Era coveiro há trinta anos. Três décadas cavando buracos e enterrando caixões. Todos os dias. Envelhecera entre as covas e lápides e podia dizer, com alguma segurança, que não havia muita coisa que ainda não tivesse visto naquele cemitério. Poucas não foram as vezes em que viu vagar por entre as tumbas uma sombra fantasmagórica ou que ouviu algum sussurro cavernoso ecoar dos mausoléus. Espectros, assombrações, espíritos, almas penadas. Nada disso causava estranheza ou desconforto para um homem cuja principal companheira cotidiana era a Morte. E algumas visões eram tão corriqueiras que já passavam quase despercebidas. Não se impressionava com tais fenômenos. Ossos do ofício - era o que ele costumava dizer. Mas naquele fim de tarde o trabalho ao qual se dedicava não era, em

