Chapter XXX

2451 Words
Episode: He's a liar - Bom dia, altezas. - Don Luminiére saudou ao que os ponteiros indicava cinco para as oito.  Os príncipes estavam tendo o café da manhã no Salão A, respirando fundo antes de retornarem para uma prova teórica de conduta e etiquetas (o que honestamente achavam desnecessária, mas ao menos bastava ter bom senso para sua nota ser boa) quando o cavalheiro que já conhecia adentrou o espaço com sua usual expressão neutra e uma postura impecável. Todos pararam imediatamente para escutarem com curiosidade a respeito do que tanto esperavam notícias. - Bom, como sabem, houve um incidente ontem envolvendo o futuro herdeiro de Ravena, Niall James Horan. Irei esclarecer os boatos agora. - anunciou, cruzando os braços atrás das costas. - Príncipe Niall foi intoxicado. Alguns desavisados - aqueles que dormiam na hora do ocorrido - grunhiram em surpresa. Não era o tipo de notícia reconfortante para se receber durante o café, certo? - Próximo da madrugada passada Niall sentiu uma palpitação no peito. De súbito sua respiração ficou ofegante e ele teve um quadro de tremedeiras intermitentes. Os doutores o salvaram, e ele está estável agora. Mas o palpite é que Niall tenha sofrido uma intoxicação. - Piada! - uma voz se sobressaiu, atraindo a repentina atenção de todos da sala. Andrew estava de pé, em um canto do refeitório, com seu rosto vermelho e uma expressão claramente furiosa. - Vocês sabem que estão amenizando a situação! Eu vi com os meus próprios olhos todo o alarde! Eu vi Niall sendo socorrido enquanto parecia prestes a ter uma convulsão! Intoxicação é eufemismo, aquilo estava mais para envenenamento! Os príncipes uivaram em espanto com toda a declaração de Andrew, exasperando-se ao que olhavam em expectativa para a réplica de Dom Luminiére, o qual procurava manter-se firme embora sua falta de reação estivesse evidente. - Admita, pelo amor de Deus. - Certo. - o cavalheiro murmurou, cedendo. - Não é algo que temos como comprovar, mas o Príncipe Horan nos informou que os sintomas começaram desde o jantar, o que nos leva a crer que sua comida estivera batizada. Pensamos na possibilidade de ter sido um descuido geral, mas apenas o senhor Niall apresentou os sintomas, provando ser algo específico ou uma reação alérgi- - Sério? Vocês ainda têm duvida de quem está por trás disso? - Andrew voltou a reverberar, fazendo com que a sala entrasse em um silêncio tenso. - Olhem ao redor, quem está faltando aqui? Eles sabiam quem era. Era fácil notar tanto sua ausência quanto sua faustosa presença. - Quem iria por todos os santos se ocupar em perder o tempo para ferrar com alguém? Quem possui rixa com Niall James Horan? Quem é c***l e vingativo?! - Vossa alteza, por fav-  - Não, Dom Luminiére. Está óbvio e claro assim como o sol do meio dia que Harry Edward Styles é o culpado! E por alguma razão vocês ainda tentam relevar suas ladainhas! Eu estou cheio disso, honestamente. Nós somos obrigados a aceitar tudo que aquela cobra depravada faz de braços cruzados.  Dito - berrado - a acusação, o príncipe exaltado marchou à passos pesados em direção à porta, saindo como um trovão do salão. Dom Luminiére nada mais proferiu, calando-se em um consentimento implícito para tudo que foi alegado. Ele apenas desejou um bom resto de dia para os demais e deixou o lugar tão forasteiro quanto entrou. Deixou o lugar cheio de jovens chocados e de certo modo indignados pela mais pura verdade. Príncipe Andrew tinha feito um ponto. Por todas as temporadas Harry Styles deveria agir de maneira intolerável, e ainda assim não sofria as devidas punições - porque por mais que nunca fosse aprovado na Anistia dos Tronos, ainda assim ele supostamente deveria ser condenado permanentemente à coroa de seu reino. Ele não merecia absolutamente nada. Era arrogante, prepotente, maléfico. E mesmo seus fiéis seguidores sentiram um arrepio cruzando suas espinhas ao se realizarem da verdadeira serpente que viviam enaltecendo. Naquele restante de tarde, as provas ocorreram em quietude. Uma quietude estrondosa. E nem sequer no jantar Harry Styles foi corajoso o suficiente para dar as caras. **** Então, não foi difícil entender que a última refeição da quinta-feira havia sido um tanto perturbadora. Os príncipes aguardaram discretamente a aparição de Harry. O que não aconteceu. Isso não descontraiu o clima de fato. Serviu para que os burburinhos aumentassem, e no final aquilo se tornara uma mistura de calada cesar, carne de cordeiro ao molho rosé, conversas paralelas sobre a falta de limites de Harry e condolências pela situação de Niall. Alguns até mesmo se lamentaram por nunca terem feito questão de serem amigos do loiro, que por si só se isolava no Palácio.  