Lucca Bianchi
Conversei bem pouco com Madson enquanto rodopiávamos na pista de dança, mas foi o suficiente para perceber algumas coisas sobre a minha recém-esposa.
Ela é curiosa.
Afiada.
Tem uma língua que parece funcionar alguns segundos antes do cérebro.
E, definitivamente, não é submissa.
Isso ficou evidente desde o primeiro instante em que cruzamos os olhos no altar.
Madson não abaixou a cabeça diante de mim.
Não desviou o olhar.
Não tentou parecer menor do que realmente é.
Pelo contrário.
Ela me analisou exatamente da mesma maneira que eu a analisei.
Como se estivesse tentando descobrir que tipo de homem havia acabado de colocar um anel no dedo dela.
Talvez, no meio desse caos forçado, possamos ser bons amigos.
Se é que amizade tem espaço em um mundo construído sobre contratos de sangue, alianças políticas e casamentos decididos por homens que raramente perguntam o que as pessoas envolvidas realmente desejam.
Sei muito bem que um casamento na máfia não se sustenta apenas com amizade e conveniência.
Em algum momento, existe uma expectativa.
Uma cobrança.
Uma família.
Um sobrenome.
Uma sucessão.
Mas, neste momento, não consigo pensar em nenhuma dessas coisas.
Porque, quando olho para Madson, a única coisa que consigo ter certeza é de que não consigo colocar outra mulher no meu coração.
Não agora.
Talvez nunca.
O vazio deixado pela partida de Helena ainda está presente.
Terrivelmente presente.
Às vezes, tenho a impressão de que consigo sentir o perfume dela em algum corredor, ouvir sua risada em meio às vozes de outras pessoas ou enxergar seu rosto em algum lugar movimentado.
E então lembro.
Ela não está mais aqui.
A sensação de perda ainda rasga alguma coisa dentro de mim.
E eu simplesmente não sei se algum dia conseguirei me libertar dessa culpa.
Fui covarde quando mais precisei ter coragem.
Minha omissão valeu uma vida.
Talvez, se eu tivesse aberto a boca a tempo…
Se tivesse pedido Helena em casamento…
Se tivesse dito claramente tudo aquilo que sentia…
Ela estaria aqui hoje.
Sorrindo ao meu lado.
Talvez reclamando da quantidade de pessoas nessa festa.
Talvez segurando minha mão.
Talvez usando um anel que eu mesmo teria colocado em seu dedo.
Mas não está.
E, no lugar dela, existe uma mulher que não tem culpa nenhuma da minha história.
Uma mulher que acabou de ser jogada dentro dela.
Por isso, não posso exigir que Madson cure uma ferida que não foi ela quem abriu.
Aviso a ela que deve ir se despedir dos pais.
Ainda temos uma longa viagem pela frente.
Precisamos voar para a Itália naquela mesma noite, onde tenho assuntos urgentes para resolver com o Don da máfia italiana antes de finalmente seguir para a Rússia.
Assim que me afasto de Madson, Enzo se aproxima.
Ele vem tragando o restante do charuto, com a testa franzida e aquela expressão de quem está prestes a me dar um sermão que não solicitei.
Enzo — Tem certeza absoluta de que não quer ver isso depois, Lucca? Isso pode esperar alguns dias, cara. Você acabou de casar.
— Não, Enzo. Já disse que está decidido.
Ele solta a fumaça lentamente.
— Resolvo o que tenho pendente na Itália e volto logo para a Rússia.
Enzo — Acabou de casar, p***a.
Ele aponta o charuto para mim.
Enzo — Devia estar aproveitando a noite de núpcias, não voando para resolver burocracia de capo.
Olho para ele com uma sobrancelha arqueada.
— Não me lembro de ter visto você tirando lua de mel depois que colocou a aliança na mão da Beatrice.
Enzo fica em silêncio por dois segundos.
Então solta um muxoxo amargo e cospe a fumaça para o alto.
Enzo — Só se for para eu morrer ou matar alguém lá na linha de frente durante a lua de mel.
— Pelo menos você mantém o espírito romântico.
Enzo — Vai se f***r.
Deixo escapar um pequeno sorriso.
Ele continua:
Enzo — No seu caso, a história é outra. A Madson não se parece nem um pouco com a Beatrice. Ela é controlada. Não vai te dar dor de cabeça de graça.
Paro de andar.
Viro-me lentamente para encará-lo.
— Você fala da Beatrice como se conhecesse cada pensamento daquela mulher.
Enzo franze a testa.
— E conheço o suficiente.
— Não. Você conhece aquilo que decidiu enxergar.
Ele fica em silêncio.
Então decido despejar a verdade crua que venho guardando na garganta há meses.
— Eu vejo você reclamando da Beatrice o tempo todo, Enzo. Mas, na real? Eu não acho que ela seja esse monstro que você pinta.
Ele aperta a mandíbula.
— Lucca…
— Já parou para analisar friamente que talvez as ações defensivas dela sejam apenas reações diretas às suas atitudes abusivas?
Enzo me encara.
— Você está passando dos limites.
— Talvez alguém precise passar.
Dou um passo na direção dele.
— Talvez quem esteja criando essa “Beatrice fria e distante” seja você mesmo. Com esse seu ego machucado e ferido por um passado que jamais vai retornar.
Ele permanece calado.
— Você fica punindo a Beatrice todos os dias porque ela faz você sentir a mesma dor que um dia você acha que sentiu pela Karina.
Os olhos dele ficam ainda mais duros.
— Não fala dela.
— Vou falar, sim.
Minha voz permanece firme.
— Porque alguém precisa dizer isso na sua cara.
Ele dá uma tragada profunda no charuto.
— Cuidado.
— Você foi traído. Eu sei que dói pra c*****o. Não estou dizendo que não dói.
Faço uma pausa.
— Mas aquilo com a Karina não chegou nem perto de ser amor.
Enzo fecha os olhos por um instante.
— Ela foi uma p**a sem coração que entrou na sua vida para te manipular e destruir por dentro. Você foi enganado. Foi traído. Isso aconteceu. Mas você está tendo uma segunda chance legítima de recomeçar com uma mulher que não tem culpa dos seus traumas.
Aponto discretamente para ele.
— Então não desperdice isso com paranoia.
Enzo me fita com os olhos carregados de raiva e frustração.
Por alguns segundos, acredito que ele vai me mandar para o inferno.
Mas ele apenas sorri de lado.
Um sorriso sem humor.
Enzo — Eu digo exatamente a mesma coisa para você, Lucca.
Meu corpo fica rígido.
Enzo — Não desperdice a sua chance com fantasmas.
— É diferente.
Ele não responde.
— A minha perda foi recente, Enzo. Não se compare.
Enzo — Eu dizia essa exata mesma desculpa para mim mesmo todos os dias no início.
Fico em silêncio.
Enzo — E hoje vejo, com horror, que já se passaram mais de dez anos…
Ele balança a cabeça.
Enzo — E eu ainda não superei a p***a do passado.
Aquelas palavras me atingem mais profundamente do que gostaria.
Enzo dá uma última tragada no charuto.
Enzo — Cuidado, Lucca. Se você permitir que essa culpa continue alimentando a sua mente, ela vai te assombrar pelo resto da sua vida maldita.
Não respondo.
Porque, pela primeira vez naquela noite, não tenho uma resposta pronta.
Viro o restante da minha bebida de um só gole e me sirvo de outra dose generosa logo em seguida.
Ele tem razão.
E isso é o que mais me irrita.
Mas é mais forte do que eu.
Preciso respeitar a memória de Helena.
Tudo aconteceu tão rápido.
De maneira tão brutal.
Eu simplesmente não quero esquecê-la.
Mesmo sabendo, racionalmente, que preciso seguir em frente se quiser sobreviver sem transformar minha própria vida em um funeral permanente.
⸻
Cumprimento alguns convidados de elite enquanto Madson sobe para o andar de cima para trocar de roupa.
O comboio de carros já está posicionado do lado de fora, esperando por ela e por toda a família.
Voltaremos todos juntos para a Itália ainda naquela noite.
Meus pais, porém, seguirão por uma rota direta para a Rússia.
Tudo está organizado.
Tudo está calculado.
Como sempre.
Exceto talvez pela parte em que uma mulher que eu conheço há poucas horas agora é oficialmente minha esposa.
Gregório se aproxima.
Ele ajeita os punhos da camisa enquanto caminha, mas o semblante sério denuncia exatamente o que está pensando.
É o rosto de um pai que está despachando a filha para o desconhecido.
Ele para diante de mim.
Gregório — Estou entregando o meu maior tesouro e uma parte de mim hoje para as suas mãos, Lucca.
Não respondo imediatamente.
Gregório — Espero sinceramente não me arrepender amargamente dessa escolha.
Encaro o homem diante de mim.
— Não se preocupe, Gregório.
Minha voz sai firme.
— Eu posso ser tudo o que dizem por aí, mas não sou um babaca a ponto de maltratar quem está sob a minha proteção.
