Madson Davis
Minha vida é, ironicamente, cercada por um silêncio calculado que precede a tempestade.
Meu pai é um grande paizão, um homem dócil, carinhoso e presente dentro de casa; fora dela, no entanto, ele é um dos mafiosos mais temidos, implacáveis e respeitados de toda a costa.
Mas, dentro de casa, entre as quatro paredes do nosso lar, ele só é o meu pai.
O homem que me pega no colo, que sorri das minhas piadas e que tenta, à sua maneira distorcida, proteger as filhas do mundo c***l que ele mesmo ajuda a governar.
Ainda assim, eu sempre soube que a realidade cobraria seu preço mais cedo ou mais tarde.
Dentro da máfia, todos nós temos obrigações intransigíveis, e o fardo principal das mulheres sempre foi o casamento arranjado. Contratos de carne e sangue assinados em mesas de mogno, selados por homens que discutem alianças como se estivessem negociando ações de empresas.
Tratadas, na maioria das vezes, como meras vacas parideiras, as mulheres da nossa casta servem quase exclusivamente para garantir a sucessão e gerar a nova geração de soldados e chefões mafiosos.
Meu pai não é tão diferente dos outros chefes nesse aspecto feudal. Mas, pelo menos, ele me deixou viver um pouquinho mais à margem dessa obrigação, permitindo-me migrar por entre as frestas da liberdade.
Sou bailarina.
Quer dizer, não exatamente uma bailarina profissional no sentido estrito da palavra, já que jamais pude subir a um palco de verdade ou participar de nenhuma apresentação pública de prestígio.
De acordo com os planos originais do papai, quem se casaria dentro dessa aliança seria Chloe. No entanto, em uma daquelas manobras frias de xadrez corporativo e criminoso, ele resolveu mudar de ideia bem em cima da hora, decidindo me sacrificar no lugar dela, empurrando-me para o altar.
Uma parte de mim, contudo, já sabia que isso aconteceria cedo ou tarde.
Papai jamais abriria mão do cérebro estratégico da família — e essa é a Chloe — tão cedo. Ela é a mente brilhante para os negócios sujos, enquanto eu sou vista apenas como a peça descartável do tabuleiro.
Para piorar, eu não sei quase nada sobre o meu noivo.
Não sei sua aparência, não sei sua idade, não sei absolutamente nada além do seu nome de batismo e do fato gélido de que ele é russo e cunhado do próprio Don da máfia italiana.
Um fantasma vestido de terno caro me aguarda.
As batidas leves na porta do meu quarto me arrancam dos devaneios.
Chloe — Ora, ora… Mad, posso entrar?
Respiro fundo, tentando recompor a postura antes de responder com meu habitual tom irônico.
— Você já entrou, né, Chloe? A porta nunca tranca para você mesmo.
Ela abre um sorriso pequeno e entra de vez.
Chloe — Eu sabia que você ia estar assim.
— Assim como?
Chloe — Com essa cara de quem está planejando fugir do país.
— Não seria uma ideia tão r**m.
Chloe caminha pelo quarto com passos cautelosos, sentando-se na ponta da minha cama. Ela encara as próprias mãos por alguns segundos antes de finalmente olhar para mim.
Chloe — Mad, eu sei que você está profundamente chateada, furiosa e com razão, mas juro que eu não tive culpa nessa troca repentina.
Cruzo os braços.
— Eu sei que você não teve culpa.
Chloe — Sabe?
— Sei. Mas isso não significa que eu esteja feliz por ter sido escolhida no seu lugar.
Chloe — Eu sei disso também.
Ela respira fundo.
Chloe — Não vou ser cínica a ponto de dizer para você que estou triste com isso, porque seria a maior hipocrisia do mundo. Mas eu sinto muito por você ter sobrado nessa história e ficado tão transtornada.
Solto uma risada sem humor.
— “Ter sobrado” foi ótimo, Chloe. Parece que eu sou a última opção de um buffet.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei.
Caminho até a janela e observo o movimento do lado de fora.
— Sabe pelo menos como ele se chama, Chlo? Papai te deu alguma pista antes de assinar a minha sentença?
Chloe balança a cabeça.
Chloe — Não. Juro por tudo que é mais sagrado. Papai fez questão de manter segredo absoluto e não quis me dizer uma única sílaba sobre ele.
— Nem para você?
Chloe — Nem para mim.
