Ato 13

2285 Words
Não falamos muito durante todo o percurso. E quando chegamos em nosso destino, paramos exatamente atrás do carro do Hiroshi, namorado da Akemi. O manobrista pegou as chaves, saímos naturalmente com a ruiva logo atrás de nós. — Bom dia — falou baixo quando entramos no mesmo elevador. — Bom dia — dissemos em coro. Matthew prosseguiu. — Mike, você abre minha sala, irei ao andar de cima verificar algumas coisas. — Ah, sem problemas. Notei o olhar atravessado que Akemi nos lançava, além do leve apertão a mais que sua alça da bolsa recebia. Como era esperado, ela saiu na frente, abrindo a porta da recepção e pondo-se atrás do balcão. Segui como faria naturalmente, abrindo a porta do meu Chefe e entrei por ela, de lá partindo para o meu escritório. Serei obrigado a ir para casa com ele, mais precisamente para sua casa, já que meu carro está lá. E bem, só pretendo ir até a sua garagem e nada mais. Só pretendo ir até a sua garagem. Eu não me arrependo de ter vindo de carona, porém, essa questão de ter de ir lá, hum, não está me soando muito promissora com relação ao meu desejo de ficar pelo térreo. O dia de trabalho foi longo, cansativo também. Talvez por ser segunda-feira e ela ser regada pela preguiça do final de semana. Com tudo, foi um dia bem produtivo, até marcamos o dia de nossa viagem à Inglaterra, se tudo der certo e o trabalho não acabar atrapalhando, temos um mês e pouco para planejá-la. Com a correria do dia, não demorou muito para chegar a hora de ir para casa. — Mike, estou te esperando no carro. — Abriu a porta do meu escritório. — Não demore. — Ainda tenho algumas coisas para colocar nas pastas. Se quiser ir, posso pedir um táxi. — Seria muito desaforo se eu permitisse isso. — Fechou a porta, passando para dentro e colocando sua maleta em uma cadeira que havia ali. — O que ainda falta? — aproximou pegando algumas coisas. — O que pensa que está fazendo? — Irei lhe ajudar. Temos que ir para casa. — Estou indo pegar o meu carro, Matthew. O meu carro. — Claro que está, não é? — Inclinou o corpo sobre a mesa e consequentemente as mãos sobre as pastas as quais eu arrumava. — Hoje faz frio outra vez, pedi ao Gregory para fazer sopa, tudo bem para você? — Não entendi o que pretende. E será que pode me dar licença? Preciso terminar o meu trabalho. — Não até dizer que vai jantar lá. — Desdobrava-se cada vez mais sobre os papéis, parecia uma criança birrenta. — Estou esperando. Encarei seus olhos, havia um brilho sapeca neles. — Não me faça rir. — Não segurei o riso. — Se eu disser que vou, posso retomar meu trabalho e você vai deixar de se comportar como uma criança mimada? — É assim que funciona, não? — E se eu negar a resposta? — Ah, então parece que vamos ter uma noite divertida no escritório — cantarolou. — Você não seria capaz — apontei. — Experimente. — Sorriu ainda mais largo. — Matthew! Isso é chantagem! — nós rimos. — Está bem, eu vou. Agora saí de cima da papelada, por favor. — Claro, com todo o prazer. — Ergueu o corpo, indo até a maleta outra vez. — Quer ajuda? — Não, obrigado. Pensava que faltavam mais coisas, porém somente algumas pastas. Quando guardei a ficha de Makoto, me lembrei que esses dias não havia falado com ele, pelo menos desde o jantar que tinha ido. Akemi já havia sido dispensada quando passamos pela recepção, devo admitir que foi um alívio. Nada desse negócio de chegar e sair com o Chefe sob os olhares dela, já que acredito que não seja algo que eu deva levar para frente, ao menos não dessa forma, chegar ou sair somente quando for de necessidade, é o que espero. Pensando nisso, já imagino como será a sua reação quando souber da viagem e que quem irá junto ao Matthew serei eu, mesmo com pouco tempo de trabalho quando comparado a ela. Certeza que não será uma notícia recebida tão abertamente, mas não sou eu quem decide o que acontece ou deixa de acontecer aqui dentro. Pelo horário de pico, levamos um pouco mais de tempo para chegar ao apartamento do outro. — Vai ficar vestido assim? — perguntou. — Como quer que eu me vista? Não estava preparado para uma chantagem. — Tirei minha jaqueta, entregando ao Gregory. — Posso lhe