ANTES
O presente chegou sem embrulho.
— Segura.
Morgana tinha oito anos.
A faca era pesada.
Grande demais pra mão pequena.
Mas ela não deixou cair.
Don Giuseppe observava.
Imóvel.
— De novo.
Ela atacou.
Errado.
Lento.
Previsível.
A correção veio rápido.
Dor.
Seca.
Sem aviso.
Ela caiu.
O ar fugiu do peito.
Mas não chorou.
Não mais.
— Levanta.
Ela levantou.
Sempre levantava.
— Você não pode hesitar.
Ele disse.
— Hesitação mata.
Silêncio.
— Fraqueza mata.
Aquilo entrou.
Fundo.
Ficou.
🩸
Dias viraram rotina.
Treino.
Erro.
Dor.
Correção.
E repetia.
Até o erro sumir.
Ou até ela deixar de sentir.
🩸
A primeira vez que viu alguém morrer…
não foi surpresa.
Foi aula.
Ela observou.
Atenta.
Como mandaram.
Sem desviar.
Sem tremer.
— Presta atenção.
A voz ao lado.
— É assim que se faz.
E ela prestou.
Aprendeu.
Gravou.
🩸
A primeira vez que participou…
não foi escolha.
Foi ordem.
E ela obedeceu.
Porque era isso que tinha aprendido.
Obedecer.
Ser útil.
Não falhar.
Não sentir.
🩸
Algumas vezes…
ela também foi colocada no outro lado.
Testada.
Até onde aguentava.
Até onde quebrava.
Ou não.
E ela não quebrou.
Nunca.
🩸
Com o tempo…
a faca deixou de ser pesada.
Virou extensão.
Precisão.
Controle.
E então veio o presente.
A Karambit.
Preta.
Fria.
Cravejada de vermelho.
Como sangue seco.
Don Giuseppe colocou na mão dela.
— Agora você tá pronta.
Ela olhou.
E pela primeira vez…
não viu uma arma.
Viu propósito.
🩸
— Você não é fraca.
Ele disse.
— Nunca vai ser.
Aquilo…
foi tudo.
Mais do que casa.
Mais do que promessa.
Aquilo era valor.
Era identidade.
E ela aceitou.
Sem questionar.
🩸 AGORA
Morgana girava a karambit entre os dedos.
Movimento automático.
Preciso.
Natural.
Como respirar.
Anna observava.
Em silêncio.
— Você sempre foi assim?
A pergunta veio leve.
Mas carregada.
Morgana não parou o movimento.
— Assim como?
Anna hesitou.
— Forte.
Silêncio.
Morgana deu um meio sorriso.
Pequeno.
Quase inexistente.
— Eu aprendi.
Resposta simples.
Mas não completa.
Nunca completa.
Anna sustentou o olhar.
— Às vezes eu acho que você nunca foi criança.
Aquilo…
ficou.
Um segundo a mais.
Mas Morgana só respondeu:
— Fui o suficiente.
Mentira.
Mas era a única versão que ela aceitava.
FINAL
A faca parou.
Na mão dela.
Firme.
Segura.
Como sempre.
Porque no mundo dela…
não existe espaço pra fraqueza.
E nunca existiu.