— Senhor. — Ouvimos o Gregory em nossas costas. Com uma interjeição de surpresa, acrescentou depressa. — Desculpa interromper. Com licença.
Nos afastamos de súbito. Minhas bochechas coloridas. Como eu o encararia agora? O que fiz? O que estávamos prestes a fazer?
— Acho melhor eu ir embora — falei.
— Não. — Segurou minha mão quando me afastei. — Me desculpa. — Tomou de vez o vinho na taça. — A culpa foi minha. Te chamei aqui para jantar, não era a intenção algo além disso. Não vá, por favor. — O encarei. Me sinto envergonhado. Olhei para as mãos juntas. — Mike? — chamou baixinho.
— Tudo bem. — Soltei nosso enlace devagar.
— Obrigado.
— Não agradeça.
Ele suspirou visivelmente decepcionado e pude perceber uma ponta de raiva, imagino que o Gregory irá receber alguma bronca quando eu não estiver aqui. Porém, enxergo a sua intromissão como algo bom. Por mais que estejamos aqui como ‘amigos’, beijá-lo não seria a melhor coisa a ser feita.
Seguimos de volta para a biblioteca, fiquei sozinho, já que o moreno disse que precisava ver o que tinha se sucedido aos ingredientes do jantar. Tenho quase certeza de que não será somente isso a ser falado em sua visita ao empregado.
Sentei-me novamente no mesmo lugar de mais cedo, enchi o copo de vinho, virando-o de vez na garganta. Meu olhar estava voltado para o chão, repassando toda a cena e ainda acrescentando o que teria acontecido caso não tivéssemos sido interrompidos.
Levei dois dedos aos lábios, refazendo o caminho que ele havia feito com os dele, seu hálito naquele momento era de algo que lembrava uva. Passei ambas as mãos nos fios, jogando-os para trás, fechei os olhos em um suspiro mais do que profundo, e quase enfartei quando escutei a porta ser aberta.
— Desculpe a demora — se pronunciou.
— Tudo bem. — Ainda não havia me concentrado de modo a ignorar o que aconteceu, por isso me mantive de cabeça baixa.
— Mike, sinceramente, eu sinto muito pelo que tentei fazer.
— Tudo bem, tudo bem... Prefiro não falar nada sobre. É melhor, melhor para mim, outra vez falando.
— Só não quero que entenda m*l.
— Irei ignorar. — O encarei pela primeira vez. Queria perguntar por que havia tentado fazer tal coisa, mas ainda tinha um pouco de receio da resposta. — Por quê?
— Eu não sei, eles me pareciam atrativos o suficiente para ser feito. — Não desviava os olhos. — Não tentarei outra vez.
Quis responder um “Espero que não”, porém só fiquei ali retribuindo o fervor que recebia de seus olhos. Na verdade, do fundo dela, meu sentimento era de decepção por não ter de fato ocorrido. E sentir isso, me sentir assim é uma merda, só prova o quanto Nathan está certo. E o quanto sou fraco ao receber esses estímulos de carinho. Mesmo com tudo, insisto em dizer, em negar veementemente, que não estou apaixonado. Não quero ter de lidar com esse tipo de sentimento agora.
Os minutos até o jantar foram longos até mesmo pelo clima que havia se instalado, conversamos um pouco durante o período antes de irmos à mesa, entretanto era óbvio que nada estava bom como quando cheguei. Esperava que, de alguma forma, pudéssemos consertar ou tentar deixar as coisas melhores enquanto estivéssemos de frente para os pratos.
— Mike, tomei a liberdade de pedir para fazer um prato de minha origem. — Tinha certo brilho nos olhos.
— Penso que será interessante experimentar algo novo.
— Fish and Chips. — Sentou-se. — É algo bem simples, porém bastante popular.
— Peixe com fritas parece bom para mim.
— Ah, isso é bom demais. O Greg tem um modo diferente de temperar o peixe, é o que me faz gostar do prato. Espero que aprecie também.
— O Gregory não me decepcionou da primeira vez, não acredito que fará agora.
