Capítulo 8

616 Words
Eu não lembrava a última vez que voltei pra casa… ansioso. Ansioso de verdade. Passei na rua de sempre… mas com um sorriso que não combinava com o resto dos meus dias. Na mão, a caixa da torta. No bolso… o cartão. Aquilo parecia pouco pra qualquer pessoa. Mas, pra mim… era esperança. Abri a porta rápido. — Meu amor! Mariana estava sentada no sofá, mexendo no celular, como sempre. — O que foi? respondeu, sem muito interesse. Eu nem consegui esconder o sorriso. — Você não tem noção de quem eu fui atender hoje. Ela levantou o olhar, curiosa. — Quem? Eu respirei fundo. — A Suzy. O efeito foi imediato. — O quê?! ela levantou num pulo, o celular quase caindo da mão. Eu ri, sem acreditar na reação. — Sim… ela foi lá na confeitaria. — Simon, para de brincar comigo! — Não é brincadeira. Eu tirei o cartão do bolso e estendi pra ela. — Aqui. Ela pegou com cuidado… como se fosse algo raro. Algo precioso. Os olhos dela brilharam de um jeito que eu nunca tinha visto antes. — Ai meu Deus… sussurrou. — Você tá falando sério? — Tô. — Isso é dela mesmo? — Ela me deu. Disse pra você entrar em contato com a secretária dela… falou que pode dizer que foi recomendado por ela. Por um segundo… ela ficou em silêncio. Só olhando o cartão. Como se estivesse segurando o próprio futuro nas mãos. Então ela sorriu. Mas não foi qualquer sorriso. Foi um sorriso aberto. Vivo. Real. — Simon… Ela se aproximou rápido… e, antes que eu esperasse, segurou meu rosto. E me beijou. Um beijo de verdade. Caloroso. Com vontade. Depois de dias… talvez semanas. Meu coração disparou. Porque era isso que eu queria. Sempre foi. — Você tem noção do que isso significa? ela disse, quase sem fôlego, sorrindo. — Tenho… respondi, ainda meio perdido naquele momento. — Você tem noção que eu tô com o cartão da Suzy na mão? Eu assenti. — Que eu posso conseguir um trabalho lá? Ela apertou o cartão com mais força. — Simon… se eu conseguir… minha vida vai mudar. Minha vida. Aquilo passou rápido pela minha cabeça. Rápido. Mas forte. Porque ela não disse nossa vida. Mas eu ignorei. Como sempre. — Vai sim, meu amor… falei, tentando sorrir do mesmo jeito. — Vai mudar tudo! Ela já estava andando pela sala, empolgada, falando sozinha, imaginando possibilidades. — Eu posso crescer lá dentro… conhecer gente importante… mudar completamente de vida… Eu fiquei ali… olhando. Assistindo. — Ah! lembrei, levantando a caixa. Eu trouxe isso pra você. Ela olhou. — Torta? — Eu comprei com a gorjeta que ela me deu. Os olhos dela se arregalaram de novo. — Ela te deu gorjeta também?! Eu ri. — Deu. — Meu Deus… hoje é o melhor dia da minha vida! Ela parecia outra pessoa. Leve. Animada. Feliz. E, naquela noite… pela primeira vez em muito tempo… ela me procurou. Sem distância. Sem frieza. Sem rejeição. Ela me tocou como antes. Me olhou como antes. Se aproximou como antes. E eu… me entreguei. Porque, mesmo sabendo que aquilo vinha de um motivo… mesmo sentindo lá no fundo que não era exatamente por mim… eu queria acreditar. Queria acreditar que… talvez… a gente ainda pudesse ser o que eu sempre sonhei. Naquela noite… não teve silêncio. Não teve vazio. Só calor. Carinho. Entrega. E, por algumas horas… eu esqueci. Esqueci das p************s. Esqueci do cansaço. Esqueci de tudo que doía. Mas, no fundo… bem no fundo… aquela frase ainda ecoava. “Minha vida vai mudar.” E, pela primeira vez… eu tive medo… de não estar incluído nela.
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