozinha sempre foi o coração da nossa casa. Era pequena, mas acolhedora. As cortinas floridas balançavam com a brisa que entrava pela janela, uma toalha de crochê cobria a mesa redonda, e pequenos vasos de temperos ocupavam o peitoril, enchendo o ambiente com o perfume de hortelã e manjericão. Dona Célia estava diante do fogão. Usava um avental antigo de flores amarelas e cantarolava baixinho enquanto virava fatias de pão na chapa. Sorri. Aquela cena fazia parte da minha vida havia tantos anos que parecia impossível imaginar outro jeito de começar o dia. Desde que meus pais morreram em um acidente de carro, quando eu tinha quinze anos, ela deixou de ser apenas minha avó. Tornou-se mãe. Pai. Amiga. Abrigo. Nunca tivemos muito dinheiro. A casa era simples, os móveis antigos e as contas exigiam planejamento todos os meses. Mas nunca me faltou carinho. Nem um lugar seguro para voltar. — Bom dia, meu bem. — Ela colocou uma xícara de café sobre a mesa. — Bom dia. Sentei-me e inspirei profundamente o aroma do café. Era impossível não sentir um pouco de paz ali. Minha avó colocou o prato com os pães diante de mim, mas, antes mesmo de se sentar, inclinou levemente a cabeça. — Dormiu m*l? Levantei os olhos. — Está tão na cara assim? Ela sorriu com ternura. As pequenas rugas ao redor de seus olhos se aprofundaram. — Eu conheço você. Baixei o olhar para a xícara. Mexi o café lentamente. Por alguns segundos, pensei em dizer que estava tudo bem. Que tinha sido apenas uma noite estranha. Mas nunca consegui esconder muita coisa dela. Suspirei. — Aconteceu uma coisa na festa ontem. Ela puxou a cadeira e sentou-se à minha frente. Não fez perguntas. Apenas esperou. Era uma das coisas que eu mais admirava nela. Nunca me pressionava. Sabia que eu falaria quando estivesse pronta. Respirei fundo. — Um homem estava segurando uma garota pelo braço. Enquanto falava, as lembranças voltavam com nitidez. As luzes da cobertura. O som da música. O olhar assustado da menina. Contei tudo. Desde o instante em que ouvi o pedido de socorro até o momento em que Marcelo disse que descobriria quem eu era. Minha avó permaneceu em silêncio durante todo o relato. Apenas segurava a própria xícara entre as mãos, enquanto o café soltava pequenas nuvens de vapor. Quando terminei, a cozinha pareceu mais silenciosa do que antes. Ela olhava para a mesa, pensativa. — Vó? Ela ergueu os olhos lentamente. A expressão tranquila de sempre havia desaparecido. — Esse homem... Sua voz saiu baixa. Cuidadosa. — Não me parece alguém acostumado a ouvir "não". Sorri, tentando tranquilizá-la. — Não se preocupa. Ela continuou me encarando. — Deve ter esquecido da minha cara assim que a festa acabou. Ela não respondeu. Aquilo me incomodou mais do que qualquer sermão teria incomodado. Minha avó raramente insistia quando algo realmente a preocupava. E, naquele momento... O silêncio dela dizia muito mais do que palavras. --- O Hospital Municipal já estava completamente desperto quando cheguei. Ambulâncias entravam e saíam da emergência. Pacientes aguardavam atendimento nas cadeiras da recepção. Médicos caminhavam pelos corredores com prontuários nas mãos, enquanto enfermeiros organizavam medicações antes do início da troca de plantão. Para muita gente, aquele lugar parecia um caos. Para mim... Era quase um lar. Ali eu sabia exatamente o que fazer. Sabia onde minhas mãos eram úteis. Sabia como ajudar. Mal atravessei a porta do setor de clínica médica e ouvi uma voz conhecida. — Bom dia, Nanda! Virei-me sorrindo. Camila caminhava em minha direção carregando uma prancheta. Os cabelos presos em um r**o de cavalo já denunciavam que ela estava trabalhando havia algumas horas. — Bom dia. Ela me entregou um abraço rápido. — Dizem que você resolveu ter vida social ontem. Revirei os olhos. — A Bianca já contou? Camila riu. — Contou até a cor do seu vestido. Balancei a cabeça. — Fofoqueira. — Ela estava feliz por ter conseguido tirar você de casa. Acabei sorrindo. Isso era verdade. Recebi a escala do dia e comecei o trabalho. As horas passaram depressa. Verifiquei sinais vitais. Troquei curativos. Administrei medicações. Conversei com uma senhora que insistia em chamar todos os profissionais do hospital de "meu filho". Ajudei uma criança com febre a perder o medo da injeção contando