Ato 1

1532 Words
The Secretary Sexual Toy “Matthew Williams, vinte e cinco anos. Um homem capaz de, somente com a malícia de seus olhos negros, derreter o iceberg no coração da mais fria mulher. Com sua voz rouca, suave e aveludada, iludir a pobre moça que acredita em príncipes; com a escultura de seu corpo, fazer homens duvidar da própria sexualidade. É com seus cabelos da cor de ébano, com sua pele pálida de bochechas rosadas e postura impecável de empresário eficiente, que ele seduz a todos. Incluindo a mim, Mihael Müller, apenas mais um que foi fisgado pelo seu anzol com isca lançado ao mar revolto. — Tenho desejos, Müller. E gosto de satisfazê-los.” ATO I “São casos e acasos. Acontecimentos, fatos. Que por mais simples ou mais complexos que sejam, poderão transformar por completo a vida de alguém. E por que não a sua?” Autor Desconhecido¹ Essa é a frase do mês para mim, Mihael Müller. Ao menos, é isso que o horóscopo do jornal de ontem dizia. Porém, a dúvida é sempre a mesma nessas horas: devo acreditar? Não que eu seja cético, mas, qual é... Como um ser humano, que se diz provido de algo divino, irá prever o futuro de alguém que nunca nem viu? E não apenas o meu, mas, também, de milhares de outras pessoas que terão acesso a estas folhas de noticiários. Francamente, acredito que tenho melhores coisas para me preocupar do que com um destino incerto. A luz do dia pouco entra em meu quarto, já que a janela está coberta com uma pesada cortina anil. O café da manhã reforçado que comi agora pouco é para que eu tenha, ao menos, uma aparência saudável durante a entrevista de emprego que comparecerá daqui a poucos minutos. Examinando o rosto moreno no espelho do banheiro, arregalo os olhos extremamente azuis, procurando imperfeições na pele ou desalinhamento nos dentes brancos. Os cabelos loiros e lisos caem levemente sobre os ombros da jaqueta escura, trazendo um aspecto mais jovial do que os meus vinte e quatro anos na carteira de identidade. Com tudo verificado, começo meu caminho para o estacionamento, já para começar a dirigir em direção à Editora Hands of the Gods. O friozinho na barriga é inevitável, mas não que essa seja minha primeira entrevista, no entanto, sempre há aquele nervosismo de querer causar boa impressão; afinal, a primeira delas é a que fica. Seguindo pelo trânsito livre da manhã, consigo chegar cedo à frente do prédio colossal. Entregando as chaves do carro para o manobrista, me apresso para dentro da grande estrutura imponente. Tomando o elevador, encaro-me no espelho de fundo, enquanto a música instrumental suave que embala a subida até o trigésimo andar. Quando o clássico ‘plim’ para avisar sobre a chegada ao destino soou, projetei-me para fora da máquina, caminhando pelo largo corredor em direção à única sala do andar. Do outro lado das grandes portas de vidro transparente, localizei a ruiva que ocupa a cadeira de recepcionista atrás do balcão. Erguendo o queixo, tentando parecer mais confiante do que realmente me sinto, adentro a sala sem delongas. Os olhos da moça rolam dos papéis para a tela do computador em uma constante e somente depois de um pigarreio é que sou notado. — Ah, me desculpe. — Ela deixa um sorriso simples dançar em sua boca quando dita. — Bom dia. Pois não, o que deseja? — Endireitou os ombros, olhando diretamente para o meu rosto. — Bom dia. Eu tenho uma entrevista para hoje. — Tentei não gaguejar ou sequer tremular a voz para não transparecer o que sinto por dentro. — Seu nome, por favor. — Sorria docemente, apertando os arredores dos vibrantes olhos castanhos por detrás das lentes dos óculos, quando ergueu os lábios rosados em um sorriso que levantou suas bochechas coradas de maquiagem. — Mihael Müller. — Desviando os olhos para o crachá no bolso do blazer que ela veste, identifiquei o nome da mulher: Akemi Watanabe. — Pode sentar e aguardar, Senhor Müller. Irei avisar sobre a sua chegada. Fazendo o que me foi aconselhado, sentei, e enquanto estou sentado, observo a mulher falar ao telefone com o olhar sobre mim, murmurando coisas na linha telefônica. Em minha cabeça, me sinto um pouco mais relaxado, ao menos, até encontrar com o Chefe. Essa é sempre a parte intimidante. Principalmente quando eles se acham soberbos, por costume, somente pelo fato de sentarem na cadeira mais alta de uma empresa. Alguns minutos de espera e o ‘tec-tec’ que a moça faz em seu computador praticamente