Chute no rosto

1459 Words
Andrew Russo. Saio do escritório exausto, desejando apenas um banho relaxante de banheira. Trabalhar em casa, ao invés de na empresa, é muito mais cansativo do que se pensa. Vejo minha princesa entrar correndo em casa, e mesmo cansado, não consigo evitar um sorriso: — Papaiii! — ela corre até mim, e eu a pego no colo, abraçando-a. — Oi, minha princesa! Como foi a escola hoje? — Legal. A professora disse para uma moça que você é o pai mais bonito — ela diz, me surpreendendo. Coloco-a no chão. — Acho que precisamos te colocar em outra escola. Agora vai para o seu quarto tomar banho. Consegue sozinha? — pergunto, enquanto penso se a babá ainda está por aqui, mas ela assente e sobe correndo. Pego a mochila dela do chão e subo com pressa. Deixo a mochila na frente do quarto dela e entro no meu, desejando apenas deitar e dormir. Mas a vida de pai solteiro não é fácil. Na verdade, acho que na vida de qualquer pai ou mãe é assim. Tiro minhas roupas e entro no banheiro, trancando a porta enquanto vou para o box. [...] Depois de me vestir, escuto batidas na porta do quarto. Vou abrir, e Olivia me mostra o cabelo antes de falar qualquer coisa: — Papai, era para lavar hoje? Eu não sabia, então não lavei. — Tudo bem. Vamos jantar? — Posso ir nas suas costas? — dou risada, me abaixando, e ela pula em mim, segurando meu pescoço. — Se segura — digo, correndo. Ela gargalha enquanto descemos. A coloco no chão da cozinha e pego os pratos para esquentar no micro-ondas: — Papai, amanhã podemos ir ao cinema? — Que tal irmos a um desfile de moda? — Ela se anima, pulando. — Um desfile? Igual aqueles da TV? Com modelos e roupas estranhas, mas bonitas? — rio enquanto ela pula de empolgação. — Isso mesmo. Você gostaria de ir? — É claro que sim! Posso desfilar? — Ainda não, meu amor, mas vamos assistir ao desfile e depois ir rapidinho a uma festa, tá bom? — Sim, sim! Temos que comprar um vestido, pai. Posso pintar minhas unhas? — Ela se agarra à minha perna, pedindo. — Por favoooor, você nunca deixa eu pintar. — Porque não é coisa de criança — digo, pegando os pratos e talheres, arrastando a perna com ela pendurada. — Por favoooor, papai? Nem precisa ser o rosa que eu gosto, eu aceito um clarinho. — Tudo bem, agora vamos jantar — digo, e ela se senta animada, falando sobre o que precisa fazer para o desfile. [...] Eu a cubro e, quando vou apagar o abajur, ela segura minha mão: — Promete me comprar um sapato da Cinderela para o desfile, papai? Eu quero ficar bonita igual às modelos. — Sim, meu amor. Agora dorme, tá bom? — Tá bom. Eu te amo, papai — ela diz, e beijo sua testa. Ela se vira, e eu apago o abajur, deixando apenas a luz do bichinho na tomada, já que ela tem medo do escuro total. — Te amo, minha princesa. Até amanhã — digo, saindo do quarto e fechando a porta. Caminho até o meu quarto com calma, tiro minha blusa e me jogo na cama. Me cubro com a colcha quente e, quando respiro tranquilo, me assusto com o barulho da porta se abrindo: — Papai? — Santo Deus, Olivia, não me mata do coração assim. — Desculpa. Posso dormir com você? — Claro — rolo para o meio da cama, e ela pula, se deitando ao meu lado. — Boa noite, papai. Se você roncar, eu te acordo, tá bom? — Tá bom. Boa noite, querida — falo já quase dormindo, e ela coloca as mãozinhas geladas no meu pescoço. [...] Acordo com um chute certeiro bem no meio da cara e caio da cama com um baque seco, completamente assustado. Demoro alguns segundos para entender onde estou, piscando várias vezes enquanto uma faixa tímida de luz atravessa a cortina m*l fechada. Meu rosto lateja, o coração ainda acelerado, e eu solto um suspiro pesado antes de me levantar, sentindo o corpo reclamar do impacto e da noite m*l dormida. Olivia está estirada no meio da cama, completamente atravessada, de ponta-cabeça, ocupando um espaço que definitivamente não corresponde ao tamanho dela. O cabelo está espetado para todos os lados, como se tivesse brigado com o travesseiro — e perdido —, a boca entreaberta, um fiozinho de baba marcando a colcha. A cena é tão caótica