— Isso é péssimo.
Chloe — Eu tentei descobrir.
Viro-me imediatamente.
— Tentou?
Ela dá de ombros.
Chloe — É claro que tentei. Você realmente acha que eu deixaria minha irmã ser entregue a um homem sem pelo menos tentar descobrir quem ele é?
— E?
Chloe — Nada.
— Nada?
Chloe — Nada. Papai fechou todas as portas possíveis. E você sabe que isso significa alguma coisa.
— Isso só me deixa ainda mais nervosa.
Passo as mãos pelos cabelos.
— Será que ele é um monstro? Será que ele é c***l, sádico, um daqueles caras que a gente ouve nas histórias de terror da máfia? Será que é por isso que papai está com tanto medo de nos contar a verdade?
Chloe prende uma risada.
Chloe — Bom, Mad… Mau, todo homem nessa vida de cão é um pouco.
— Chloe!
Chloe — Estou falando sério!
Ela começa a rir.
Chloe — Mas o papai deve só não querer que a gente fique fuxicando a vida dele por aí, porque sabe perfeitamente que você faria exatamente isso. Investigaria até a última ficha criminal do infeliz.
— E faria mesmo!
Chloe — Eu sei.
— Descobriria até o nome da professora da primeira série.
Chloe — E provavelmente o CPF dela também.
— Exatamente.
Chloe — Por isso mesmo ele não contou nada.
Suspiro profundamente.
— É simplesmente horrível casar assim, no escuro, como um contrato de gado!
Chloe — Você está exagerando.
— Estou?
Aponto para mim mesma.
— Eu nem sei como o homem é!
Chloe — Você vai descobrir amanhã.
— E se ele for velho?
Chloe — Mad…
— E se for barrigudo, careca e ranzinza?
Chloe começa a rir.
— Não tem graça!
Chloe — Desculpa.
Ela tenta recuperar a seriedade, mas o sorriso permanece no rosto.
— Ai, meu Deus do céu, eu estou completamente desesperada… Imagina só ter que deitar na mesma cama com um homem velho, gordo e nojento!
Chloe — Pelo sangue, Mad! Pelo amor de Deus, o papai jamais faria uma crueldade dessas com você.
— Você tem certeza?
Chloe — Tenho.
— Como?
Chloe — Porque, apesar de ser um mafioso impiedoso, ele tem certos limites para os negócios da família.
— Ah, eu não sei, Chlo…
Sento-me na cama.
— Sinceramente, o papai está fugindo de mim o dia todo. Desviando dos meus olhares pelos corredores, inventando reuniões, desaparecendo no escritório. Ele nem consegue me olhar direito!
Chloe — Você sabe muito bem que ele age exatamente assim — fugindo e se escondendo — quando não tem coragem ou não sabe como nos dizer algo difícil.
— Então você acha que ele sabe que eu vou odiar o homem?
Chloe — Não necessariamente.
— Então o quê?
Chloe — Acho que ele sabe que você está assustada.
Baixo os olhos.
Chloe — E, talvez, ele também esteja.
— Papai?
Chloe — Sim.
Solto uma risada incrédula.
— O homem que faz metade dos mafiosos dessa cidade tremer?
Chloe — Dentro de casa, ele é só nosso pai.
Fico em silêncio.
Ela sorri suavemente.
Chloe — Olha, pelo pouco que consegui pescar nos sussurros do escritório, acredito firmemente que ele não seja velho. O único capo velho de verdade na ativa atualmente é o do México.
— Isso já é alguma coisa.
Chloe — Agora, se ele for feio…
Ela faz uma pausa dramática.
Chloe — Bom, pelo menos você é bonita o suficiente para compensar o estrago, né?
Arregalo os olhos.
— Nossa, Chlo… Que grande ajuda psicológica! Muito obrigada mesmo pela parte que me toca na beleza. Você é uma irmã maravilhosa.
Chloe — Estou tentando animar você!
— Pois está falhando miseravelmente.
Chloe ri.
Chloe — Mad, pare de sofrer por antecedência, garota! O noivado oficial é só amanhã, o que significa que você ainda tem o dia de hoje inteiro para ser uma mulher livre e dona do próprio nariz.
Olho para ela por alguns segundos.
Então um sorriso surge no meu rosto.
— Nisso você tem absoluta razão.
Chloe — Está vendo?
