O carro cortava a noite como uma lâmina limpa.
Sem música.
Sem conversa.
Só o motor e o silêncio entre eles — denso o suficiente pra ser outro passageiro.
Leon dirigia.
Foco absoluto.
Mãos firmes no volante.
Controle.
Sempre controle.
Morgana estava ao lado.
Postura relaxada demais pra quem ia matar alguém.
Uma perna cruzada.
A faca girando lentamente entre os dedos.
Brincando.
Como se aquilo fosse só um hábito.
Como se o fim de alguém fosse rotina.
— Você não vai me dizer nada? — ela quebrou o silêncio.
Leon não olhou.
— Já disse o suficiente.
— Disse o básico.
— É o que importa.
Ela soltou um sopro leve, quase um riso.
— Eu gosto dos detalhes.
— Eu gosto de resultado.
Ela virou o rosto pra ele.
Observando.
Medindo.
— Eu sei.
Silêncio.
Mas agora… carregado.
A localização surgiu à frente.
Um prédio antigo.
Nada luxuoso.
Nada limpo.
O tipo de lugar que aceita qualquer tipo de negócio.
Principalmente os errados.
Eles saíram do carro ao mesmo tempo.
Nenhum esperou o outro.
Mas também… nenhum ficou para trás.
Dentro, o cheiro era familiar.
Álcool.
Suor.
Medo.
Sempre tinha medo.
— Segundo andar — Leon disse, baixo.
Morgana não respondeu.
Já estava subindo.
O alvo não sabia.
Ainda.
Mas iria.
Sempre sabia.
No último segundo.
A porta estava trancada.
Leon fez menção de agir.
Ela segurou o braço dele.
Leve.
Mas firme.
— Deixa.
Ele olhou pra mão dela por meio segundo.
Depois pra ela.
E soltou.
Morgana girou a faca entre os dedos.
Um movimento rápido.
Preciso.
A trava cedeu como se nunca tivesse existido.
Ela abriu a porta devagar.
Sem barulho.
Sem pressa.
O homem estava lá.
Telefone na mão.
Falando baixo.
Mas não baixo o suficiente.
— …não, eu disse que eles não sabem ainda—
Ele virou.
Tarde demais.
Leon entrou primeiro.
Presença.
Domínio.
— Agora sabem.
O telefone caiu.
O homem recuou um passo.
Dois.
Olhos indo de Leon… pra ela.
E foi aí que ele entendeu.
Não quem ela era.
Mas o que ela fazia.
— Eu posso explicar—
— Não pode — Leon cortou.
Seco.
Final.
Morgana encostou na parede.
Observando.
Sem pressa.
Sem emoção.
A faca girando de novo.
— Deixa ele tentar — ela disse.
Leon lançou um olhar rápido pra ela.
— Não temos tempo.
— Eu tenho.
O olhar dele mudou.
Perigo.
— Morgana—
Ela sorriu.
Devagar.
— Confia.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
E então…
Leon recuou meio passo.
Cedendo.
Contra o instinto.
Contra o controle.
O homem respirou como quem volta à vida por engano.
— Eu… eu só repassei informação, eu não sabia que—
Morgana se aproximou.
Passo leve.
Quase elegante.
— Você sabia o suficiente.
Ela parou na frente dele.
Muito perto.
A faca agora imóvel.
— Quem mais?
Ele hesitou.
Erro.
Ela inclinou a cabeça.
E sorriu.
Aquele sorriso.
Errado.
— Não faz isso comigo.
A lâmina encostou.
Fria.
Precisa.
— Eu não gosto de repetir pergunta.
Atrás dela, Leon observava.
Mas não o homem.
Ela.
Cada movimento.
Cada escolha.
Cada limite sendo testado.
— Eu… eu posso dar nomes—
— Vai dar.
— Mas você precisa—
Ela pressionou um pouco mais.
Não o suficiente pra matar.
O suficiente pra lembrar.
O homem quebrou.
— Russo! É um contato russo, ele tá comprando informação, eu juro que não sabia que era sobre vocês—
Silêncio.
Morgana recuou.
Um passo.
Como se aquilo fosse o bastante.
— Viu? — ela disse, olhando por cima do ombro.
— Detalhes.
Leon não respondeu.
Mas os olhos dele estavam mais escuros agora.
Mais presos nela do que deveriam.
— Terminou? — Leon perguntou.
Morgana olhou para o homem caído.
Depois para a lâmina.
Depois para ele.
E sorriu.
— Agora sim.
O movimento foi rápido.
Limpo.
Final.
O corpo encontrou o chão com um som seco.
E então… silêncio.
Ela limpou a lâmina com calma.
Sem pressa.
Como se tivesse tempo de sobra.
Leon se aproximou.
Parou perto.
Perto demais pra ser só profissional.
— Você demorou.
Ela não olhou de imediato.
— Você ficou.
Aquilo não era resposta.
Era provocação.
Ele deu mais um passo.
Agora não havia espaço confortável entre os dois.
— Eu não pedi um espetáculo.
A voz dele continuava controlada.
Mas não fria o suficiente.
Morgana levantou o olhar.
Devagar.
Encontrando o dele sem desviar.
— Mas assistiu até o fim.
Silêncio.
O olhar de Leon desceu por um segundo.
A faca ainda na mão dela.
Depois subiu de volta.
Mais pesado.
— Você gosta de testar limite.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Só os que valem a pena.
Ele segurou o pulso dela.
Dessa vez não foi impulso.
Foi escolha.
Firme.
Calculado.
A lâmina ficou entre eles.
Muito perto.
Morgana não recuou.
Nem um milímetro.
Só aproximou mais o rosto.
— Cuidado…
sussurro baixo
— você pode acabar cruzando.
O polegar dele pressionou de leve a pele do pulso dela.
Nada agressivo.
Mas não suave.
Controle disfarçado.
— Eu não cruzo linhas.
Ela sorriu.
Pequeno.
Quase satisfeito.
— Não?
Um segundo.
Dois.
E então ele inclinou o rosto o suficiente pra quebrar a distância segura.
Não tocou.
Mas também não evitou.
— Não sem motivo.
Agora não era mais só tensão.
Era escolha sendo adiada.
O ar ficou pesado.
Respiração próxima demais.
Limite… inexistente.
E então ele soltou.
De repente.
Como se lembrasse quem precisava ser.
— Vamos.
Frio de novo.
Mas atrasado.
Morgana observou por um segundo a mais.
Como quem registra uma falha.
Um detalhe.
Uma fraqueza.
E guarda.
Ela passou por ele.
De propósito.
O ombro roçando no dele.
Leve.
Mas não inocente.
— Um dia você não vai soltar.
Ela disse baixo, quase um pensamento.
Leon não respondeu.
Mas não se moveu por um segundo inteiro.
E isso…
já era resposta.