Ele me observa por alguns segundos.
— É bom ouvir isso.
— Pode confiar.
Chloe, que está logo atrás do pai, cruza os braços e ergue o queixo com um sorriso irônico.
Chloe — É muito bom, de verdade, ouvir isso da boca do próprio capo.
Olho para ela.
Ela continua:
Chloe — Mas fique avisado: a minha irmã é delicada como uma flor à primeira vista.
Um sorriso pequeno surge em seus lábios.
Chloe — Porém, como todos nós sabemos na nossa família, todas as rosas contêm espinhos extremamente afiados, prontos para te espetar fundo quando você menos esperar.
— Agradeço o aviso e o conselho, Chloe.
Ela arqueia uma sobrancelha.
Chloe — Não diga depois que eu não avisei.
— Não direi.
Ela sorri.
— Até logo mais.
⸻
Todos já estão acomodados nos veículos de traslado.
Eu continuo parado na entrada principal, esperando Madson aparecer.
Enquanto o tempo passa arrastado, acendo um cigarro.
Não sou de fumar com frequência.
O vício nunca me atraiu.
Recorro ao tabaco apenas nos raros momentos em que o estresse e a impaciência ameaçam transbordar o meu autocontrole.
Dou uma tragada.
A fumaça se perde no ar noturno.
Minha mente volta para Helena.
Como sempre.
Até que uma voz feminina me arranca dos pensamentos.
Madson — Vamos nessa?
Levanto a vista abruptamente.
E fico alguns segundos em silêncio.
Ela está parada no alto da escada.
Mudou completamente.
O vestido suntuoso desapareceu.
No lugar dele, existe um conjunto de moletom cinza largo que esconde totalmente as curvas do corpo.
Os cabelos estão presos em um coque alto e despojado.
Não há uma gota de maquiagem em seu rosto.
Os fones de ouvido estão pendurados no pescoço.
Ela parece…
Normal.
Uma garota completamente comum.
Distante anos-luz da imagem de princesa da máfia que desceu aquelas escadas algumas horas antes.
Fico alguns segundos a mais encarando a transformação repentina.
Não sei exatamente por quê.
Talvez porque seja estranho enxergar a mesma mulher em duas versões tão diferentes.
No altar, ela parecia uma princesa.
Agora, parece simplesmente Madson.
Uma garota que provavelmente preferiria estar em qualquer outro lugar do mundo.
Ela percebe meu olhar.
Madson — Tem alguma coisa errada com a minha roupa, senhor Bianchi?
Continuo em silêncio.
Ela inclina a cabeça.
Madson — Quer que eu coloque um vestido de gala no meio da madrugada?
Percebo que fiquei tempo demais analisando-a e sequer havia prestado atenção ao tom ácido da pergunta.
— Não.
Dou uma última tragada no cigarro e o apago.
— Está tudo certo.
Faço uma pausa.
— Vamos.
Dou a volta rapidamente e caminho até a lateral do carro.
Abro a porta traseira para ela entrar e faço questão de segurá-la.
Pela expressão em seu rosto, percebo que ela ficou surpresa.
Talvez esperasse que eu simplesmente entrasse no carro e mandasse alguém cuidar disso.
Ela me olha por um instante.
— Obrigada.
Faço apenas um aceno.
Entramos no veículo.
Seguimos direto para o aeroporto particular.
Assim que o carro arranca, Madson me olha de soslaio.
Cruza os braços.
Está claramente incomodada.
Madson — Posso saber exatamente por que não estamos indo direto para a Rússia, como estava combinado nos planos?
— Porque tenho negócios urgentes e inacabados para resolver na Itália antes de assumir minhas funções definitivas lá no leste.
Ela franze a testa.
Madson — Ah.
Faz uma pausa.
Madson — Entendi perfeitamente.
Olho para ela.
Madson — Vamos passar a nossa chamada lua de mel na casa alheia dos outros mafiosos.
Ela olha pela janela.
Madson — Ótimo começo.
— Eu não gosto de ficar hospedado na casa de ninguém, Madson.
Ela volta o olhar para mim.
— Por isso, temos uma rede de apartamentos de segurança e coberturas de luxo espalhadas por vários países estratégicos onde preciso passar mais de um dia resolvendo operações.
Madson — Hum…
Ela ergue uma sobrancelha.
Madson — Entendi.
Depois olha diretamente para mim.
Madson — Nós temos, é?
— Sim.
— Nós?
— Nós.
Ela parece analisar a palavra.
— Por quê?
— Porque agora somos casados.
Ela dá de ombros.