quanto adorável. Aproximo-me com cuidado e a ajeito devagar, puxando o cobertor até seus ombros e afastando o cabelo do rosto. Ela resmunga algo incompreensível, mas não acorda. Caminho em silêncio até o banheiro, levando comigo a dor no rosto e um sorriso involuntário. Enquanto escovo os dentes, observo meu reflexo no espelho: marcas leves do chute, olhos cansados, mas um cansaço que não pesa — porque vale a pena. Volto para o quarto e encontro Olivia roncando agora de boca bem aberta, em um som suave e contínuo, quase cômico. — Uma princesa Fiona — murmuro, rindo baixo para não acordá-la. Fecho a porta com cuidado e desço as escadas, indo preparar nosso café da manhã. Coloco café para passar, corto algumas frutas, separo pão e ligo a TV, que começa a despejar as notícias matinais em um tom neutro e repetitivo. — Bom dia, senhor Russo — Esther diz, surgindo como sempre, discreta e eficiente. — Bom dia, Esther. Pode me fazer um favor? — pergunto. — Comprar um vestido e um esmalte rosa para Olivia? Algo que combine com um desfile beneficente. Ela inclina a cabeça, já calculando mentalmente. — Tudo bem, senhor. Devo comprar sapatos também? — Ela já tem muitos. Pegue um bonitinho e diga que é novo — respondo, com um meio sorriso. — Não posso criar uma filha tão consumista. Esther ri. — Acho que depois da Barbie de dois metros que ela comprou escondida, todos nós aprendemos uma lição. Assinto, lembrando perfeitamente do susto ao encontrar a boneca quase do tamanho dela escondida atrás do sofá. — Com certeza. Vou acordá-la, ok? Se puder ir resolvendo isso, diga que o look vai ser surpresa. — Pode deixar. Subo as escadas e abro a porta do quarto. Olivia acorda de repente, sentando-se na cama com os olhos semicerrados. Antes que ela diga qualquer coisa, pulo ao lado dela, fazendo a cama afundar. Ela sorri imediatamente, rindo. — Você roncou, papai. — Você que roncou. Parecia um porquinho — digo, imitando o som de propósito. Ela gargalha. — Eu sou uma princesa, papai. Princesas não roncam. — Tudo bem, Miss Dorminhoca — digo, apertando o nariz dela de leve. — Agora vai escovar os dentes pra gente tomar café. — E o desfile, papai? — pergunta, já descendo da cama. — Só à noite. Vamos ter tempo pra brincar, ver filme e até dormir um pouco antes de nos arrumarmos, ok? — Tá bom — responde, coçando os olhos. Pego-a no colo por alguns segundos antes de colocá-la no chão. — Anda logo, que estou quase desmaiando com esse bafinho. Ela sai correndo pelo corredor, rindo alto, e eu começo a arrumar a cama, que está um verdadeiro campo de batalha. Enquanto estico os lençóis, sinto o peito apertar levemente. Estou ansioso para o desfile. Há algo no ar, uma sensação estranha e boa, como se algo estivesse prestes a mudar. Como se aquela noite fosse mais do que apenas um evento social. Vou pegar meu melhor terno para hoje. Talvez surjam boas conversas, algum negócio interessante… ou até uma possível acompanhante para noites mais discretas. Meus irmãos são casados e completamente malucos. Sempre foram intensos, exagerados, apaixonados ao limite. Eu nunca senti nada parecido, e sei que sou diferente. Eles quase sequestraram as esposas de tão obcecados que ficaram. A mulher com quem mais tive vínculo foi a mãe da Olivia. Minha antiga secretária. Tudo começou em uma noite de bebedeira pós- trabalho. Nada planejado, nada romântico. Viramos bons amigos, depois ocasionais amantes, e então veio a gravidez. Nunca fomos um casal de verdade. Ela amava a Olivia. Mesmo sem nunca ter visto seu rostinho. O que eu não sabia — o que ela nunca me contou — é que estava lutando contra um tumor irreversível. Não havia cirurgia possível. A quimioterapia não daria tempo. Ela sabia de tudo… e ainda assim escolheu o silêncio. Quando descobri, já era tarde demais. O tumor rompeu durante o parto. Quase perdi minha filha também. Por muito pouco. E talvez seja por isso que hoje, vendo Olivia espalhada pela cama, roncando e me chutando sem querer, eu saiba: tudo o que ainda pode mudar… vale a pena.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD