Capítulo 10

697 Words
As coisas mudaram rápido demais. Nos primeiros dias… era só animação. Mariana acordava cedo, se arrumava com cuidado, falava da empresa, das pessoas, do ambiente. Eu ouvia. Mesmo cansado… eu ouvia. Porque ver ela feliz… ainda era importante pra mim. Mas depois… veio outra coisa. Comparação. — Lá todo mundo é tão arrumado… ela comentou uma noite, olhando o próprio reflexo no espelho. — Você também tá , respondi, sincero. Ela nem reagiu. No dia seguinte… veio o pedido. Eu tinha acabado de chegar do trabalho. O corpo doía. A cabeça pesada. As contas ainda estavam sobre a mesa. Ela estava sentada no sofá. Esperando. — Simon… ela começou. Eu já conhecia aquele tom. — O que foi? — Eu preciso de dinheiro pra comprar umas roupas novas. Eu franzi a testa. — Quanto? Ela falou como se fosse pouco. — Uns três mil. Eu ri. Mas não foi de graça. Foi de nervoso. — O quê? Ela cruzou os braços. — Três mil. — Você tá maluca, Mariana? O silêncio pesou. — Três mil é o que eu ganho no mês inteiro juntando tudo . continuei, tentando manter a calma. Mercado, bico, entrega… tudo. Minha voz começou a ficar mais firme. — E desses três mil eu pago luz, água, mercado… tudo pra gente comer. Fora remédio, fora qualquer imprevisto. Eu passei a mão no rosto, cansado. — Como que você quer três mil pra roupa? Ela bufou. — Você não entende. — Então me explica respondi, já sentindo o cansaço virar irritação. — Eu trabalho num ambiente chique, Simon! — E daí? — E daí que eu preciso me vestir como as pessoas de lá! Ela levantou do sofá, andando pela sala. — Lá todo mundo usa roupa boa. Blusa social, calça pantalona, tecido bom… eu nem sei falar o nome de tudo, mas eu vejo! Eu respirei fundo. — Você trabalha num ambiente chique… mas você não é chique ainda, Mariana. A frase saiu. Pesada. Ela parou. Virou devagar pra mim. Os olhos… duros. — Eu não posso acreditar que você falou isso. — Eu só tô sendo realista — Realista? ela riu, sem humor. Você chama isso de realista? Eu tentei me controlar. — Eu tô tirando dinheiro de onde não tenho pra você almoçar lá… Ela revirou os olhos. — Porque eu não vou levar marmita! — E qual o problema de levar marmita? eu levantei a voz pela primeira vez. A gente sempre fez isso! — Porque lá ninguém leva! ela respondeu na mesma intensidade. Eu não vou me humilhar daquele jeito! Aquilo me atingiu. — Humilhação é o quê, Mariana? perguntei, mais baixo, mas com mais peso. Trabalhar o dia inteiro pra sustentar uma casa sozinho? Silêncio. Ela desviou o olhar por um segundo. Mas voltou. Mais dura. — Eu preciso dessas roupas. — Agora não dá. — É sempre assim .ela respondeu na hora. — Não dá. Não dá. não dá! Eu fechei os olhos por um instante. Cansado. De verdade. — Minha mãe costurou roupas novas pra você — falei, tentando um último caminho. — Você nem foi buscar ainda… Ela soltou uma risada curta. Desprezo puro. — Eu não vou usar aquelas roupas. Aquilo veio seco. — São tecidos péssimos. Aquilo não tem qualidade nenhuma. Eu senti. Fundo. — Foi minha mãe que fez… falei, baixo. — E daí? Sem hesitação. Sem cuidado. O silêncio que veio depois… foi pesado. — Mariana… agora não dá ,repeti, já sem força. Ela me olhou. E, pela primeira vez… não parecia só irritada. Parecia cansada de mim. — Você nunca vai entender. Ela virou. Caminhou até o quarto. — Você não abriu sua boca, Simon? — ela disse, sem olhar pra trás. Porque eu já tô cansada disso. E então… bateu a porta. O som ecoou pela casa inteira. Eu fiquei parado. No meio da sala. Com as contas na mesa. Com o cansaço no corpo. E com uma sensação… que eu já conhecia. Insuficiente. De novo. Eu sentei devagar. Passei a mão no rosto. E, sem querer… lembrei dela. Da garota da tempestade. Porque, por mais que o tempo passasse… ela ainda era a única lembrança… que não doía.
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