Ato 14

1975 Words
A ideia de Nathan martelou algumas vezes em minha cabeça. Não sabia como fazer para convidar o Matthew para um passeio — preciso colocar dessa maneira que fica muito melhor para que eu não pense além do que devo. Não é uma má ideia, exceto quando você não quer, de maneira alguma, se submeter ao que sente. Continuaria a pensar sobre se a vibração do meu celular não interrompesse. “Sabe que esqueceu suas roupas de domingo aqui? Quando vem buscá-las?” 21h43min. Senti o meu rosto esquentar por algum motivo. Como pude esquecer no banheiro? Na verdade, não havia nem pensado em descer para colocá-las no carro. Droga. “Isso é realmente necessário? Vamos nos encontrar amanhã.” 21h45min. “Vida fora do prédio à parte. Lembra? Ou pretende deixá-las aqui para quando vier uma próxima vez?” 21h48min. Isso não era um jogo muito limpo. Na verdade, nenhuma dessas vezes na qual jogou comigo foi. Até pensei em fazer parte, mas isso era encurtar a corda em meu pescoço e sabemos que quero sobreviver quanto mais tempo eu puder. Mordi o lábio enquanto pensava no que deveria responder. “Se for para pegá-las, irei outra vez, não é verdade?” 21h51min. “Isso não vai funcionar. Porém, tomarei sua resposta como algo para uma próxima visita. Não se preocupe, estarão bem guardadas.” 21h53min. Não é possível. Ele consegue ser irritamente irritante! Merda. Tudo por conta de uma desatenção minha. Argh! No momento, estou me odiando com todas as forças. Se não fosse por isso, não estaríamos tendo essa conversa neste exato momento. O papo se estendeu por mais alguns longos minutos, pouco mais das dez e meia foi quando eu disse que já estaria indo dormir. E claro, fui dormir pensando mais do que nunca como o convidaria para uma saída. Pelos tons de suas mensagens sei que seu ego não se encheria pouco com essa minha proposta, o que me deixa ainda mais aflito. Não quero deixá-lo pensando que consegue conquistar todos os seus empregados. Nos dias da semana que se seguiram não trocamos SMS e muito menos conversamos sobre assuntos informais, nossa relação fora estritamente profissional. O que era bom, mas que por outro lado, me deixava sem jeito de tomar qualquer atitude por fora desse profissionalismo todo. Porém, como diz o Nathan, talvez ele goste e esteja esperando que eu tome a frente alguma hora. E talvez esse momento seja agora, quando a empresa já está fechando em uma sexta-feira, estamos somente nós dois dentro do elevador com essa musiquinha infernal enchendo meus ouvidos enquanto descemos para o estacionamento. — Matthew. — A certeza foi que meu tom soou baixo demais. — Sim? — Tem algum compromisso amanhã à tarde? — Nada até o momento. Meu coração batia feito louco. Estamos olhando ambos para a porta em nossa frente. O aperto na alça de minha maleta é algo descomunal de tamanho nervoso. — Não gostaria de tomar um cappuccino no meu café favorito? — soltei. — Isso é um convite, Senhor Müller? — Havia graça em seu tom. — Sabe que sim, Senhor Williams. — Eu adoraria tomar um café de fim de tarde contigo. — A porta se abriu e caminhávamos para fora. — Passarei em sua casa às dezesseis horas — conclui. — Esperarei ansioso. — Apertou o alarme do carro quando chegou próximo a ele. Quando entrei em meu automóvel praticamente não sentia as minhas pernas. Não que eu esperasse uma recusa de sua parte, é só que o modo de sua resposta mexeu com as borboletas presentes em meu estômago. Dei partida, indo para casa, diria ao Nathan que havia cumprido o que me foi proposto, mas não citaria a parte que eu já poderia morrer de tão agoniado e eufórico que me sentia — mesmo que, de alguma forma estranha, a sensação seja boa. Respirei