histórias sobre super-heróis. Ouvi um senhor viúvo falar durante quinze minutos sobre a esposa que perdera no ano anterior. Não fazia parte oficialmente do meu trabalho. Mesmo assim... Fiquei. Às vezes, as pessoas precisavam mais de alguém disposto a escutá-las do que de qualquer remédio. Foi só quando olhei o relógio que percebi como o tempo havia passado. Já passava das onze da manhã. — Fernanda? Levantei a cabeça. A recepcionista acenava da porta do setor. — Tem uma entrega para você. Franzi a testa. Uma entrega? Limpei as mãos com álcool em gel e caminhei até a recepção. Assim que dobrei o corredor, meus passos diminuíram. Sobre o balcão havia um enorme buquê de rosas brancas. As flores eram impecáveis. Cada botão parecia ter acabado de desabrochar. O papel que envolvia o arranjo era sofisticado, preso por uma fita de cetim preta. Não era um presente comum. Era caro. Muito caro. E eu não conhecia ninguém que gastasse aquele valor com flores. Meu estômago se contraiu. — Tem cartão? — perguntei, tentando manter a voz firme. A recepcionista sorriu. — Tem, sim. Ela me entregou um pequeno envelope branco. Respirei fundo antes de abri-lo. A caligrafia era elegante. Segura. Como se cada letra tivesse sido desenhada com cuidado. Li apenas uma frase. "Para a única mulher que teve coragem de me enfrentar." Meu sorriso desapareceu. O frio que percorreu minha espinha foi imediato. Porque, naquele instante... Eu soube exatamente quem havia enviado aquelas flores. Fiquei alguns segundos encarando o cartão. As palavras pareciam ganhar peso a cada nova leitura. "Para a única mulher que teve coragem de me enfrentar." Não havia assinatura. Não era necessária. Eu conhecia o dono daquela caligrafia elegante antes mesmo de admitir isso para mim mesma. Meu estômago se revirou. Ao meu redor, a recepção do hospital continuava funcionando como se nada tivesse acontecido. Telefones tocavam sem parar, pacientes aguardavam atendimento, enfermeiros cruzavam o corredor apressados e um médico discutia exames com um residente. O mundo seguia normalmente. Só o meu parecia ter parado. — Nanda? A voz da recepcionista me trouxe de volta. — Está tudo bem? Forcei um sorriso. Daqueles que não convencem ninguém. — Está, sim. Mentira. Ela apontou para o buquê. — Nunca vi rosas tão bonitas. Olhei para as flores. Até poucos segundos antes, eu também teria achado aquilo bonito. Agora, enxergava apenas um aviso. Uma demonstração de poder. Ele havia me encontrado. Peguei o celular imediatamente. Se aquilo fosse uma brincadeira de Bianca, eu a faria se arrepender pelo resto da vida. Abri a conversa. Você me mandou flores? A resposta chegou quase no mesmo instante. Que flores? Meu coração afundou. Digitei outra mensagem. Não é engraçado. Ela respondeu com um emoji de confusão. Nanda, do que você está falando? Apaguei a conversa sem responder. Não havia motivo para assustá-la. Ainda não. Camila apareceu ao meu lado naquele momento. Seus olhos brilharam ao ver o arranjo. — Meu Deus! Levou a mão ao peito. — Quem foi o romântico? Entreguei o cartão para ela. Ela leu rapidamente. Depois abriu um sorriso. — Isso parece cena de filme. Balancei a cabeça. — Não tem absolutamente nada de romântico nisso. Ela me olhou, confusa. — Como assim? Peguei o cartão de volta. Rasguei-o ao meio. Depois novamente. Até restarem pequenos pedaços de papel entre meus dedos. — É alguém que eu gostaria de nunca mais encontrar. Joguei os pedaços no lixo ao lado da recepção. Em seguida, olhei outra vez para o buquê. As rosas permaneciam ali. Perfeitas. Impecáveis. Como se não carregassem ameaça nenhuma. — Você não vai levar? — perguntou Camila. Dei um passo para trás. — Não. — Mas... — Não quero isso perto de mim. A recepcionista pareceu surpresa. Camila também. Mas nenhuma das duas insistiu. Voltei ao trabalho. Ou tentei. --- Passei o restante do plantão repetindo para mim mesma que aquilo não significava nada. Flores podiam ser enviadas para qualquer lugar. Talvez alguém tivesse descoberto onde eu trabalhava perguntando na festa. Talvez... A palavra "talvez" perdeu a força rapidamente. Enquanto organizava medicamentos na enfermaria, tive a sensação de que alguém me observava. Olhei pela janela. Apenas carros. Uma ambulância estacionada. Pessoas entrando e saindo do hospital. Nada