cap.6

1098 Words
Cap. 6: pes na grama. Miliane ficava sempre animada quando Karmelia ia ao seu quarto. Já tinha até se esquecido de sua vontade de sair; era como se não estivesse mais prisioneira sozinha. — Hoje eu tenho uma novidade para você! — anunciou Karmelia, mas Miliane não esperava nada interessante. — Por que você não fala? Já faz tempo que meus pais suspenderam os remédios, e você ainda fala muito pouco! — resmungou. — De que adianta falar qualquer coisa? — perguntou Miliane, entediada. — Se anime, o que eu tenho para contar vai te deixar animada de verdade! — disse Karmelia, e Miliane então se sentou, prestando atenção nela. — Escuta só: você vai sair daqui! Você pode sair por conta própria, ir para a escola, passear, ir onde quiser! Miliane ficou sem palavras, sem reação, e as lágrimas brotaram de seus olhos, sem conseguir acreditar. — Do que você está falando? Veio para fazer piada de mim? — perguntou ela, com o peito subindo e descendo agressivamente. Já fazia tempo que nem a luz do sol ela via, a não ser alguns feixes de luz que invadiam pela madeira. — Não é brincadeira. Além disso, você tem que sair mais. Está pálida e quantas vezes já ficou doente? Meu pai nem se importa com a sua saúde; já tive que roubar remédios várias vezes e isso me rendeu uns bons puxões de orelha da minha mãe. Ela sempre dizia que a imunidade deveria fazer seu papel. — comentou Karmelia, abaixando a cabeça. — Você está falando sério? Eu posso sair? Posso andar por aí? — Só não pode fugir, mas já está na hora de você conhecer o mundo, ter um pouco de liberdade. O que acha? Você vai para a escola! — Por que eles querem que eu saia? — perguntou Miliane, desconfiada. — Bom... — Karmelia suspirou, pensativa. — A verdade é que você não pode parecer maltratada. Chegou o momento de eles verem que você é alguém da família. Eu sempre saía com a cara escondida, meu pai me levava em segredo para a escola, mas você precisa ser vista para que eles pensem que você é a filha deles, a menina que sai todos os dias para a escola. — Ah... entendi, esse é o momento da troca de identidade. Eu sou você? — Sim, mas não precisa usar meu nome nem nada disso. Meu pai conseguiu manter tudo isso em sigilo, então é uma vantagem. — Karmelia disse, sorrindo desconcertada. — Por favor... eu pedi muito ao meu pai e consegui convencê-lo de que você não fugiria. Além disso... o lugar onde moramos não é para meninas como nós saindo por aí achando que estamos passeando. — Ela estendeu a mão para Miliane, fazendo o convite. — Vamos sair um pouco agora. Está na hora de você ver a luz do dia. A menina aceitou seu destino ao segurar a mão de Karmelia, que sorriu gentilmente. As duas saíram do quarto do porão de mãos dadas, saindo lentamente. Miliane estava descalça e usava as roupas antigas de Karmelia, um vestido azul que transmitia delicadeza e elegância. Miliane agora tinha dezesseis anos e seus traços tinham mudado. Ela tinha o rosto de uma jovem, um olhar feroz e cabelos longos e negros como a noite. Suas sobrancelhas perfeitamente desenhadas, com fios negros, se destacavam em seu rosto. Sua pele parda agora não tinha mais as marcas de agressões, exceto algumas sutis cicatrizes, mas as marcas das correntes feitas quando era mais jovem ainda a acompanhavam. Ela poderia tentar esquecer tudo, mas não havia esquecido nem por um segundo daquele homem na floresta. Se perguntava como ele estava. Quando seus olhos se encontraram com a nova luz natural do dia, ela sentiu uma sensação nostálgica, enquanto seu coração acelerava com força. — Você vai se sentir tão bem quando sair. — Karmelia comentou, tão empolgada quanto Miliane. — Você vai mesmo me deixar sair? — perguntou ela, enquanto chegavam à sala e Karmelia continuava a levá-la em direção à porta. — Sim, eu vou. Como eu disse, você pode sair para onde quiser, e não por causa da troca de identidade, mas porque você merece um pouco de liberdade. As pessoas não deveriam ter o direito de tirar a liberdade de outras dessa forma. — Karmelia comentou, girando a maçaneta e puxando Miliane para fora. Quando seus pés tocaram a grama do jardim, Miliane não conseguiu segurar as lágrimas. Ela balbuciava, ao cair de joelhos e tocar o gramado, apreciando cada sensação que foi devolvida. — Eu me lembro de te ver correr por entre aquelas árvores. Não sei bem por que, mas era o mesmo lugar. Não sei o que você encontrou, mas essa floresta é o único lugar em que eu nunca entraria. — Karmelia comentou, encarando o lugar com pavor. — Por quê? — Porque há um homem que vive ali. Depois que você foi descoberta, alguns dias depois, tivemos o desprazer de ver esse homem. Ele carregava um corpo nas costas e jogou na estrada. Fez isso literalmente três vezes. Ninguém podia se aproximar da floresta, e eu recomendo que você não entre lá, caso contrário, pode ser morta. — Você está dizendo que ele matou três homens? — Bem... dizem que eram criminosos perigosos, mas se ele matou, não significa que ele é um criminoso ainda mais perigoso? — Karmelia perguntou, mas Miliane só pensava em Kaleu. — Como era esse homem? O que matou esses três homens? — Ele é um cara... grande e assustador. Ouvi dizer que usa uma máscara na lateral do rosto porque é desfigurado. Parece ser um homem bem amargurado. — Quando isso aconteceu? — perguntou Miliane, ansiosa. — A primeira vez foi pouco tempo depois de você ter sido presa, e depois, com intervalos de meses, até que o terror se espalhasse por toda a redondeza. Foram três assassinatos em um ano, mas já faz dois anos que ninguém sabe nada dele. Mesmo que as memórias do incidente ainda estejam frescas em nossas mentes, parece que cada uma das vítimas foi torturada até a morte. Não consigo imaginar o quanto seria desagradável encontrar um homem assim, por isso, fique longe dessa floresta. — Você disse que eu posso sair para onde eu quiser, certo? — Fique à vontade. — Karmelia confirmou, e logo depois ficou sem reação quando a menina correu em direção às árvores, desaparecendo entre elas o mais rápido que podia. — Mas... ela ouviu o que eu disse? — Karmelia perguntou, olhando ao redor e pensando em pedir ajuda.
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