POV Isadora
A casa era pequena, velha e fedida. Mas, pra quem olhava de fora, parecia só mais uma residência em um bairro esquecido por Deus. Uma casa comum, numa rua comum, com uma porta comum.
Ninguém desconfiava do inferno que existia atrás daquela porta sempre trancada.
Aos dezesseis anos, eu já sabia que aquele lugar não era lar.
Era prisão.
Meu quarto era mais um cativeiro. Três metros por três. Uma janela trancada com pregos e uma cortina fina, encardida, que m*l segurava a luz. Paredes amareladas pelo tempo, cheias de rachaduras finas, como se a própria casa também estivesse cansada de permanecer em pé. O chão de cimento frio, áspero, que grudava sujeira como se precisasse colecionar alguma coisa.
O cheiro de mofo misturado com cigarro velho grudava na minha pele, no meu cabelo, nas minhas roupas. Eu podia tomar quantos banhos quisesse — quando ele deixava — que ainda assim sentia aquele fedor impregnado em mim.
E o barulho da fechadura sendo trancada toda noite era meu lembrete diário de que eu não era livre.
Nunca fui.
O nome dele era Otacílio, mas eu só o chamava de “ele”. Meu padrasto. O homem que destruiu minha vida no dia em que matou minha mãe. E continuou destruindo nos dias seguintes.
Um dia de cada vez.
Uma parte de cada vez.
Depois que ela morreu, ele começou a me arrancar do mundo com a mesma paciência de quem arranca pétala de flor.
Primeiro, foram as visitas às amigas.
— Ficar na casa dos outros pra quê, Isa? Vai aprender coisa errada.
Depois, a igreja.
— Pastor nenhum paga as contas daqui. Não vou perder tempo.
Depois, a escola.
— Não tem dinheiro pra passagem. E mulher não precisa de estudo pra lavar prato, né?
Ele falava isso rindo, como se fosse piada.
Mas não era piada.
Era controle.
Ele não queria que eu fosse vista.
Não queria que ninguém soubesse que eu ainda existia.
Como se eu fosse um segredo podre enterrado no quintal.
A rotina era sempre a mesma.
Ele saía cedo pro ferro-velho, com a camisa cheirando a graxa e álcool, trancava as portas, escondia as chaves. Eu ouvia o barulho da chave girando duas vezes na fechadura. “Cli-clac”. Era o som da minha sentença diária.
Durante o dia, eu limpava a casa, esfregava o chão, lavava os pratos, estendia roupa, fazia comida.
Não tinha relógio. Não tinha calendário.
Eu só media o tempo pela posição do sol no retângulo da janela e pelo barulho dos vizinhos.
Quando o portão batia ao anoitecer, meu corpo enrijecia sozinho.
Às seis, ele voltava com o bafo de pinga e o humor de um cão doido.
Eu tinha que estar de banho tomado, a casa limpa, o jantar pronto e o rosto abaixado.
Qualquer deslize… e o inferno vinha.
Tapas.
Chutes.
Beliscões.
Palavras cruéis sussurradas como veneno no meu ouvido:
— Você não vale nada. Nem sua mãe prestava. Você vai acabar igual a ela: morta.
Eu fingia que não doía. Que não afetava. Que eu tinha virado pedra.
Mas a verdade?
Eu tinha medo até da respiração dele.
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A tentativa de fuga começou pequena.
Quase ridícula.
Foi numa noite de calor, depois de mais um show dele quebrando garrafas na cozinha, xingando minha mãe mesmo anos depois de morta. Eu estava no quarto, com o coração acelerado, ouvindo o ronco dele crescer na sala, irregular, pesado, como se cada inspiração fosse uma ameaça segurando fôlego.
Ali, pela primeira vez, eu pensei em fazer algo que ele não tinha mandado.
Esperei mais.
Contei mentalmente até cem.
Depois até duzentos.
Depois até trezentos.
O ronco continuava.
A TV ligada no mudo.
O copo caído no chão.
Me levantei devagar, com o peito ardendo, e deixei os pés descalços tocarem o chão gelado. Cada passo até a porta do quarto parecia um crime. Abri a maçaneta devagar, pra não fazer barulho.
O corredor estava escuro, só com um fio de luz vindo da sala.
Ele estava jogado no sofá, pernas abertas, braço pendendo pro lado, a garrafa tombada no chão.