fora do comum. Continuei trabalhando. Minutos depois, senti a mesma impressão. Outra vez. Levantei os olhos. Um homem passava pelo corredor. Não era ele. Respirei fundo. "Você está impressionada." Era isso. Precisava ser. No fim da tarde, quando finalmente entreguei o plantão, meus ombros pesavam de cansaço. Despedi-me dos colegas com um sorriso cansado. — Até amanhã! — Descansa, Nanda! Atravessei a porta principal do hospital. O céu já começava a escurecer, tingido por tons alaranjados e violetas. O vento soprava mais frio do que pela manhã. Abracei os próprios braços enquanto caminhava até o ponto de ônibus. Havia poucas pessoas esperando. Uma senhora com sacolas de mercado. Dois estudantes uniformizados. Um rapaz mexendo distraidamente no celular. Tudo parecia comum. Mesmo assim... A sensação voltou. Olhei discretamente para trás. Nada. Respirei fundo. "Para de imaginar coisas." Foi quando um carro preto estacionou do outro lado da rua. Vidros completamente escuros. Motor ligado. Não consegui ver quem estava dentro. Fiquei observando por alguns segundos. Talvez esperasse alguém. Talvez fosse apenas coincidência. O ônibus chegou. As portas se abriram com um chiado. Entrei. Escolhi um lugar perto da janela. Enquanto o veículo arrancava lentamente, voltei a olhar para a rua. O carro continuava parado. Esperei. Então ele começou a andar. Na mesma direção do ônibus. Meu coração acelerou. Passei a viagem inteira tentando convencer a mim mesma de que aquilo não significava nada. Mas a sensação de estar sendo seguida permaneceu comigo até o momento em que desci. --- Cheguei em casa pouco depois das sete da noite. As luzes da varanda já estavam acesas. Minha avó regava cuidadosamente os vasos de samambaias pendurados perto da porta. Assim que me viu, abriu um sorriso. — Chegou, meu bem. Sorri de volta. Aproximei-me e a abracei. O perfume suave de lavanda que ela sempre usava me envolveu imediatamente. Era incrível como um simples abraço dela conseguia diminuir qualquer ansiedade. Por alguns segundos. Apenas alguns. Então ela falou: — Ah... Guardou o regador ao lado da porta. — Um rapaz esteve aqui hoje procurando você. Meu corpo inteiro enrijeceu. Afastei-me devagar. — Procurando... por mim? Ela assentiu naturalmente. — Muito educado. Disse que admirava seu trabalho. Meu coração começou a bater tão forte que doía. — Ele perguntou se você morava aqui. Senti o sangue desaparecer do meu rosto. — E... o que a senhora respondeu? Ela sorriu. Sem imaginar o tamanho daquilo. — Que sim. Mas expliquei que você estava trabalhando. Minhas mãos ficaram geladas. — Vó... Minha voz saiu quase num sussurro. — Como ele era? Ela pensou por um instante. — Alto. Elegante. Muito bonito. Fechei os olhos. Não precisava ouvir mais. Era ele. Só podia ser ele. — Antes de ir embora... Continuou minha avó. — Ele deixou um presente. Entrou na sala e voltou alguns segundos depois carregando uma caixa de bombons sofisticada, envolvida por uma fita preta de cetim. O mesmo laço. O mesmo cuidado. O mesmo padrão das flores. Meu estômago se contraiu. Recebi a caixa com mãos trêmulas. Abri lentamente. Dentro havia apenas um pequeno cartão branco. Peguei-o. As letras elegantes pareciam zombar de mim. "Agora sei onde encontrar você." Não havia assinatura. Não precisava. Meus dedos apertaram o papel com força. A casa, que sempre foi meu lugar mais seguro, pareceu menor. Mais vulnerável. Pela primeira vez desde a festa, compreendi a dimensão do problema. Aquilo nunca foi sobre flores. Nunca foi sobre gentileza. Era controle. Marcelo Ferraz queria que eu soubesse que podia entrar na minha vida quando quisesse. E o pior de tudo... Ele já havia encontrado o caminho até a pessoa que eu mais amava. Minha avó. Ergui lentamente os olhos para ela. Ela ainda sorria, completamente alheia ao perigo que acabara de cruzar nosso portão. Respirei fundo, tentando controlar o pânico que crescia dentro de mim. Na noite anterior, eu havia acreditado que enfrentara um homem poderoso. Agora entendia a verdade. A festa tinha sido apenas o começo. Sem que eu percebesse, Marcelo Ferraz transformara meu nome em uma obsessão. E eu acabava de descobrir que, para homens como ele... A palavra não era apenas um desafio.
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