oferecer o que vestir? — Isso me parece promissor para que eu fique, então prefiro continuar do jeito que estou. — Ah, que resistência. Venha, já que é assim, irei jantar de paletó. — Folgava a gravata cinza. — Não seja ridículo, está em sua casa. — Rolei os olhos, ouvi o Gregory rir em minhas costas. — Já que está com tanta pressa para ir embora, creio que a espera que me reorganize para comer custará tempo — ria um pouco mais alto. — Não ponha palavras em minha boca. Fomos ao banheiro lavar as mãos e quando voltamos, o jantar estava servido. O cheiro que exalava sobre a mesa era dignamente divino, não diferente do sabor que impregnou meus lábios a partir da primeira colherada. A conversa com o moreno fluiu divertida desde quando sentamos até o momento de que pouco mais de uma hora após o jantar, quando já nos encontrávamos em sua biblioteca e eu me preparava pra ir embora. Fui acompanhado até o estacionamento. — Preciso da sua companhia mais vezes em meu jantar ou almoço em casa nos finais de semana. Quase nunca tenho visitas, então, espero que aceite sempre que for convidado. É divertido ter você como convidado e companhia. — Obrigado pelo convite. E pela estadia de ontem. — Sorri de lado. — Não há o que agradecer. — Colocou uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha. — Boa viagem de volta. Até amanhã, na empresa. — Enfiou as mãos de volta nos bolsos da calça social. — Boa noite, Mihael. — Boa noite, Matthew. Isso sim era finalmente uma despedida. Já imaginava o quanto de perguntas viriam do Nathan. Deus, chega a ser cômico pensar sobre as coisas que ele provavelmente tramou em sua cabeça sobre os acontecimentos que possam ter acontecido. Eu tentei ignorar durante todo o dia de hoje, e na verdade consegui, o fato que aconteceu em sua cobertura. Mas aqui e sozinho dentro do carro, repassando todo o dia de ontem, e não só, como o seu convite para o jantar de hoje. Como posso estar me deixando levar dessa maneira? Preciso aprender a dizer não a ele. Ainda mais porque se trata de assuntos informais. O Nathan não pode ficar sabendo que quase nos beijamos. Ele não pode! Foi apenas um jantar, onde bebemos vinho enquanto conversávamos e durante um breve momento vimos o começo da chuva na cobertura. Foi só o que aconteceu. Inspirei fundo quando me vi dentro do meu condomínio, esperando o elevador para que fosse até o meu andar. Não estava nervoso, mas tentava me controlar para responder friamente às perguntas que viriam do albino. Girei a chave na maçaneta, quando abri a porta aparentemente não havia ninguém em casa, até que escutei pés com meias correndo até a sala. — Mike! — Pisava com um pouco mais de força vindo em minha direção. — Pensei que fosse morar com o Williams! Isso são horas? — O Matthew me convidou para ir jantar na casa dele, esqueci de mandar mensagem. Desculpa. — Deixei a maleta com algumas pastas sobre o sofá, sentando ao lado dela. — E então, como foi à noite de ontem? — investigou animado. — Normal. — Permaneci olhando para frente, podia ver e quase sentir quando seu polegar deslizou em meu lábio naquela cobertura. — Jantamos, conversamos, bebemos vinho. Eu viria para casa, se não fosse a chuva que atrapalhou o trânsito. — Não vai me dizer que não rolou nada? — Franziu a testa. — Nem um clima? — Eu disse a você que não tinha um clima para se formar. — Rolei os olhos. — O Matthew tem consciência de que sou seu empregado, assim como eu tenho consciência de que ele é meu chefe. — Ah, então quer dizer que essa relação funciona durante vinte e quatro horas e fora da empresa? Isso para mim é desculpa esfarrapada de alguém que não quer assumir o que sente. — Levantou do sofá. — E quer saber?! — Apontou para mim. — Você, principalmente você, deveria deixar de pensar tanto. Quem muito pensa, pouco faz. Se essa finalmente for a sua chance, vai a deixar escapar, por conta de medo e, claro, de tanto que você tenta ser racional! Não é para ser perfeito, Mike, põe isso na sua cabeça, é só para ser bom. — Tudo bem, Nathan. Entendo como pense, mas não é assim que funciona sempre. — Eu desisto. — Deu meia volta, indo até seu quarto, ouvi a porta