Ato 11

1939 Words
Meu coração bate forte. Muito forte. Apesar do ar condicionado em sua biblioteca, sinto calor — ainda que minha jaqueta já não esteja em meu corpo desde que entrei e o Gregory pediu para pendurá-la. Matthew não me faz companhia, disse que estava resolvendo a janta quando cheguei e que por isso, eu deveria ficar à vontade. Depois de sua orientação, me dirigi ao seu paraíso de livros, realmente é o único local ao qual posso afirmar que estou levemente à vontade. Ainda, de qualquer modo, preferia estar em casa. Isso não foi o que planejei para o domingo, não foi o que planejei para sequer um final de semana seguinte ou anterior. Passei os dedos por todas as lombadas de livros na altura de minha visão, todos em perfeito estado, desde autores famosos até desconhecidos, séries conhecidas até umas que nunca tive o prazer de ouvir falar. Com certeza gostaria de poder levar para casa alguns desses. — Se divertindo? A pergunta soou próxima a mim, dei um leve salto com o susto, não havia escutado a porta se abrir e nem seus passos. Encarei seus pés, estava descalço, temos o motivo do andar felino. — Sim, é uma coleção incrível — respondi. — Fique à vontade para levar quantos quiser. — Obrigado. — Escutei a voz sair mais envergonhada e baixa do que o normal. O moreno encontrava-se sentado no braço de um pequeno sofá de couro escuro e de frente para uma mesa de centro com alguns bibelôs de esculturas do mundo; Torre Eiffel, Torre de Pisa, Arco do Triunfo, Cristo Redentor, é um local encantador e aconchegante. — Então, como foi o encontro com seu amigo? — perguntou. — Muito bom. — Repensei se deveria dizer que ele se encontrava em minha casa, rindo da situação que me encontro nesse exato momento, porém me contive. — O conheço desde que cheguei aqui, foi um ótimo reencontro. E a propósito, ele é seu conterrâneo. — Ah, mais um Inglês em sua vida. — Sorriu um pouco, mas ainda assim seus olhos eram selvagens, estávamos de frente um para o outro, a mesa sendo nossa única distância. — Posso saber seu nome? — Nathan Phillips. — Mais novo do que você? — Sim, vinte e um anos. — Franzi a testa. — Desculpe o interrogatório. — Sorria outra vez, provavelmente se explicou pelo gesto que fiz. — Gosto de conhecer amigos de outras pessoas — concluiu. — Ah, não, não, tudo bem. — Balancei as mãos na frente do rosto. — Eu tomei a liberdade de escolher o que comer, tudo bem para você? — Mudou de assunto. — Confiarei na sua decisão. — Nos encaramos. Há silêncio entre nós e aquele desconcerto na barriga. — Então, como foi a reunião com o Hikaru? — Quer mesmo falar de trabalho, Mike? — Ergueu uma sobrancelha. — Bem, a mesma coisa de sempre, o que me lembra, por que estava me evitando sexta? — Havia uma pequena elevação no canto de sua boca ou era impressão minha? — Não foi por querer. — Me senti gelar, as mãos suaram. — A reunião atrasou algumas coisas. Desculpe-me se foi o que pareceu. — Ah. — Não pareceu acreditar. Os olhos em mim, eu implorava para que fossem foco de outra atenção que não o meu rosto. — Conversou com o Makoto na quinta, não foi? — Sim. — Nada mais foi dito por parte dele, apenas um franzir de testa e um semicerrar dos olhos. Até pensei em dizer algo, porém mudei de ideia. — Vocês se tornaram amigos ou coisas do tipo? — Colegas. Penso que é a melhor definição, não nos conhecemos direito. — Entendo… — Pareceu refletir sobre. — Vejo que a Akemi não está totalmente à vontade com você. O que aconteceu? — Você aconteceu — falei curto e grosso. — Como? — Ela acha que faço isso tudo de propósito. — Isso tudo o que, exatamente? — Vir aqui para trabalhar, almoçar e principalmente chegar junto — suspirei. — Você deve alguma satisfação à Akemi? — Não. — Está fazendo de propósito? — riu de leve. — Não. — Então não tem qualquer motivo para que fique chateado sobre isso. — Jogou os ombros em desdém. Olhando para acima da porta de entrada encarou o relógio que marcava quase cinco e meia. Eu acho que acabei chegando pouco cedo demais. Fiquei de vir somente faltando pouco antes das seis da noite. Temos bastante tempo até que o jantar comece. E poucos minutos após esse pensamento, bateram à porta, o moreno deu a ordem de entrada e outro homem adentrou. — Senhor Williams. Lamento informar, porém não será possível preparar o prato que pediu em um período tão curto. Preciso comprar alguns ingredientes para o tempero. — Nós poderíamos ter conferido os ingredientes antes de tomar a decisão. — Coçava o queixo. — Está tudo bem, Mike? Se atrasarmos um pouco? — Me encarou. — Não, eu posso esperar. De verdade. — Então fique à vontade para ir comprar — falou para o empregado. — Estou indo, senhor. — Quando chegou na porta, Matthew o chamou outra vez. — Traga algum vinho antes de sair. — Claro. — Sinto muito. — Voltou os olhos para mim. — Tudo bem. — Espero que aquele clima tenha se dissipado com essa interrupção. — Posso lhe fazer uma pergunta? — Pode. — Sei que soei desconfiado. — Quando disse que não chegou a um passo íntimo com sua namorada. Quer dizer que não chegou lá com ninguém? — Ah... Esse tipo de pergunta... — Não precisa responder, se for demais. — Deslizava o polegar no lábio, parecia visivelmente curioso. — Eu não sei. Mas… — Pensei nas palavras. — Acha demais um cara de vinte e quatro anos ser virgem? — ri envergonhado, passando