Alguns dias… parecem comuns.
Até deixarem de ser.
Eu tinha pegado mais um bico.
Uma confeitaria.
Mas não qualquer uma.
Era o tipo de lugar que eu só via pela vitrine antes — tudo impecável, organizado, cheiro doce no ar, luz suave, clientes bem vestidos.
Eu me sentia… deslocado.
Mas precisava do dinheiro.
Então eu ficava ali, atrás do balcão, atento, educado, tentando fazer tudo certo.
Como sempre.
A porta abriu com um som leve.
Mas o que veio depois… não foi leve.
Foi impacto.
Dois seguranças entraram primeiro.
Olhares atentos, postura firme.
E logo atrás…
ela.
— Meu Deus… alguém sussurrou no salão. — É a Suzy…
O ambiente mudou.
As pessoas começaram a olhar discretamente. Algumas cochichavam, outras pegavam o celular.
Mas ela…
andava como se nada daquilo existisse.
Segura.
Elegante.
Intocável.
Meu coração acelerou.
Eu reconheci na hora.
Era impossível não reconhecer.
Mariana falava dela todos os dias.
Ela parou na frente do balcão.
Na minha frente.
— Boa tarde ela disse.
A voz… calma. Controlada.
— Senhora Suzy, boa tarde, seja bem-vinda — respondi, tentando manter a postura.
Ela sorriu de leve.
— Eu gostaria dessa torta aqui… apontou ? e daquela outra também, por favor.
— Claro, senhora. É pra já.
Minhas mãos começaram a trabalhar quase no automático.
Peguei as tortas com cuidado, embalei tudo da melhor forma possível, conferi duas vezes. Eu não podia errar.
Não com ela.
Quando levantei o olhar pra entregar…
aconteceu.
Nossos olhos se encontraram.
E o tempo…
falhou.
Por um segundo… eu não estava mais ali.
Eu estava na chuva.
No vento.
Na lama.
Segurando uma mão pequena…
olhando nos olhos de alguém que confiava em mim.
Meu peito apertou forte.
Forte demais.
E, do outro lado…
ela também parou.
Por um segundo mínimo.
Quase imperceptível.
Mas eu vi.
O olhar dela mudou.
Como se alguma coisa… tivesse tocado lá no fundo.
A tempestade.
A sensação.
O rosto de um garoto…
Mas era impossível.
Tinha que ser.
Eu pisquei.
E puxei o ar de volta.
— Aqui está, senhora . falei, estendendo a embalagem.
Ela demorou meio segundo a mais pra reagir.
Mas pegou.
— Obrigada.
O momento passou.
Ou… quase.
— Senhora… chamei, antes que ela se afastasse.
Ela voltou o olhar pra mim.
— Sim?
Eu hesitei.
Mas pensei na Mariana.
No quanto aquilo significaria pra ela.
— Teria alguma agência da senhora que esteja precisando de funcionário?
Ela me observou com mais atenção.
— A minha esposa… continuei .ela tem um sonho muito grande de trabalhar em uma das suas empresas. Eu queria saber se…
Minha voz falhou por um instante.
— …se teria alguma oportunidade.
Silêncio.
Curto.
Mas suficiente pra eu sentir o peso.
Então ela sorriu.
De um jeito diferente.
Mais humano.
— Claro… tem sim.
Ela levou a mão à bolsa, tirou um cartão elegante e me entregou.
— Entrega pra ela. Pede pra entrar em contato com a minha secretária.
Eu peguei o cartão com cuidado, como se fosse algo frágil.
— Pode dizer que foi recomendado por mim.
Meu coração disparou.
— Muito obrigado, senhora.
Eu achei que tinha acabado.
Mas não.
— Espera.
Eu olhei de novo.
Ela tirou uma nota da bolsa.
Rápido.
E colocou na minha mão.
— Pelo seu atendimento.
Eu arregalei os olhos.
— Não, senhora… que isso
— Aceite . ela disse, com um leve sorriso. É seu.
Eu hesitei.
Mas aceitei.
— Muito obrigado… mesmo.
Ela assentiu.
E, sem dizer mais nada, se virou.
Os seguranças se posicionaram.
E ela saiu.
Do mesmo jeito que entrou.
Deixando um rastro de olhares… e silêncio.
Eu fiquei ali.
Parado.
Com o cartão numa mão…
e o dinheiro na outra.
Duzentos reais.
Em um instante.
Um sorriso escapou.
Pequeno.
Mas verdadeiro.
Naquele momento…
eu só conseguia pensar em uma coisa.
A Mariana.
O quanto ela ia ficar feliz.
O quanto aquilo… talvez… fosse fazer ela me olhar diferente.
Nem que fosse por um dia.
Eu não percebi…
mas, ao sair da confeitaria…
Suzy olhou pra trás.
Só uma vez.
Discreta.
Quase escondida.
E, pela primeira vez em muitos anos…
o passado dela… também tinha voltado.