Madson Bianchi
Chegamos na casa de Beatrice e Enzo, e estão todos aqui. Assim que entro, sinto uma onda de alívio. Finalmente estou cercada por pessoas que conheço, pessoas que fazem parte da minha vida e que, mesmo com pouco tempo de convivência, conseguiram me fazer sentir acolhida.
Vejo Beatrice primeiro e ela me recebe com um sorriso deslumbrante.
— Aaah, demorou, hein, Mad! Estava fazendo o quê, gatinha?
Sorrio e abraço minha amiga.
— Me arrumando, né, Bea. Como vou ser a tia mais linda se não me arrumar?
Antes que Beatrice consiga responder, uma voz surge atrás de nós.
— A mais linda sou eu.
Louise aparece jogando os cabelos para o lado, como se estivesse entrando em uma passarela.
Reviro os olhos e começo a rir.
— Você não tem jeito.
Leila cruza os braços, olhando para nós duas com uma expressão divertida.
— A cara de vocês nem treme, né? É óbvio que eu sou a mais linda, não é, amor?
Klaus, que estava próximo, olha para a esposa com aquele sorriso apaixonado que não consegue esconder nem quando tenta.
— A mais linda da minha vida.
Klaus dá um beijo na Leila e sai para a varanda.
— Viu? — Leila diz, toda convencida.
— Isso foi golpe baixo — Louise reclama.
— Foi apenas a verdade — Leila responde, rindo.
A sala inteira parece estar cheia de vida.
Conversas cruzadas, risadas, gente entrando e saindo, música baixa ao fundo e aquele sentimento gostoso de estar entre pessoas que não precisam fingir nada.
Por alguns minutos, esqueço completamente que estou em um casamento que nunca escolhi.
Esqueço a obrigação.
Esqueço o medo.
Esqueço até Lucca.
Ou tento.
Louise bate palmas, chamando nossa atenção.
— Bem, meninas, a Bea não pode beber, mas nós podemos. Quem me acompanha no gin?
Leila ergue a mão imediatamente.
— Opa, só vamos.
Eu rio.
— Vocês não perdem tempo.
— Amanhã a gente pensa nas consequências — Louise responde.
— Isso é uma péssima filosofia.
— Mas funciona — Leila diz.
Nós estamos na sala e ficamos conversando, bebendo e dando risada das nossas histórias.
O assunto flui naturalmente.
Uma história puxa outra, uma lembrança vira motivo de risada e, por alguns momentos, eu realmente me sinto parte daquele grupo.
É estranho.
Eu nunca imaginei que encontraria pessoas assim depois de me casar.
Principalmente porque meu casamento começou completamente diferente do que eu sonhava.
Olho ao redor.
Beatrice está cercada de carinho, com Enzo sempre por perto.
Leila e Klaus têm uma relação intensa, cheia de provocações, mas existe algo nos olhos deles que deixa claro o quanto estão ligados.
Louise também parece tão feliz.
E eu fico observando tudo aquilo.
O assunto flui e eu estou perdida em pensamentos.
Vejo como elas estão felizes com seus maridos e filhos e uma coisa que nunca senti vontade de ter antes eu quero agora.
Uma família.
Meu peito aperta.
Nunca foi um sonho para mim.
Nunca fiquei imaginando vestido de noiva, filhos correndo pela casa ou alguém esperando por mim depois de um dia difícil.
Talvez porque eu nunca tivesse encontrado alguém que me fizesse desejar isso.
Agora, porém, a ideia parece diferente.
Talvez seja porque estou vendo de perto.
Talvez porque, pela primeira vez, tenho pessoas ao meu redor que fazem isso parecer possível.
Ou talvez seja porque existe um homem na minha vida que, mesmo dizendo que não quer me amar, está começando a ocupar espaços dentro da minha cabeça que eu não deveria permitir.
Baixo os olhos para meu copo.
Não.
Não vou por esse caminho.
As meninas percebem que estou divagando e começam a me dar conselhos de como conquistar o Lucca.
Leila inclina o corpo na minha direção.
— Você precisa parar de fugir dele.
— Eu não estou fugindo.
Louise dá uma risadinha.
— Madson, você praticamente corre toda vez que ele chega perto.
— Não corro.
— Corre sim.
— Às vezes.
As três riem.
— Eu confesso que não tenho a menor vontade — digo, mexendo no copo. — Ele sempre deixa bem claro que não quer. Então, pra que forçar algo que claramente quem sairá perdendo serei eu?
Beatrice me olha com mais seriedade.
— Mad, você não precisa forçar nada.
— É exatamente o que eu penso.
— Mas também não precisa desistir de tudo antes mesmo de saber o que pode acontecer.
Fico em silêncio.
Porque, no fundo, talvez seja justamente isso que esteja me assustando.
Não sei o que pode acontecer.
E não sei se quero descobrir.
O chá acabou e estamos todos indo embora.
Antes de entrar no carro, Louise me chama.
— Mad.
Olho para ela.
Ela segura minha mão.
— Olha, você é linda, inteligente, gentil, única! Não se compare com ninguém. Você é incomparável.
Meu sorriso desaparece aos poucos.
Louise continua:
— A Helena foi alguém que passou pela vida do Lucca e, por uma fatalidade, ela não se encontra mais entre nós. Sei que isso pra você é difícil. Acredite, todos nós passamos por algo assim. Mas quando a gente quer, fazemos acontecer. Não desista. Tudo que não podem tirar de você é sua autenticidade.
