A Pitica arrumou a mochila para o dia seguinte e foi gravar vídeos de maquiagem pra passar o tempo. Quando a mãe foi ao quarto oferecer pizza, ela mandou um áudio para o irmão, toda dengosa:
“Bê, você vai vir dormir aqui? Porque eu queria ir cedo na casa da minha madrinha.”
“Vamos comigo amanhã???”
“A mãe tá me obrigando a ficar de vela pra eles.”
O Rui falou que era um prazer ter ela jantando com eles, tão linda e arrumada. Ela acabou rindo, mas ainda insistiu no dengo, até ganhou dinheiro pra gastar no dia seguinte com os primos.
O Bernardo estava trabalhando no restaurante, super ocupado, não viu a mensagem até o restaurante começar a fechar. Foi saindo distraído para pegar as mesas na calçada, estava mexendo no celular, olhando as conversas no grupo da família. Olhou para os lados e viu aquela garota loira sentada do outro lado da rua, em uma mureta, com um grupo de jovens. Estavam bebendo, fum.ando. Os olhares deles se cruzaram. Ela não ficou olhando, já foi levantando, se despedindo do pessoal, e saiu andando pra longe. Ele largou tudo, atravessou a rua e correu até ela.
— Oi, ei, espera.
Ela se virou com deboche.
— Vai me rou.bar, garoto?
Ele sorriu.
— Não, desculpa me aproximar assim. Oi, tudo bem? Eu sou o...
Ela interrompeu:
— Bernardo. Tudo de boa, e aí?
Ele respondeu meio sem jeito, olhando fixamente pra ela:
— Tudo bem. A gente se conhece? Como sabe meu nome? E qual o seu?
Ela apontou para o peito dele, olhando-o como se ele fosse idi.ota.
— Está escrito no crachá. Eu não tenho um! Vai ficar sem saber.
Meio bobo, rindo, ele falou, olhando para o restaurante:
— É verdade. Eu trabalho aqui. E você?
Ela respondeu, se afastando e andando de costas, com deboche:
— Eu não trabalho aqui. Tchau, Bernardo, que trabalha logo aí.
Ele insistiu, todo desconcertado, se sentindo bo.bo:
— Espera, quer me encontrar depois que eu sair? Só pra trocar uma ideia mesmo. Eu logo saio!
Ela disse que ia perder o ônibus. Ele deu alguns passos, indo atrás.
— Eu te levo! Só espera eu terminar ali, falta pouco. Já volto!
Ela disse que ia pensar, mas continuou andando, se afastando. Ele voltou para terminar de arrumar tudo. Logo saiu procurando, não a viu e entrou para tomar banho, pensativo, desanimado. Demorou meia hora e saiu pra ir embora. Ela estava sentada na guia perto da moto. Ele ficou surpreso ao vê-la.
— Oi, achei que tinha ido embora.
Ela respondeu irônica, levantando:
— Notei mesmo, pela demora. E aí?
Ele olhou o celular tocando.
— Quer fazer o quê? Ir pra onde?
Ela o encarava fixamente, séria.
— Ir embora. Carona, você ofereceu, acorda, garoto. Não vai atender?
Ele sorriu, se sentindo intimidado.
— Desculpa, dá licença, é meu primo. Só um minuto!
— Alô, oi. Não. Tô saindo do restaurante. Não, espera, tô com uma amiga aqui. Beleza, eu ouvi, cara, relaxa! Tchau, tchau.
Assim que ele desligou, ela disse, cabisbaixa, que não queria atrapalhar. Ele esticou a mão, dando um capacete a ela.
— E não vai. Meu primo tá dando uma festa, a gente pode ir lá um pouco, ou eu te levo pra casa. Sua casa! É só uma social. Onde você mora?
Ela disse que não gostava de interrogatório, sorriu. Ele se aproximou para fechar o capacete.
— Tá certo, licença, deixa eu te ajudar. Gosta de motos? Eu não vou correr. Sempre gostei desde criança, meu pai ama também.
Ela disse que não, apenas. Ele ofereceu a blusa e foi ligando a moto, subindo. Era de alta cilindrada, uma XJ6. Ela agradeceu e recusou. Pareceu um pouco tensa. Ele esperou ela subir.
— Pode segurar em mim. Você tá com medo?