— Quer saber? Vou para a minha aula de balé agora mesmo.
Chloe — Isso!
— E depois vou almoçar fora, no meu restaurante italiano favorito, bem longe daqui.
Chloe — Excelente plano.
— Vou aproveitar meu último dia de liberdade antes de ser oficialmente entregue a um completo desconhecido.
Chloe — Você fala como se estivesse indo para uma sentença de morte.
— Dependendo do marido, pode ser.
Chloe gargalha.
— Obrigada, maninha… Apesar de tudo, eu te amo.
Chloe — Eu também amo você.
Ela se levanta e vem até mim, envolvendo-me em um abraço apertado.
Chloe — E, Mad…
— Hm?
Chloe — Tente não imaginar o pior antes de conhecê-lo.
— Não prometo.
Chloe — Eu sabia.
Ela beija minha testa antes de sair.
Corro para o closet em disparada, querendo me livrar daquele peso invisível que aperta meu peito. Troco de roupa rapidamente, vestindo uma calça confortável e uma blusa leve. Pego as chaves e corro para a garagem.
Saio pela porta dos fundos pilotando minha moto preciosa, uma máquina potente que ruge sob meu comando.
Eu amo andar de moto.
Amo o vento cortando meu rosto, a adrenalina pura correndo pelas veias, a sensação vertiginosa de velocidade que me faz esquecer, por alguns instantes, quem sou e de qual mundo venho.
É perigoso, sim.
O asfalto não perdoa erros.
Mas a beleza disso tudo é que o controle está inteiramente nas minhas mãos.
Eu acelero.
Eu freio.
Eu decido para onde ir.
Coisa que minha vida civil e familiar nunca me permitiu fazer.
Chego à academia de dança no Brooklyn em menos de dez minutos, estacionando com aquela guinada clássica que já faz parte da minha rotina.
Assim que entro, reconheço o cheiro familiar do piso de madeira, o som abafado dos passos e a música distante vindo de uma das salas.
Violet — Olá, Mad!
Sorrio.
— Oi, Violet. Tudo bem?
Ela vem na minha direção, claramente apressada.
Violet — Nossa, eu ia te ligar exatamente agora. Acabei de receber uma ligação urgente do hospital.
Meu sorriso desaparece.
— Hospital? Aconteceu alguma coisa?
Violet — A pequena Cassandra acabou de torcer feio e machucar o braço durante um ensaio em casa.
— Meu Deus! Ela está bem?
Violet — Pelo que me disseram, sim. Mas precisou ir ao hospital para fazer exames.
— Claro. Vá ficar com ela.
Violet — Eu precisava pedir um favor enorme.
— Pode pedir.
Violet — Você consegue quebrar esse galho para mim e dar a turma de balé infantil e juvenil da manhã no meu lugar? Em troca, eu assumo sua turma inteirinha à tarde. Combinado?
— Claro, Violet! Pode ir correndo cuidar dela. E, por favor, leve meus cumprimentos e desejos de melhoras para a menina.
Violet sorri, aliviada.
Violet — Sabia que podia contar com você.
— E me mantenha informada.
Violet — Pode deixar.
Ela pega a bolsa rapidamente.
Violet — Boa aula, professora Mad.
— Boa sorte com Cassandra.
Violet acena e sai apressada.
Entro na academia de balé, cumprimentando efusivamente a galera com um sorriso largo.
Conheço cada piso escorregadio, cada barra de madeira e cada espelho empoeirado deste lugar. Afinal, faço aulas de dança aqui desde que era apenas uma menininha assustada tentando encontrar refúgio no mundo.
Esse lugar sempre foi meu esconderijo.
Meu porto seguro.
Aqui, ninguém olha para mim como filha de um capo.
Ninguém espera que eu seja uma moeda de troca.
Aqui, eu sou apenas Madson.
A menina que dança.
A mulher que sonha.
A bailarina que ainda acredita que um dia poderá subir em um palco de verdade.
Entro na sala e bato palmas para chamar a atenção das alunas.
— Bom dia, meninas! Atenção, por favor.
As conversas diminuem gradualmente.
— A professora Violet teve um imprevisto médico e não vai poder comparecer hoje pela manhã. Então, eu vou assumir o comando da turma no lugar dela.
Algumas meninas sorriem.
Uma delas levanta a mão.
Aluna — Você vai dar a aula toda?