fundo quando parei em um semáforo. Precisava me acalmar acima de qualquer coisa. Foi só um convite e nem foi para uma pessoa inalcançável, o que com certeza causaria um imenso pânico, o qual já me faria desistir no meio do caminho. Não preciso descrever o quanto a felicidade transbordou nos olhos do meu amigo quando lhe contei a novidade. — Você não imagina o quanto estou feliz! Finalmente você fez algo certo, Mike! Okay, tirando quando aceitou o jantar, mas isso é um grande passo, se ainda não percebeu. — Nathan — acompanhei seu riso. — É apenas um café. É apenas um passeio, lembre-se disso. Não confunda as coisas, que eu mesmo estou tentando não fazê-lo nesse exato momento. — Está bem, está bem. — Ergueu as palmas para mim na altura do peito, tinha um sorriso nos lábios, ainda. — Não direi mais nada sobre o assunto, não dessa forma. — Ótimo, será de grande ajuda. No dia seguinte, a caminho do condomínio do outro, eu sentia aquele mesmo sentimento da semana passada, quando estava vindo aqui para jantar — com uma diferença muito grande em meu ponto de vista. Na entrada de seu prédio, enviei uma mensagem para seu celular avisando que já estava à sua espera. Apenas uma resposta de “Estou descendo" seguiu. Não esperei mais do que cinco minutos para destrancar a porta do passageiro e ouvi-lo ditar um “Boa tarde”. Seu perfume invadiu meu carro e por um momento eu me deixei perder dentro do sorriso que me foi dado. Retribui tudo com um baixo “Oi”, isso o fez sorrir ainda mais. Não demoramos a chegar ao local. Fim de tarde, ainda não havia muitas pessoas tomando conta do ambiente, a não ser o velho odor de café no ar. Aspirei com plenos pulmões. — Gostoso, não? Eu adoro esse cheiro — comentei. Por ser uma cafeteria de dois andares, sendo o primeiro para confeitaria, subimos, sentando em uma das mesas reservadas da pequena sacada que dava vista para a rua. Uma brisa fresca soprava contra nós, a música instrumental quase à lá França como fundo era igualmente agradável. — É um belo lugar. — Olhava ao redor. — Sim, eu gosto muito daqui. Me lembra a Alemanha em alguns aspectos. O piso de madeira, as flores nas sacadas. — Com o garçom se aproximando, deixamos de nos encarar ou ao menos eu deixei de fazê-lo. — Boa tarde. — Sorria a nós. — O que desejam? — Dois cappuccinos, por favor — respondi. A verdade é que tudo isso estava me sendo mais natural do que esperei. Apesar de ainda me sentir um pouco nervoso em alguns momentos, principalmente quando conversamos e mantemos nossos olhares unidos por muito tempo, estou quase esquecendo que quem o convidou para estar aqui fui eu, e que ele é meu Chefe. Bem, eu disse quase. Mas ainda penso da seguinte maneira: estou apenas retribuindo todos os seus convites para ir até a sua casa, somente isso. Me faz sentir melhor, além de um pouco mais confortável em estar nessa situação, mesmo que não seja nada absurdo. — Não vai me contar sobre a sua vida na Alemanha? — A pergunta veio logo após que a xícara pousou sobre o pires. — Eu era jovem quando ainda morava lá. Não tenho muitas histórias interessantes. — Uma pena, eu adoraria ouvir sobre as suas travessuras. — Apoiou o queixo sobre as mãos cruzadas sustentadas pelos cotovelos. — Se bem que pelo que já me mostrou, acredito que era certinho desde a infância. — Por favor, eu não sou tão correto quanto pareço. — Não? — ele riu. — Pois até agora somente se mostrou dessa forma. — Não se engane, Senhor Williams. Saiba que pode se surpreender. — Não imagina o quanto adoro surpresas. — Levou a xícara nos lábios outra vez, seu olhar me observava pela borda. — Diga-me, o que pensa sobre pessoas que se relacionam por mera brincadeira? — Não