Ela disse apenas que sim e se segurou nele. Poucos metros à frente, no semáforo, ele falou, segurando sutilmente a mão dela que estava em sua cintura:
— Tudo bem? Espero que esteja com frio e não com medo, pressão caindo, essas coisas.
Ela disse, rindo, apertando a mão dele de volta e entrelaçando os dedos:
— Eu nunca andei de moto.
Ele disse que nunca era tempo demais. Foi devagar, super cauteloso. Quando chegaram na casa do Pedro, ela falou, irônica:
— Uma social? Isso tá cheio de gente! Eu nem conheço ninguém.
Ele pegou o capacete da mão dela.
— Eu acho que também fui enganado. Vamos só entrar, dar um oi. E aí, gostou? De andar comigo?
Ela disse que poderia ter sido pior. Foram entrando. Ele se ofereceu pra levar a mochila. Ela falou, rindo:
— Tá doidinho pra me roubar hoje, né? Sai fora! Esse seu primo mora aqui? Ele é gente boa?
Eles estavam na varanda. Tinha um monte de gente dançando. Ele disse que o Pedro era muito gente boa e da zoeira. O Bernardo começou a cumprimentar as pessoas. Em um segundo de distração, ela se afastou e entrou na casa. Foi direto pra cozinha tomar água. Estava com fome e sede. Ele entrou logo atrás.
— Quer guardar a mochila? Não vou rou.bar, porém estou curioso pra saber o que tem de precioso nela.
Ela disse que roupas. O Pedro se aproximou, um pouco alterado.
— E aeeeee, você veio, primo! Não acredito, trouxe a vampira do seu fã...
O Bernardo interrompeu às pressas:
— Tá bebendo o quê? A tia não tá aqui não, né?
Ela ficou encarando, séria. O Pedro ainda falou oi, ofereceu bebida, disse que a mãe estava ocupada demais, como sempre. O Bernardo perguntou se ela queria tomar bebida ou refrigerante. O Pedro foi “legal”, falando com ela, que permaneceu sem dar bola pra ele. Assim que ele se afastou, o Bernardo falou próximo a ela, meio sem jeito:
— Quer ir embora? Meu primo tá mais pra lá do que pra cá.
Ela tirou a mochila, rindo.
— Não, né, garoto? Open bar. Não sou é b***a! Pode guardar, por favor? Vou me servir aqui. Quer beber o quê? Curte gin?
Ele disse que não ia beber, subiu para guardar a mochila no quarto. Quando voltou, ela estava comendo um cacho de uvas Itália, com um copão de bebida, parada na porta que ia pra fora, onde estavam dançando funk. Falou, rindo, ao vê-lo:
— Ele disse que era pra ficar à vontade, né? Bebe comigo!
Ele concordou sobre ficar à vontade, disse que não ia beber por estar de moto. Ela enfiou uma uva na boca dele.
— Ai, para de graça, me chamou pra sair e vai ficar careta?
Ele a puxou pela mão e foi saindo.
— Não sou careta, eu curto sem beber. Vamos dançar.
A Belinha se aproximou dos dois, bêbada, e foi abraçando ele.
— Oi, Beeeee. Tá bravo comigo ainda? Quem é essa daí? Que linda, oi, gata!
As duas se cumprimentaram. Ele disse que não estava br.avo. Ela falou que ia ficar com a Maria no dia seguinte. Ele disse que também ia. Discretamente, pediu pra ela não comentar com ninguém que o viu lá e acompanhado. Ela deu risada, disse que provavelmente não ia lembrar de nada porque já estava louca.
A garota misteriosa tinha ido pegar gelo e comer escondida. Tinham salgados na cozinha, ela até esquentou. Demorou um pouco pra voltar. Ele estava fazendo dancinhas de t****k com o Pedro. Ela começou a conversar com duas meninas um pouco longe e olhando pra ele, rindo. Logo foi até ele e ofereceu outra bebida.
— Bebe comigo, só um pouco. Gosta de cerveja, né?
Ele estava só observando ela.
— Gosto, mas eu não te disse isso hoje. Se me disser seu nome, bebo com você!
Ela estava colocando um chiclete na boca e enfiou um na boca dele também.
— Eu posso mentir. Por que um nome importa?