— Vou. E não pensem que vou aliviar só porque sou eu.
As garotas riem.
— Muito pelo contrário. Hoje quero ver dedicação.
Violet dá aula para as meninas maiores, de até quinze anos, um grupo que exige foco e técnica apurada.
— Muito bem, garotas! Todas aquelas que estão preparando o solo para a apresentação de técnica, por favor, venham para o centro do tablado.
As meninas se posicionam.
— Quero analisar de perto os passos principais de vocês e corrigir a postura dos pés. E, por favor, não tenham medo de errar.
Uma das meninas olha para mim, nervosa.
Aluna — E se eu esquecer a sequência?
Sorrio.
— Você respira, volta para o começo e tenta novamente.
— Mesmo se todo mundo estiver olhando?
— Principalmente se todo mundo estiver olhando.
Ela sorri.
— Dançar não é sobre nunca errar. É sobre continuar mesmo depois de errar.
Começo a dar a aula com paixão, gesticulando, corrigindo cada braço desalinhado, cada arabesque vacilante e cada postura inadequada.
— Ombros para baixo.
— Isso.
— Não deixem o peso cair para trás.
— Muito melhor.
— Outra vez.
A música começa.
E, no momento exato em que coloco os pés naquele chão de madeira, meu mundo inteiro simplesmente se desliga dos problemas externos.
É como se eu atravessasse um portal e entrasse em um transe profundo, sendo transportada diretamente para a mítica cidade das danças.
Ali dentro, não existem máfias.
Não existem contratos de casamento forçado.
Não existem capos russos assustadores.
Não existem pais mafiosos.
Só existimos eu, o palco infinito e um vasto oceano de cadeiras vazias imaginárias à minha frente.
Deslizo pelo palco com uma leveza surreal, sentindo a música guiar cada fibra dos meus músculos como uma extensão da minha alma.
O grande sonho secreto da minha vida inteira sempre foi encenar O Lago dos Cisnes.
Eu sei, no fundo do meu coração, que tenho o potencial técnico e dramático necessário para interpretar a dualidade complexa de Odette e Odile, o cisne branco e o cisne n***o.
Mas, como minha vida sempre esteve acorrentada às sombras da nossa família e eu nunca pude participar de nenhum evento oficial ou competição artística, jamais fui sequer escalada para uma audição de verdade.
Sou uma estrela prisioneira do próprio quintal.
E talvez seja justamente por isso que dançar seja tão importante para mim.
Porque, quando danço, ninguém consegue me prender.
Por alguns minutos, não sou filha de Gregório Davis.
Não sou a futura esposa de um homem que sequer conheço.
Não sou uma peça em um acordo entre famílias.
Sou apenas Madson.
A música termina.
As meninas aplaudem.
Aluna — Você dança muito bem, Mad!
Sorrio, tentando esconder o quanto aquilo me toca.
— Obrigada. Agora chega de me elogiar e voltem para suas posições.
Elas riem.
— Vamos repetir.
Termino a aula exausta, suada, mas com a alma lavada e leve por algumas horas.
Tiro as sapatilhas e sigo direto para meu restaurante favorito para almoçar em paz.
Sento-me na mesa de sempre, saboreando a comida deliciosa enquanto a vista panorâmica da cidade se estende além da janela de vidro.
Coloco meus fones de ouvido, ouvindo uma trilha sonora suave enquanto mastigo devagar, tentando prolongar ao máximo aquele instante de falsa normalidade.
Por algumas horas, consigo fingir que minha vida é normal.
Que amanhã não existe.
Que não há um noivado esperando por mim.
Que não há um homem chamado Lucca Bianchi esperando para se tornar meu marido.
Quando finalmente termino, pago a conta com o dinheiro que guardo longe dos olhos do papai, pego minha fiel moto na calçada e retorno para casa.
O vento volta a bater contra meu rosto durante o caminho.
Dessa vez, porém, não consegue apagar meus pensamentos.
Amanhã é o tal dia do noivado oficial.
Amanhã, finalmente, vou descobrir quem é o homem que minha família escolheu para mim.
Minha intuição grita bem alto no fundo da mente que meu verdadeiro caos está apenas começando a dar os primeiros passos…
E, pela primeira vez, tenho a sensação de que talvez o homem que está prestes a entrar na minha vida seja muito pior — ou muito mais interessante — do que todos os monstros que imaginei durante a manhã.