as julgo, todos precisamos de uma satisfação de vez em quando, não é verdade? Até os mais certinhos. — Dei de ombros. — Ora, ora. — Ergueu as sobrancelhas surpreso. — Está aí uma resposta que eu não esperava. Depois de mais umas boas risadas, o assunto sobre a viagem para Londres se fez presente. Como tudo junto ao Matthew já havia sido resolvido, poderíamos começar a nos preparar para ir até o Jonathan. Nos próximos dias, o Matt entraria em contato com a empresa para agendar a nossa visita para o mais breve possível, se bem que já havíamos estipulado uma data para que aconteça. Quando essa foi a nossa pauta, fiquei a pensar na reação da Watanabe outra vez. Sei que ela não gostará de saber que viajarei junto ao nosso Chefe. Se ela já se sente incomodada com apenas visitas em sua casa, imagine viagens nas quais ela, anteriormente, estaria presente e não eu. Se bem que na situação a qual me encontro, eu não ligaria nem um pouco de que ela ocupasse a minha poltrona no avião — ainda que eu não acredite nada na veracidade desse pensamento. Após um lanche propriamente dito que foi feito por nós dois, descemos e fomos sentar na praça defronte a Cafeteira. O cair da noite já estava presente e a lua se fazia mais vista no céu em um tom quase completamente escuro. — Faz tempo que não saio dessa forma em companhia — Matthew comentou. — Por quê? — Falta de convites por parte de pessoas agradáveis. — Sentamos em uma área que houvesse a menor quantidade de pessoas possível. — E claro, como estas não havia, eu me dedicava cem por centro à empresa. Então, os únicos momentos em que me encontrava com pessoas era nas festas de socialização propostas por outros empresários. Recusei a várias, claro, mas algumas eu precisava comparecer. — Falando assim, não parece muito com o Matthew que vejo conversar comigo. — Realmente não. — Baixou a cabeça rindo. Olhávamos para frente, um pequeno parque infantil com algumas crianças brincando. Casais andando de mãos dadas, conversando alegremente. Tínhamos uma bela visão do ângulo em que estamos. O nosso tempo nesse local não foi tão longo quanto dentro do café e por isso, logo voltamos para onde o carro estava estacionado. A volta foi tranquila e já na porta de seu prédio, antes de sair, o moreno virou-se para mim, adornava um sorriso divertido. — As suas roupas, não pretende pegá-las? — Se eu subir agora, sabe que não descerei, então podemos deixar como garantia de uma próxima visita. — Retribui seu sorriso. — Estou gostando das suas surpresas. — Mantinha um curto erguer de lábios. — E eu gostei muito do passeio de hoje. Esperarei por mais deles — concluiu. A situação era propensa para aqueles beijos de despedidas de primeiro encontro dos típicos filmes de romance americano. Mas isso não vai acontecer, certo? Ele não faria, não depois do que houve em sua cobertura. E hoje nem bebemos. — Não se preocupe, haverá mais. — Fico feliz em saber disso também. Até segunda, Mike. — Até segunda, Matthew. Ele saiu do carro. Acenando para mim quando acelerei e sumi na curva. — Ei, o que faz em casa? — Foi como fui recepcionado pelo Nathan. — Como assim o que faço em casa? — Franzi a testa. — O meu plano era que você fosse para a casa do Williams depois que saíssem da cafeteria. Ah, o Matthew é mais lerdo do que pensei. — Jogou -se no sofá com cara de frustrado. — Não, ele não é. Eu recusei subir para o apartamento dele. — Sentei-me ao seu lado. — Disse que deixasse as minhas roupas esquecidas lá como garantia para uma próxima visita. — Joguei a cabeça no encosto. — Sabe, Nathan… — O encarei. — Foi muito bom. — Dei um sorriso mínimo sem dentes.
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