— Isso eu já percebi.
— Legal e criminalmente.
Madson solta uma pequena risada pelo nariz.
— Essa segunda parte é particularmente reconfortante.
Ignoro a provocação.
— O que é meu por direito de conquista, por consequência, é seu também.
Ela me olha por alguns segundos.
Madson — Entendi perfeitamente a lógica da corrupção.
Ela volta a olhar pela janela.
— Quer saber? Deixa para lá.
Não diz mais absolutamente uma única palavra.
Simplesmente encaixa os fones nos ouvidos, vira o rosto em direção à janela escura e me ignora pelo restante do trajeto até o jato particular.
Não sei se isso deveria me irritar.
Estranhamente, não irrita.
Talvez porque eu reconheça naquela atitude algo que também faço.
Quando não quero conversar, simplesmente me fecho.
⸻
Horas depois, já a bordo do nosso jato particular, cruzando o Atlântico rumo à Europa, o cansaço acumulado cobra seu preço.
O som abafado dos motores preenche a cabine espaçosa.
As luzes estão reduzidas.
A maioria das pessoas já está descansando.
Olho para o assento ao lado.
Madson apagou completamente.
Está curvada de um jeito desconfortável na poltrona de couro, com a cabeça inclinada para o lado.
— Madson…
Nada.
— Ei, Madson, acorda um pouco.
Toco levemente seu ombro.
Nada.
Ela sequer se mexe.
Franzo a testa.
— Madson.
Novamente, nada.
Nesse momento, Louise, que estava sentada algumas fileiras à frente, passa por nós com uma garrafa de água na mão.
Ela olha para Madson.
Depois para mim.
E um sorriso debochado aparece no rosto dela.
Louise — Pega ela no colo, ué!
Olho para minha irmã.
— O quê?
Louise — Tá ficando fraco, maninho?
Ela ri.
Louise — O capo da máfia russa não consegue acordar a própria mulher?
— Louise…
Ela começa a se afastar.
Louise — Anda logo!
— Vai cuidar da sua vida.
Louise — Estou cuidando. Só estou oferecendo soluções.
Ela sai rindo disfarçadamente para o fundo da aeronave.
Bufo mentalmente.
Olho novamente para Madson.
Ela continua completamente apagada.
Sem outra alternativa, abaixo-me.
Passo um braço sob suas pernas e outro por trás de suas costas.
Ergo seu corpo.
Ela é leve.
Muito leve.
E, para minha surpresa, continua dormindo.
Nem sequer se mexe.
Carrego-a por todo o corredor do jato.
Quando entro na área principal, todos os olhares se voltam para nós.
E, obviamente, Klaus não perde a oportunidade.
Klaus — Ui!
Continuo andando.
Klaus — Que romântico!
Ignoro.
Klaus — Olha só o brutamontes virando um ursinho de pelúcia fofinho.
Paro por um segundo.
— Vai se f***r, Klaus.
Ele começa a rir.
Louise — Que boca suja, Lucca!
Ela aparece novamente.
Louise — Tem crianças espirituais voando com a gente.
Reviro os olhos.
— Vocês são insuportáveis.
Continuo andando.
Levo Madson até uma das poltronas reclináveis e a acomodo com cuidado.
Ajeito o cinto de segurança ao redor dela antes de me sentar no assento ao lado.
Ela dorme tão pesadamente que chega a ser estranho.
Assim que o avião atinge a altitude de cruzeiro e a aeromoça avisa pelo interfone que podemos desatar os cintos, tento acordá-la novamente.
— Madson.
Nada.
Toco seu ombro.
— Acorda.
Ela apenas resmunga alguma coisa incompreensível e vira o rosto para o outro lado.
Desisto.
Nesse momento, Leila passa por ali.
Ela olha para Madson.
Depois para mim.
Leila — Deixa ela quieta, Lucca.
— Ela vai acabar acordando com dor no pescoço.
Leila sorri.
Leila — Ela deve ter tomado algum comprimido forte para dormir por causa da ansiedade do voo ou do casamento.
Fico em silêncio.
Leila — Eu fiz exatamente a mesma coisa na minha primeira vez voando de avião para cruzar o oceano.
Ela aponta para a poltrona.
Leila — Mas te dou um conselho de amiga: eu agradeceria muito se estivesse deitada em uma cama de verdade agora.
— Ela não vai querer acordar.
Leila — Então não acorde.
Olho para ela.
Leila — Se ela dormir nessa posição torta, vai acordar com uma dor muscular insuportável no pescoço amanhã.
Ela segue pelo corredor.
