ANTES DO JANTAR
O escritório ainda carregava o peso da conversa anterior.
Leon entrou.
Sabia que tinha sido chamado.
Sabia por quê.
Don Giuseppe não perdeu tempo.
— Você acha que eu não vejo?
Direto.
Leon não respondeu de imediato.
Sustentou o olhar.
— Sempre viu.
Calmo.
Sem negar.
Não fazia sentido negar.
Don Giuseppe assentiu.
— Desde o começo.
Pausa.
— Só mudou a forma.
Silêncio.
— Agora é mais perigoso.
Leon encostou levemente na mesa.
— Eu controlo.
Resposta rápida.
Automática.
Errada.
Don Giuseppe soltou um meio sorriso.
— Não controla.
Simples.
Verdade.
— Mas sabe esconder.
Olhar firme.
— E é isso que importa.
Silêncio.
— Não me interessa o que vocês fazem.
Pausa.
— Me interessa o que isso causa.
Mais perto.
— Negócio não pode sentir.
— Família não pode rachar.
Cada palavra… colocada.
— Se isso cruzar qualquer uma dessas linhas…
Ele não terminou.
Não precisava.
Leon assentiu.
— Não vai.
Mas a voz…
não tinha tanta certeza quanto queria.
Don Giuseppe percebeu.
Claro que percebeu.
Mas deixou.
Porque agora…
era questão de tempo.
🩸
A casa se preparava.
Luzes.
Mesa posta.
Cheiro de comida.
Tentativa de normalidade.
Eleanor em movimento.
Organizando.
Controlando o caos do jeito dela.
Sem gritar.
Sem impor.
Só mantendo tudo de pé.
🩸
Um por um desceu.
Anna primeiro.
Leve.
Falante.
Gianni depois.
Mais quieto.
Mais pesado.
Leon…
controlado.
Como sempre.
E então…
Morgana.
Última.
Como se soubesse o efeito.
Vestido preto.
Simples.
Mas não inocente.
Ajustado.
Marcando.
Presença.
Os olhos castanhos mais vivos.
Mais intensos.
E por um segundo…
ninguém falou.
🩸
Gianni desviou primeiro.
Rápido.
Como se olhar fosse errado.
E talvez fosse.
A culpa apertou.
Mais uma vez.
🩸
Leon não desviou.
Nem por um segundo.
Os olhos fixos.
Diretos.
Sem vergonha.
Sem cuidado.
E ali…
não era só o vestido.
Era memória.
Era toque.
Era o que ele já tinha visto.
E o que não conseguia esquecer.
🩸
Don Giuseppe observava.
Não ela.
Mas eles.
Todos.
Cada reação.
Cada silêncio.
Cada desvio.
E confirmava.
Em silêncio.
🩸
— Meu Deus, olha você.
Anna quebrou.
Sorrindo.
Leve.
— Tá absurda.
Morgana travou um segundo.
Algo raro.
— Para.
Baixo.
Quase tímido.
Anna riu.
— Não, eu vou falar mesmo.
Apontou.
— Se eu fosse homem, tava perdida.
Gianni engasgou com a própria respiração.
Leon soltou um ar pelo nariz.
Disfarçando.
Mal.
Morgana desviou o olhar.
Mas corou.
De leve.
E isso…
não passou despercebido.
🩸
O jantar começou.
Conversas leves.
Forçadas no início.
Mas Anna…
segurava.
Puxava assunto.
Mudava o clima.
Criava risos onde não existiam.
E aos poucos…
funcionou.
🩸
Mas nem tudo.
Porque alguns silêncios…
não saem.
🩸
Leon ainda olhava.
Entre uma fala e outra.
Entre um gesto e outro.
Sempre voltava.
Pra ela.
E cada vez que voltava…
lembrava.
Do quarto.
Da noite.
Do jeito que ela tinha cedido.
Do jeito que ela tinha ficado.
E isso…
não ajudava.
Nada.
🩸
Morgana sentia.
Claro que sentia.
E evitava.
Mas falhava.
Às vezes.
E quando falhava…
os olhos encontravam os dele.
Por um segundo.
Dois.
Tempo demais.
E então desviava.
Como se não tivesse acontecido.
Como se desse pra apagar.
🩸
Gianni via.
Não tudo.
Mas o suficiente.
E aquilo…
doía.
Porque ele não entendia.
Mas sentia que tinha algo ali.
Algo que ele não fazia parte.
E talvez nunca fizesse.
🩸 FINAL
O jantar terminou melhor do que começou.
Risos.
Conversas leves.
Quase normal.
Quase.
Porque por baixo da mesa…
ninguém estava em paz.
E Don Giuseppe sabia.
Desde o primeiro olhar.
E continuava observando.
Esperando.
Porque ele não interrompia histórias assim.
Ele deixava acontecer.
Até o ponto certo.
E quando esse ponto chegasse…
ninguém ali sairia ileso.