sincronizam com o ritmo aleatório em que meus dedos tamborilam sobre a perna. Esperar não é uma das minhas maiores dádivas, ainda mais quando estou nervoso. E parecendo que a mulher lia os meus pensamentos, ela me alertou: — Senhor Müller, o senhor Williams te espera. — Mantinha um sorriso sem dentes. — Obrigado. — Levantei-me, esticando a camisa para ajustar o que já se encontra justo, respirando fundo logo em seguida. Espanando a poeira imaginária de alguns lugares do pano das roupas, parecia que eu me sentia pronto para adentrar a sala em frente. — O senhor está ótimo. — A ruiva tentou me encorajar. — Obrigado. — Sigo em direção às portas duplas de madeira e com duas leves batidas, esperei a sentença para que eu pudesse entrar. Depois que finalmente a escutei, a surpresa veio logo que consegui visualizar o homem atrás da mesa. Não era um velho barbudo e de barriga saliente como quase todos os Chefes são, mas ali estava um jovem moreno de bela aparência. Meu primeiro pensamento foi esperar não ter feito qualquer feição de espanto. — Mihael Müller. — Levantou-se, estendendo a mão para a minha. Os olhos negros do moreno me encarando de maneira gentil. Lindo, pensei sem perceber. — Senhor Williams — respondi confiante. — Sente-se. — Apontou à cadeira. Acomodando-me, a entrevista estava para ser iniciada. Enquanto respondia às perguntas do meu, quiçá, futuro Chefe, não pude deixar de notar alguns detalhes. Sua voz era calma, ouvindo com atenção e parecendo refletir cada palavra que sai de minha boca, pois uma breve pausa era feita antes de seguirmos para o próximo tópico. Os cabelos escuros sobre os ombros alheios me pareceriam tingidos tamanha é a escuridão, se não fossem as sobrancelhas de mesma cor, contrastando perfeitamente com a pele branca. Definitivamente ele é o tipo de cara para enlouquecer. Muito mais quando sorri, entregando um juvenil sorriso de dentes brancos e perfeitos. Os minutos passaram rápido enquanto eu residia dentro da sala bem decorada. A cadeira que me acomoda é de couro, macia, e que com toda a certeza eu poderia ficar por horas, ou enquanto o moreno à minha frente me quiser dentro de seu ambiente de trabalho. A mesa é de madeira quase cor de ébano, com um laptop, impressora, uns pesos de papel que poderiam ser usados como decoração e muitos documentos, além das portas-canetas dispostas ao alcance de seu braço. O vaso de Bonsai no chão de piso branco dá um ar calmo ao ambiente, além das paredes claras. Não pude deixar de analisar o colo branco por baixo dos dois primeiros botões abertos da blusa do meu talvez futuro patrão. A gravata pouco folgada, juntamente com a postura perfeita. Ele deve saber como seduzir a quem quiser, tem os atributos em todos os mais corretos lugares para isso. Fazendo um pouco de esforço, reprimo meus pensamentos que se desviam do curso da entrevista, para não perder nada do que me é perguntado. Ele torna a analisar os papéis, seus olhos não nos meus por um momento. Tomo o cuidado de não me perder em seu jeito elegante e acabar sendo taxado de distraído. — Obrigado, senhor Mihael. — Levantou-se da cadeira, mão direita estendida. — Eu que agradeço o seu tempo. — A segurei, tentando demonstrar firmeza. Me desviando da cadeira, me despedi, pedindo licença para me dirigir à porta. Senti seus olhos em minhas costas ao longo de todo o caminho que fiz até a saída da sala. — Até mais, senhorita Watanabe — falei com a recepcionista. — Até, e boa sorte, Senhor Müller. — Obrigado. — Sorri de leve para ela, seu telefone tocou. — Claro, é para já, senhor — respondeu após ouvir. Entrei no elevador, tendo todos os sons do lado de fora isolados e somente a música de fundo tocando novamente. Soltei um fundo e longo suspiro. Me encarando no espelho mais uma vez. — Acalme-se, você foi bem. — Sorri para o reflexo. Segurando nas lapelas de minha jaqueta, a ajeito, escutando em seguida o ‘plim’ que me dá passagem para fora. Pisei com confiança, acenando de leve com a cabeça para as pessoas que entram no cubículo. Me distanciando de onde estava para aproximar-me da saída. O manobrista quando me avistou, partiu para o estacionamento a fim de pegar de volta o meu veículo. Tudo certo, estou no caminho de volta para casa, o que resta agora? Somente esperar o que for, seja um e-mail, uma ligação, qualquer coisa que me diga se serei ou não contratado.
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