Ouço tudo com bastante atenção.
Mesmo Louise sendo irmã do Lucca, vejo que ela não passa a mão pela cabeça dele.
Fiquei com receio de falar de Helena do lado dela.
Sei o que a Helena significou e ainda significa para a Lou, mas foi reconfortante ouvi-la falar daquela forma.
Talvez porque, pela primeira vez, alguém tenha me dito que eu não precisava competir com um fantasma.
Eu não queria substituir Helena.
Nunca quis.
Só queria saber se algum dia haveria espaço para mim.
Entro no carro e fico olhando pela janela.
As palavras de Louise continuam ecoando na minha cabeça.
Você é incomparável.
Talvez eu precisasse ouvir aquilo.
Lucca dirige em silêncio.
O caminho de volta parece mais longo do que realmente é.
Meu coração está apertado.
Eu me sinto tão indesejável e isso é péssimo.
Não queria me sentir assim.
Principalmente porque não deveria importar tanto.
Lucca nunca prometeu nada.
Nunca disse que me amaria.
Na verdade, fez questão de deixar claro exatamente o contrário.
Então por que dói tanto?
— Tá tudo bem, Mad?
Lucca pergunta assim que estacionamos o carro.
Olho para ele e forço um sorriso.
— Sim. Só tô cansada. Preciso de um banho e dormir, só isso.
Desço do carro e entro no elevador.
As portas se fecham e finalmente fico sozinha com meus pensamentos.
Olho para o reflexo no espelho do elevador.
— Para com isso, Madson.
Mas não adianta.
⸻
Tomo um banho e vou dormir.
Amanhã vou ir malhar com a Bea e a Lou.
Talvez exercícios sejam exatamente o que preciso para tirar Lucca da cabeça.
⸻
Acordo bem cedo.
Faço toda minha rotina e visto uma roupa de academia.
Sempre gostei de praticar exercícios e, por isso, meu corpo é bem definido.
Prendo os cabelos, passo hidratante, pego minha garrafa de água e confiro minha bolsa.
Quando saio do quarto, encontro Lucca.
— Bom dia. Vai sair?
— Sim. Vou ir pra academia com as meninas.
Ele parece pensar por alguns segundos.
— Leva roupa de banho. Depois passo pra buscar vocês. Vamos pra casa dos pais do Caio passar o domingo lá.
— Ah, tudo bem. Obrigada por avisar.
Subo novamente e coloco um biquíni e uma saída de praia. Coloco uma muda de roupas e protetor solar.
Confiro tudo duas vezes antes de fechar a bolsa.
Quando volto para a sala, percebo uma coisa.
Estranho que ainda não vi Viktor.
Então resolvo perguntar por ele.
— Lucca, cadê Viktor? Ia pedir pra ele me deixar na academia.
Lucca olha para mim.
— Posso te deixar lá. Ele teve que voltar pra Rússia.
Franzo a testa.
— Ah, sim, entendi. Bom, eu posso pegar um táxi, não precisa se incomodar.
A expressão dele muda imediatamente.
— Não é incômodo nenhum, Madson. Você é minha esposa. Não me custa levar minha esposa na academia.
Sinto seu tom de voz levemente irritado.
Então não prolongo mais a conversa.
Pego minha bolsa.
— Tudo bem.
Durante o caminho da academia não falo nem um pio.
Sinto ele meio estressado.
O silêncio dentro daquele carro parece pesado.
Olho pela janela e tento fingir que estou interessada nas ruas.
Até que Lucca quebra o silêncio.
— Me desculpa se alterei meu tom de voz com você, mas me deixa bem chateado quando você fica se esquivando de mim.
Viro o rosto lentamente para ele.
— Não é isso, Lucca…
— E sim, Madson. Sei que não sou o melhor marido, mas só não quero te iludir.
Acabo sorrindo do que ele diz.
Talvez porque aquilo seja exatamente o que eu precisava ouvir.
Ou talvez porque, de repente, sinto uma irritação crescendo dentro de mim.
— Sabe, Lucca, você precisa parar de pensar em mim como uma menina tola que se apaixonaria fácil por você só porque você transa bem…
Ele fica em silêncio.
Por alguns segundos, seus olhos permanecem presos à estrada.
Não sei se ele ficou surpreso ou irritado.
Talvez os dois.
Mas, naquele momento, eu já estava cansada.
Cansada de ser tratada como se qualquer gentileza dele fosse suficiente para me fazer cair aos seus pés.
Cansada de ter que provar que não sou uma criança.
Cansada de sentir que ele estava sempre esperando que eu me apaixonasse.
Como se eu não tivesse capacidade de separar desejo de sentimento.
Como se eu não soubesse exatamente onde estou pisando.
O carro para.
Olho para ele uma última vez.
— Bom treino pra mim.
Abro a porta.
Saio do carro e bato a porta com força.
Agora quem ficou irritada fui eu.
Caminho em direção à entrada da academia sem olhar para trás.
Meu coração está acelerado.
Não sei se é pela raiva.
Pela vergonha.
Ou pela vontade absurda de voltar para aquele carro e terminar aquela discussão.
Mas não vou.
Hoje não.
Hoje, pela primeira vez, quem vai correr atrás de alguma coisa sou eu.
E definitivamente não será atrás de Lucca Bianchi.