Eu prendi a respiração e segui pra cozinha.
Cada sombra parecia um monstro novo.
Cada estalo do piso, um aviso de que eu ia morrer.
Cheguei na pia e peguei a única “arma” que eu tinha: uma colher.
Ridículo, eu sei.
Mas era tudo o que dava pra alcançar.
Voltei pro quarto, fechei a porta, empurrei a cômoda um pouco pra frente, abafando qualquer som. Fui até a janela pregada. A madeira, já velha, tinha algumas frestas pequenas, mas eu queria mais.
Comecei a cavar devagar ao redor dos pregos, raspando a madeira, tentando abrir uma rachadura maior.
Eu só queria ver a rua.
Ouvir gente.
Provar que o mundo ainda existia.
Cada raspada fazia minha esperança crescer um pouco.
Talvez eu conseguisse tirar uma tábua.
Talvez eu conseguisse chamar alguém.
Talvez eu conseguisse fugir.
Mas “talvez” dura pouco na vida de quem não tem escolha.
A maçaneta girou de repente.
O som foi tão alto que eu quase larguei a alma junto com a colher.
Eu congelei.
A colher travada na mão.
O coração parou por um segundo, depois explodiu no peito.
Ele acendeu a luz.
A claridade cortou o quarto como pancada.
Me viu ali, com o cabelo desgrenhado, a colher levantada, o olhar decidido — ou tentando parecer decidido, mesmo com as mãos tremendo.
O silêncio durou um segundo que pareceu uma eternidade.
Por um instante, eu tive certeza: vou morrer.
Mas ele riu.
Um riso lento, debochado, que me fez ter mais nojo do que medo.
— Você ainda tem fogo, hein, Isa? — disse, se aproximando. — Isso é bom. Eu gosto disso. Gosto de mulher que não desiste fácil.
Tomou a colher da minha mão com tanta força que quase arrancou meus dedos junto.
Depois vieram os gritos.
Os tapas.
Os empurrões.
Naquela noite, não teve só tapa.
Teve castigo.
Ele me arrastou pelo braço até o banheiro. Me jogou lá dentro e trancou a porta por fora.
— Quer fugir? Então aprende primeiro a ficar no escuro — rosnou.
Fiquei dois dias ali.
Sem comida.
Só água da torneira.
No segundo dia, minhas pernas m*l me obedeciam.
Minhas costas doíam por dormir no chão gelado.
Minha barriga roncava tão alto que parecia gritar por mim.
A colher sumiu.
Meu orgulho também.
Mas a vontade de sair…
Essa nunca sumiu.
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Na terceira noite, quando ele finalmente abriu a porta, a luz da casa entrou no banheiro como um tapa no rosto. Eu saí tropeçando, fraca, com os olhos ardidamente acostumados à escuridão.
Ele me olhou de cima a baixo, com uma mistura estranha de desprezo e satisfação.
Como se tivesse moldado algo.
— Tá vendo? Você não vive sem mim — murmurou, passando a mão no meu rosto, num gesto que queria parecer carinho e só me dava vontade de vomitar.
Voltei pro quarto com as pernas bambas e deitei na cama dura.
Enfiei o rosto no travesseiro e chorei em silêncio.
Chorar em silêncio virou habilidade.
Chorar alto era convite pra mais violência.
Olhei pro teto, tentando imaginar o mundo lá fora.
Gente rindo.
Gente reclamando do trânsito.
Gente pegando ônibus lotado, indo pra escola, odiando segunda-feira.
Eu daria qualquer coisa pra sentir esse tipo de cansaço.
Cansaço de viver.
Não de sobreviver.
Ali, aos dezesseis anos, trancada dentro da própria casa, eu entendi que não bastava querer fugir.
Querer não era suficiente.
Esperar também não.
Eu ia precisar ser mais esperta que ele.
Mais fria que ele.
Mais paciente que ele.
Naquela tentativa fracassada, aprendi duas coisas:
Uma: ele nunca ia me deixar sair por vontade própria.
Duas: eu ia precisar de algo maior do que uma colher.
E, pela primeira vez, junto do medo, uma outra coisa começou a crescer dentro de mim.
A vontade de liberdade.
Ainda era pequena.
Quase tímida.
Mas estava ali.
E não ia embora.