Cap. 4: A origem do apelido.
Mesmo que estivesse com medo, ela voltou para casa sem ser vista, entrou e colocou as correntes nos pés de forma que não a machucassem mais. Eles nem suspeitavam, enquanto levavam a comida para ela.
Ela passou três dias indo até a floresta enquanto observava Kaleu de longe, e hoje ele estava à beira da fogueira. Era início da manhã, e após o café da manhã que ela tinha deixado, seu estômago roncava agressivamente. Após perceber que ainda não conseguia falar, ela desconfiava que, mesmo depois de terem prometido não lhe dar mais remédios, ainda poderiam estar lhe dando algo que impossibilitava a sua fala — e ela não estava errada.
Vando não parou de lhe dar o remédio que prejudicava suas cordas vocais, então ela queria descobrir qual era — café, almoço, jantar? Agora, ela estava com as mãos minúsculas apertando o estômago com força, enquanto sentia o cheiro da carne que estava na fogueira que Kaleu havia acendido. Ele se mantinha sentado no tronco, enquanto ela continuava silenciosa, o encarando.
— Ah... que menina insuportável! — ele asseverou, levantando-se impaciente. — Você não come? Já é incômodo que esteja aqui todos os dias. Eu vim para esse lugar justamente para viver em paz, longe de qualquer olhar, e agora você vem todos os dias? Quer que eu te mande para o céu dos bebês? Eu posso fazer isso bem rápido e sem sofrimento. — Ele asseverou com seriedade, mostrando para ela a navalha afiada, fazendo Miliane se assustar e recuar com dificuldade, ainda sentindo dores nas juntas dos pés.
— Que diabos está acontecendo com você? — ele perguntou, analisando seus pés sem se aproximar, mas ela abraçou o próprio corpo e virou o rosto. Ele então bufou e recuou, voltando para a beira da fogueira, continuando a assar a carne. Ele pensou que Miliane tinha ficado lá, mas a viu de pé ao seu lado. Ela entendeu que, quando ele recuou, ela podia segui-lo.
— Mas que p***a! — ele asseverou, irritado. — Além disso... você não fala? Você gritou... desde quando gente muda grita daquele jeito?
Perguntou, mas não teve resposta; ela apenas o encarou com tristeza.
— Tudo bem... — ele suspirou, pensativo em meio à desconfiança. — Você já falou alguma vez?
Ela arregalou os olhos e balançou a cabeça positivamente, e Kaleu ficou curioso.
— Você... está sendo mantida em cativeiro? — ele perguntou, apontando para seus pés, e ela confirmou. — Então essas marcas são de correntes? — ela confirmava cada pergunta. — Eles estão fazendo coisas erradas com você? Algum tipo de violação? Não sei se você entende... te tocam de forma errada? — ele perguntou, e ela balançou a cabeça negativamente e com pressa.
— Agressão? — então ela confirmou, em seguida encarando a carne assando, e Kaleu sorriu, cético.
Ele parou de fazer perguntas, enquanto ela se sentava no chão, observando a carne, esperando que ele a servisse. Ele, mais uma vez, sorriu cético, sem acreditar que ela estava realmente esperando que ele a servisse como um empregado.
Ele apenas fez e se afastou dela, a deixando sozinha à beira da fogueira, e ficou a observando do outro lado, perto, encostado na porta.
"Ela parece algum tipo de animal de estimação... se eu... se eu só deixar ela terminar de comer, ela vai embora", ele pensava, enquanto Miliane ainda comia. Ele pensou assim, mas foi só se distrair por um segundo, enquanto limpava a faca, que a menina já estava ali de pé, à sua frente, o observando.
— Não, ela só pode ser um fantasma. O que você é? Qual seu nome? — ele perguntou com calma, se inclinando para encará-la. — É... ela não sabe falar... vou pensar — ele disse, analisando-a dos pés à cabeça. — Magrela, minúscula, usando um vestido branco velho que parece para alguém mais velho. Além disso... esse modelo até parece da Grécia antiga, sabe? Aquela roupa de escravos, não sei... e essa marca de corrente nos pés... isso me lembra uma história — ele disse, despertando a curiosidade da menina.
— Quer ouvir uma história? — ele perguntou, então ela confirmou, agora se sentando no chão de novo. — Por Deus, você realmente age como uma prisioneira... — ele suspirou, pensativo. — Enfim, um dia, uma mãe, Cassiopeia, ofendeu algumas ninfas do mar. Ela se vangloriou de que sua filha, Andrômeda, era mais bela do que aquelas ninfas. Como vingança, Poseidon enviou um monstro marinho para devastar o reino do pai dela. Mas aí a única maneira de salvar o reino foi entregando Andrômeda a esse monstro como sacrifício. Ela foi acorrentada a um rochedo... por acaso você fugiu, Andrômeda? — ele perguntou, segurando o riso, mas a menina o encarava com lágrimas nos olhos.
Ele não entendeu bem por quê. Pensou que estivesse triste, mas surgiu um sorriso discreto no rosto dela, em meio à emoção.
— Não chore. Além disso, ela seria devorada, mas Perseu a salvou. Ele matou o monstro, se apaixonou por ela e se casaram — ele concluiu a história, demonstrando preocupação ao perceber que ela chorava ainda mais, com a mão na garganta. — O final é feliz, não deveria estar chorando.
Ela se levantou e fez uma breve reverência como agradecimento.
— Volte aqui amanhã. Se está com problemas, alguém vai estar aqui amanhã. Ele tem tendência a resgatar meninas em perigo. Ele não vai se apaixonar ou se casar com você, mas vai te dar um bom lugar, onde tem outras meninas como você, que sofrem alguma situação injusta. Então volte amanhã e ele vai te levar embora — ele disse com a voz calma, enquanto ela mantinha o olhar fixo nele, em seguida lhe apontando o dedo.
— O que quer? — ele franziu o cenho. — Ah... meu nome é Kaleu — ele respondeu, então ela sorriu e recuou, indo embora. Ela não sabia quanto tempo tinha ficado ali, mas sabia que a hora estava passando e que eles poderiam estar indo para seu quarto.
Quando finalmente chegou, ela entrou pela portinhola na parede, próxima ao chão, suspirando aliviada por não haver ninguém. A menina estava cheia de esperança com o que Kaleu havia dito. Ela sabia que não poderia sobreviver muito se fugisse sozinha, principalmente naquele lugar, que era um covil da máfia.
— Eu te vi! — uma voz anunciou, calma e calculista, fazendo Miliane gelar.