a palma pela nuca. — Não um cara como você. — Permanecia sério, o dedo ainda acariciando-se. — Ainda assim, não consigo entender o porquê. — Não é tão difícil quando se prefere ficar em casa a ir às baladas com os amigos. — Existe gente que gosta de pessoas assim, e vamos esclarecer que sua fisionomia não faz jus ao seu estilo de vida. Novas batidas na porta, Gregory entrou com uma bandeja e duas taças, na outra mão um balde com gelo e uma garrafa dentro. Matthew o encarou até colocar tudo sobre a mesa e pedir licença ao sair. — Que ótima visão que tem de mim, Senhor Williams. — Lhe sorri, ele retribuiu, inclinando-se para frente e enchendo nossas taças. — Procuro ver o melhor dos meus empregados, Senhor Müller. Mas, hoje, não estamos aqui como tais. — Empurrou com a ponta do dedo a base da taça em minha direção sobre a mesa. — Devo ressaltar, Mike, fiquei imensamente feliz por ter aceitado o meu convite. Queria conversar sobre algumas coisas contigo, mas vejo que hoje não será possível. — E por que não? — Ainda não é a hora, somente isso. — Me ergueu o cristal, fiz o mesmo e bebemos do conteúdo. — Não é o tipo de coisa que se pode apressar. Veremos com o tempo, você tem apenas três meses trabalhando comigo, não mais que uma semana para quatro, posso esperar mais um pouco. — Eu poderia dizer que anseio a sua chegada, porém não faço ideia do que seja. — Ah, querido, estou ansioso também — riu profundamente. Permaneci o encarando por cima da borda do vidro em minhas mãos. Coloquei uma mecha de cabelo por trás da orelha, desviando o olhar quando percebi o seu. Estou visivelmente agindo como uma pessoa assustada e fugindo de tudo. Na verdade, não havia nem pensado em qualquer coisa que tenha a ver com sentimentos etc., desde quando pisei aqui na biblioteca, isso era ótimo, até me pegar fazendo esse movimento de flerte. Ele riu de leve e consegui acompanhá-lo, apesar da vergonha em minhas bochechas. Nunca fiz esse tipo de papel, ser um cara tímido e agir dessa maneira na frente de outras pessoas, porém, vindo dele, parece obrigação que meu corpo reaja de tal maneira. Não gosto de passar insegurança quando se trata do coração, mas aqui está quase na cara o conflito que tenho. E nada surge entre nós, o que é pior, pois só temos que encarar um ao outro, tentando desvendar os pensamentos, qualquer coisa que ajude a derrotar esse silêncio infernal. — Estou planejando uma viagem para a Inglaterra. — Preenchia sua taça outra vez. — Você irá comigo. — Por quê? — Por quê? Não é óbvio? — Certo, eu entendo — suspirei. — Por que vai até lá? — Nossa última trilogia lançada alcançou números altos e o último livro irá sair em breve. Com isso, iremos lançar algumas coisas relacionadas. Veremos o que fazer com o Jonathan. — E para quando? — Coisa de um mês. É o mais provável. — Hikaru e Makoto também irão? Ele me disse que estavam planejando uma viagem. — Não, isso não diz respeito ao que faremos. — Tomou um pequeno gole da taça. — Não será nada muito longo, Akemi ficará cuidando das coisas aqui. Provável de que uma semana seja mais do que o suficiente. Irá gostar de lá, e do Jonathan também. É um jovem bem responsável para sua idade e atuação. — Li sua ficha, parece ser alguém confiável. — De fato. Foi uma ótima façanha o meu pai fazer contrato com os falecidos dele antes da tragédia acontecer. Conversamos um pouco mais até o outro perguntar se eu não gostaria de ver a vista de sua cobertura. Pelo horário, as luzes haveriam de estar acesas, dando uma bela visão da cidade-capital de Konoha. Não havia nenhum m*l nisso, certo? Preenchemos as taças novamente e subimos os degraus da escada em espiral que nos levaria a cobertura. Apesar de morar quase no último andar, esse prédio é projetado para que os andares mais altos tenham sua própria cobertura — o andar do Matthew, assim como os dois que se sobressaem, transformam-se em quatro, pelas duas coberturas de apartamentos únicos nos andares. — É muito bonito. — Apoiei os braços no mármore do muro. — Venho aqui sempre que quero pensar em algo. — Olhou para o céu. — Parece que vai chover ainda hoje. — O vento balançou seus cabelos, algo tão bonito quanto a paisagem urbana abaixo de nós. — Espero que não me impeça de ir embora — falei com sinceridade. — Será um problema muito grande? — Me olhou de soslaio. — Não me importaria de ter um hóspede. Veio com seu carro, não seria um problema dormir aqui e ir para empresa com ele. Já que chegar comigo está causando transtornos. — Sua risada foi baixa. — Não acho que seria bom. — Bom para? — Para mim, Matthew. — Voltei os olhos para os carros de faróis acesos. — Você se preocupa demais. — Ficou na mesma posição que eu, seu cotovelo tocava o meu. — Deveria relaxar um pouco. A mão que não segurava a taça de vinho tocou meus fios, tirando-os de meu rosto como a ventania havia posto. Os nós dos dedos deslizaram devagar por minha bochecha, o polegar fez a linha de meu queixo, segurando-o com o apoio do indicador sob ele. A digital subiu um pouco mais, correndo devagar sobre meu lábio inferior. O toque gentil e macio. A mesma palma foi em minha nuca, seu rosto se aproximava levemente. Meu coração dava rodopios impossíveis dentro do peito. Seu nariz já me tocava. Ei. Afaste-se... Ei. Matthew!
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