Mas prometeram que seriam a partir de então. Prometeram visita-lo na tarde de sexta com alguns arranjos de flores e ofertas de amizade - será que seria realmente amizade quando a motivação foi o peso em suas consciências? E entre um gole do suco de amoras, Liam Payne passou a encarar Zayn Malik enquanto o mesmo sequer tocara no prato. Ele parecia pior e mais afetado a cada dia. Desde a ocorrência em que Zayn se exaltara, nunca mais trocaram uma palavra. O príncipe de Arlen estava distante, e pálido, e seu rosto muito fino e magro. Seu corpo honestamente tinha um aspecto doente, denegrido. A imagem do moreno dos longos cílios que tanto fora cultuada no começo da temporada estava se desfarelando para algo negativo e motivo de cochichos. Além de que aquela última edição de How to Wear a Crown soou bem específica ao mencionar a falta de apetite de Zayn, como se soubesse exatamente. *** Você nem ao menos tem algo no estômago para esvaziar. Sua mente continuava pulsando. Mas ele meio que havia tornado aquilo um ritual, e o fato de não ter tocado em seu jantar não impedia suas finas pernas de se esgueirarem do aposento ao bater da meia-noite para direcionar-se silenciosamente à sua usual sala escura. Zayn Malik não entendia o porquê insistia nisso. No entanto, era um impulso mais forte que ele. Era o impulso que o levava constantemente para o isolamento noturno a fim de 'ficar bonito'. Era o impulso que o fez parar nesse momento na frente da porta e empurra-la devagar, certificando-se que nenhum guarda fazia patrulha por ali. Mas, quando abriu uma fresta suficiente para sua passagem, tomou um grande susto ao deparar-se com a figura de Liam Payne agachada em meio ao escuro, segurando contra o peito o seu balde de madeira destinado para.. você sabe. - Que p***a você está fazendo? - Zayn perguntou em tom exasperado, repreendendo-se mentalmente pelo descuido de praticamente gritar e expor-se aos guardas. Adentrou rapidamente a sala fechando a porta atrás de si, e com um dos fósforos que levava no bolso - para acender velas nas madrugadas que o escuro o intimidava muito - ele raspou-a contra a aspereza da caixinha, ateando fogo em sua extremidade arredondada. A partir da rasa luminosidade do fósforo ele recebeu uma visão melhor do que acontecia. Aproximou-se temeroso, não suprimindo um suspiro de alívio ao constatar que o balde estava vazio, Liam somente carregava-o contra si. Liam o qual não se movera desde a chegada de Zayn, limitando-se a erguer o rosto para cima, vislumbrando a imagem do príncipe de Arlen com uma expressão desordenada. - O que está fazendo? -  Malik indagou novamente, num tom sussurrado dessa vez. - Oh, merda. - amaldiçoou quando o fósforo já consumido pela chama queimou-lhe a ponta dos dedos até que apagasse-o em um sopro. Teve de apanhar outro para clarear o espaço, mas então buscou por uma pequena lamparina que não resultasse em outra queimação de dedos. Ao encontrar, retornou ao seu posto inicial, perto de Liam, depositando a lamparina no chão. - Vamos, estou esperando respostas. - exigiu, realmente perdendo a paciência. - Você me disse sobre beleza. Penso que talvez esteja certo. Se faz isso tendo esse corpo magro, imagino então eu, com tantos quilos amais, quão longe do ideal estou. - Payne ia proferindo, e cada palavra aterrorizava ainda mais o príncipe. - Talvez eu deva aderir aos seus métodos. O coração de Zayn falhou uma batida. - O-O que? Não, não- - É assim que se faz, certo? Eu comi em demasiado no jantar mesmo, prec- Malik nem sequer permitiu Liam terminar a frase, agachando-se e agarrando o balde pelas bordas. - Eu não vou deixar que você faça isso. Liam, você não vai entrar nessa. - alertou, tentando puxar o recipiente com força da posse do maior, que por ser mais forte não cedeu, tornando aquilo uma espécie de cabo de força. - Eu só vou provar sua tática. - Payne se defendeu, torcendo mentalmente para que seu objetivo com toda essa cena fosse bem sucedido.  - Pare de ser um t**o! - Malik reverberou, soando genuinamente desesperado. - Liam! Por favor! - advertiu. E apenas porque sua voz estava beirando uma aflição extrema, Payne parou de insistir, permitindo que o balde fosse arrancado de si. A euforia do momento foi instantaneamente substituída para um silêncio gritante, com Zayn ligeiramente trêmulo, apertando o balde com firmeza, como se estivesse dependendo dele para não despencar de algum abismo seu. Já o herdeiro de Bristok piscava calmo, estudando cuidadosamente a reação estranha de Zayn. - Você seria um i****a se houvesse feito isso. - Malik balbuciou, quebrado. - E por quê?  - Porque acabaria se machucando por algo... Que não vale a pena. - segredou, a cada palavra um timbre menos audível, finalizando com um suspiro profundo enquanto seus olhos se fixaram no chão, a cabeça mantida baixa.  -  Eu não teria me arriscado. - Liam confessou. - Mas eu precisava que você falasse em voz alta que você está se machucando por algo que não vale a pena. - Não me importo. Eu não tenho mais cura nesse quesito. - Malik decretou. - Seu distúrbio tem cura, no caso, é entender que você tem muito mais a oferecer do que estética.  - É engraçado escutar isso na teoria, quando na prática o mundo vive de aparências. - Zayn balbuciou sob sua respiração pesada.  - Você está generalizando. Talvez a parte medíocre e ignorante do mundo viva de aparências. - Payne concordou. - Mas sempre haverá uma melhor que entenderá que aparência é algo manipulável, enquanto que virtudes verdadeiras são razões reais para admirar alguém. - Bem, não quando esperam que você seja bonito o bastante para atrair alguém respeitado, bem posicionado e digno. - Primeiro que: se algum indivíduo se relaciona com o outro somente pelo o que o atrai fisicamente, ele já não é respeitável e bem posicionado. Muito menos digno. Eu o chamaria melhor de fútil. Segundo que, por que c*****o você relaciona beleza com... Isso?! - Liam apontou para a figura do moreno, segurando o balde de madeira entre os braços, gesticulando fielmente o que pretendia transpassar. Aquilo soou como uma flecha no coração de Zayn, que resfolegou, negando com a cabeça. - Porque eu preciso manter o meu peso. Eu preciso de um corpo que agrade a sociedade tanto quanto me agrade. Isso é beleza. - Beleza? Procure no dicionário. - Liam grunhiu frustrado e exasperado. - Provavelmente a primeira definição será algo como 'manifestação do belo'. Você sabe o que é belo para mim, Zayn? Belo é acordar na manhã e assistir um nascer de sol com o céu limpo. Belo é o céu estrelado em noite de lua cheia. Belo é o par de asas coloridas de uma borboleta. Belo, beleza... significa uma virtude que te desperte encanto, autenticidade, interesse. É, supostamente, uma coisa agradável e que te faça se sentir bem. Ela vem de dentro para fora. Pois então me diga, como você cogita 'estar bonito' quando os métodos que aplica para alcançar são o oposto disso? Afetam sua saúde?! - Eles são o que me mantém firme. Eles me garantirão uma boa esposa, ou esposo. Algum pretendente decente, que resulte em uma união de tronos épica. Essa é a minha forma de conseguir. - Zayn sussurrou. Merda. Era um assunto tão delicado, porque quiça a devida importância que Liam dava aquilo não fosse um décimo da que Zayn dava.  Não seria ao todo fácil de convencê-lo a qualquer coisa. Payne respirou fundo, indo sentar-se ao lado de Zayn no piso frio, rente a sua magra estrutura. - Todos estamos submetidos a esse universo plastificado, sabe? Em suma, a maioria compete para se parecer com um molde padronizado de beleza, porque é ignorante demais para aceitar sua própria forma de encanto. É isso que você pretende? Ser outro boneco de plástico? Porque essa não é uma atitude de rei, é uma atitude de alienado. Os ombros de Zayn caíram. - Eu só estou tentando ser bo- - Você é bonito. - Liam o interrompeu, enviando-o um olhar honesto. - Você é lindo. Mas, Zayn, você também é inteligente, e bondoso, e simpático, e altruísta. Você tem outras mil qualidades. Pare de enfatizar tanto seu visual, ou tornará sua beleza um defeito. Você não tem que ir atrás de alguém que te veja como um pedaço de carne agradável. As palavras causaram algum impacto. Liam pôde ver um pequeno nó confuso e um conflito interno ocorrendo por trás do par de olhos castanhos e longos cílios. Depois de um par de segundos Zayn assentiu, ainda em silêncio. - Eu não tenho o poder de transformar suas atitudes. Meu discurso pode ou não ter adiantado para alguma coisa. Quem decide é você. - Payne suspirou. - Boa noite, príncipe. E se levantou, saindo da sala em passos quietos, deixando para trás Príncipe Malik em estado de atordoamento, e estático. *** A madrugada de quinta ainda era, embora, algo a se vangloriar. Não pelo clima tenso que se dissipou quando cada um rumou ao seu próprio aposento, e sim porque talvez fosse a primeira madrugada daquela temporada em que o verão se fizesse tão presente. Estando em uma área de temperaturas noturnas sempre frias - mesmo em verões - era de se admirar de que naquele luar o uso de casacos não fosse necessário. Apenas uma malha fina e uma calça com pano liso de algodão talvez. Oh, mas Louis acrescentou ao seu vestuário um par de suspensórios também. Ele estava pronto para sua caminhada noturna, a qual tinha um propósito desde que avistara uma figura esguia e solitária passeando pelo jardim através da janela de seu quarto. Dessa vez, Harry parecia ter tomado um caminho diferente do usual, seguiu para o lado sudeste dos canteiros, em que nem Louis saberia dizer onde desembocava. Portanto, apressou-se para ficar pronto e descobrir.
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