Fico olhando para Madson.
Depois para a suíte no fundo da aeronave.
Suspiro.
Levanto-me.
Pego Madson novamente nos braços.
Ela continua dormindo profundamente.
Nenhuma reação.
Caminho com cuidado até a suíte privativa localizada no fundo do jato.
Abro a porta.
A cama de casal está preparada.
Coloco Madson sobre o colchão macio com todo o cuidado possível.
Ela se acomoda instantaneamente.
Puxa involuntariamente parte do cobertor.
Respira fundo.
E continua dormindo.
Fico parado ao lado da cama por alguns segundos.
Não sei por que estou observando.
Talvez porque seja estranho ter alguém dividindo aquele espaço comigo.
Talvez porque, até poucas horas atrás, aquela mulher era uma desconhecida.
Agora, oficialmente, ela é minha esposa.
Saio do quarto e caminho até a área do bar do jato.
Pego um copo de cristal e sirvo uma dose forte de uísque.
Fico ali parado, contemplando o escuro lá fora através da janela redonda.
Meu corpo começa a pesar.
Os últimos dias foram longos.
O casamento.
Os preparativos.
A despedida.
A viagem.
A conversa com Enzo.
E, inevitavelmente, Helena.
Sempre Helena.
Fecho os olhos por alguns segundos.
Ouço passos atrás de mim.
Louise.
Ela para na minha frente com as mãos na cintura.
Louise — O que você está fazendo aqui sozinho, bebendo no escuro a essa hora?
— Pensando.
Louise — Péssimo hábito.
— Você não foi convidada para a sessão.
Ela revira os olhos.
Louise — Vai logo para o quarto se deitar, Lucca.
— A Madson está dormindo na cama.
Louise — Eu sei.
— Não quero atrapalhar o descanso dela.
Minha irmã me encara como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda do mundo.
Louise — Lucca, por favor, cresça.
— O quê?
Louise — A Madson não é nenhuma estranha perigosa. Ela é a sua esposa legítima.
Ela aponta para o corredor.
Louise — Vai se deitar de uma vez. Ela não vai te agarrar enquanto você estiver dormindo.
— Louise…
Louise — Deixa de ser ridículo e traumatizado!
Ela passa por mim, esbarrando de leve no meu ombro.
Pega uma garrafinha de água mineral na bancada.
Antes de sair, olha novamente para mim.
Louise — E, pelo amor de Deus, tenta não passar a viagem inteira fugindo dela.
— Eu não estou fugindo.
Ela sorri.
Louise — Claro.
E vai embora.
Fico sozinho novamente.
Olho para o copo em minha mão.
Depois para o corredor.
O jato é enorme.
Cinco quartos privativos.
Uma sala de estar completa.
Um bar suntuoso.
Espaço suficiente para comportar até trinta pessoas com total conforto.
Ainda assim, pela primeira vez, tenho a sensação de que aquele corredor parece pequeno demais para tudo o que está acontecendo dentro da minha cabeça.
Viro o restante da bebida de uma só vez.
Deixo o copo de lado.
Talvez Louise tenha razão.
Talvez eu esteja evitando algo que nem sequer começou.
Caminho de volta pelo corredor em silêncio.
Entro na suíte.
Acendo apenas a luz fraca do abajur.
Madson continua exatamente na mesma posição em que a deixei, enrolada nos cobertores.
Observo-a por alguns segundos.
Então tiro os sapatos.
Deito-me devagar ao lado dela.
Mantenho uma distância segura.
Não encosto um centímetro sequer em seu corpo.
Fecho os olhos.
Tento apagar a mente pelo restante da viagem.
Mas, antes de finalmente conseguir relaxar, uma última imagem atravessa meus pensamentos.
Madson na pista de dança.
O sorriso discreto.
A provocação.
Aquela frase sobre anjos com as asas queimadas.
“Vamos descobrir isso juntos com o tempo.”
Não sei por que aquelas palavras continuam ecoando na minha cabeça.
Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém tenha conseguido despertar minha curiosidade sem tentar arrancar de mim aquilo que não estou preparado para oferecer.
Abro os olhos por um instante.
Olho para o teto.
Depois para a mulher adormecida ao meu lado.
Minha esposa.
A pessoa que, até hoje, era apenas um nome em um contrato.
Talvez o tempo realmente nos faça descobrir alguma coisa.
Fecho os olhos novamente.
E, pela primeira vez naquela noite, tento dormir sem pensar no que perdi.
Sem pensar no que deixei para trás.
Sem pensar em Helena.
Pelo menos por algumas horas.