bater. Encarei o nada mais uma vez. Ele tem alguma razão sobre algumas dessas coisas, mesmo que eu não vá admitir logo de cara, afinal, estou tentando manter uma linha de pensamento sobre como devo prosseguir com o andamento do meu relacionamento com o Chefe, porém nem o próprio colabora. Esfreguei o rosto com as mãos. Precisava isso tudo ser tão difícil assim? Claro que não. Mas quem liga pra o que eu penso?! O destino, ou seja lá quem for por trás disso tudo, está nem aí para qualquer fator que inclua o meu querer que aconteça. Levantando do estofado contra a minha vontade, fui direto para o banheiro, precisava urgente de um banho para tentar espantar um pouco desses pensamentos e relaxar. Falaria com o Nathan após isso. E foi o que fiz, quando acabei a ducha, segui para seu quarto, batendo na madeira fechada e recebi a autorização para entrar. — Posso te fazer uma pergunta? — Acabou de fazê-la. O que quer? — Sentou-se, puxando o que antes apoiava sua cabeça para colocar sobre as pernas cruzadas. — Por que está tão preocupado com o andamento dos acontecimentos entre o Matthew e eu? — Porque eu me preocupo com você. E sei que não está levando em frente por medo, já até me disse isso — suspirou. — Sei que antes não foi bom, mas isso não significa que vai acontecer outra vez. É essa parte que quero que entenda. Ninguém é igual, Mike. — Não sei qual das duas experiências foi a pior... E por isso não quero me deixar levar de novo. Tenho noção de que não está funcionando. Toda essa nossa proximidade faz meu coração bater cada vez mais rápido e ficar na expectativa sobre quando vamos ter um novo encontro, mesmo que este não seja propriamente dito. Mas ainda assim, eu n**o qualquer sentimento, porque é a única arma que tenho para me manter com os pés no chão. Não fique bravo comigo. — Eu não estou. — Olhou para mim. — Não te deixaria entrar caso sim. Escuta, posso lhe pedir algo? — Depende do que esteja tramando. — Quero que o chame para sair. Ir ao cinema ou lanchar na sua lanchonete favorita. — Ficou louco? — Estou falando sério. Já que está querendo acreditar que não há sentimentos, leve na brincadeira. — Não sei se posso fazer isso — apontei com sinceridade. — Por que não? — Como que eu iria chamá-lo para sair? — No final de semana, como ele fez com você, ora. — Jogou os ombros para cima. — Não sei, não. — Mordi meu lábio. — Entende o que está pedindo que eu faça? — Plenamente. Agora, me diga que vai fazer sábado. Estamos no começo da semana, tem o resto dela para pensar em como convidá-lo. Tenho certeza de que ele vai gostar que a atitude parta de você pelo menos uma vez. — Ah. Você falando faz parecer tão fácil, mas sabe que não é. — Baixei a cabeça negando somente o pensar em fazer qualquer coisa. — Vamos, Mike. É só um lanche ou um filme. Como aconteceu essa semana. — Sorriu pequeno. Encarei seus olhos que continham um brilho de incentivo. — Não estou dizendo para tentar nada nem agora e nem depois. Só que retribua o convite, vamos dizer assim para que se sinta mais confortável. — Camuflando suas intenções — ele riu, não deixei de acompanhar. — Farei o meu melhor para o final de semana. — Tenho certeza disso. Tem certeza de que não está me escondendo nada sobre o jantar? — Oh, Nathan, por favor. O que eu teria para esconder? — Eu não sei. Por isso estou lhe perguntando. — Pois eu repito que não aconteceu nada. Ele ergueu a sobrancelha antes de responder: — Irei acreditar em você. — Ótimo. Apesar da frase dele, eu sabia que o próprio não acreditava plenamente nas minhas palavras, sabia que eu escondia algo, porém não fazia ideia do que poderia ser. Contei a ele sobre algumas coisas que vi e fizemos, queria tentar despistá-lo, mas o Nathan é esperto e a cada lugar que eu dizia, ele investigava o que acontecia dentro de cada situação. Uma das melhores coisas que me aconteceu lá foi aquela vista de sua cobertura e que eu pretendo levar a minha câmera para poder fotografar lá de cima. Dará um belo retrato do pôr-do-sol ou em uma noite estrelada. Só me resta ser convidado outra vez para desfrutar daquele belo lugar.
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