O moreno de cabelos compridos servia nossos pratos levantando as tampas das bandejas após colocá-las em nossas frentes. O cheiro que tomou minhas narinas era deveras bom, o que me fez, já no exato momento, devanear sobre o seu sabor.
— Vamos, experimente e me diga o que achou — incentivou.
— Bem, lá vamos nós.
Com os talheres em mãos, provei o primeiro pedaço do jantar. Com isso, digo sem muitas delongas, que foi um dos melhores que já tive o prazer de comer em toda a minha vida. E isso foi visto em minha reação, pois Matthew sorriu. Pondo-se a comer também. Dei os parabéns ao cozinheiro e pretendia fazê-lo novamente quando estivesse para sair de casa.
Como foi de meu plano, ao qual acabou sendo executado sem que eu tivesse muita consciência de que já o fazia, o clima entre nós acabou melhorando muito. Sendo assim, ao final da janta, pouco antes de ser servida a sobremesa, já estávamos conversando como se nada houvesse acontecido entre nós dois. O que acabou me aliviando um pouco, mesmo que flashes rondavam minha mente, o papo sempre acabava por me distrair e fazer pensar somente no que estava sendo apresentado pelo outro na conversa.
— Essa torta era feita sempre pela minha mãe, uma das minhas favoritas. — Encarava a fatia de torta de limão em sua frente.
Apesar do acontecido, me prontifiquei a pedir que fôssemos até a sua cobertura, eu havia gostado de sua vista e queria tê-la em minha memória antes de partir, o que aconteceria em breve.
Novamente, estávamos nós de taças nas mãos, encarando toda aquela vastidão de prédios. E em meio ao silêncio que nos envolvia se fez um grito vindo do céu: um trovão, juntamente a uma torrente de água sobre as pessoas que pareciam minúsculas vistas de tal altura. Meus lábios se abriram em um ‘0’, vi como os olhos de Matthew arregalaram, as nuvens estavam negras e clareavam de tempos em tempos para um relâmpago.
— Ah não... — suspirei fundo e frustrado. — Como vou para casa agora?
— Não é necessário que vá. Sabe disso. — Me encarou, tentou me confortar e fazer a situação não parecer tão drástica. — Seu carro está na garagem, então não se preocupe à toa.
— Eu espero que venha a passar logo. Se bem que, como está esse céu, é algo quase impossível.
— Nunca se sabe. Porém pode vir a acontecer. Venha, vamos descer, está ficando cada vez mais frio aqui em cima. Não quer trocar de roupa para algo mais confortável? Minhas camisas podem ficar um pouco grandes, mas é o que tenho para lhe servir de novo.
— Não se incomode. Estou bem com as que uso.
— Vamos, se vai realmente ficar, precisa mudar. — Mesmo que eu estivesse relutante em fazer, segui com ele para o quarto. — Te darei um cinto para manter o short caso esteja folgado.
— Obrigado novamente pela disponibilidade.
— Não há de que, fique à vontade, sempre. Te darei as mesmas roupas do outro dia na hora de dormir, tudo bem? — Somente fiz que sim com a cabeça.
Abrindo seu closet, tirou algumas peças as quais julgava que poderiam caber em mim, juntamente a um cinto.
Entrei em seu banheiro, retirando as minhas roupas e experimentando as que recebi. Sua camiseta, como dito antes, ficou quase no meio de minhas coxas, claro o Matthew é mais alto do que eu, era de se esperar. Na parte de baixo, não houve a necessidade de utilizar algo para mantê-la no lugar. E envergonhado, saí de dentro do cômodo, mesmo que já houvesse feito isso outra vez, da primeira, não conversamos quando me troquei, muito pelo contrário, ele nem viu como ficaram as roupas em meu corpo, pois as troquei dentro do banheiro do quarto de hóspedes.
— Irei pedir ao Gregory para aumentar o climatizador. Está ficando frio.
— Se possível, ainda não — comecei antes que saísse do cômodo. — Eu gosto da temperatura atual.
— Tem certeza de que não prefere um pouco de calor no corpo? — Ergueu uma sobrancelha, havia um sorrisinho no canto de seus lábios. — Fique à vontade, quando estiver desconfortável com a temperatura, me avise.
— Pode deixar que farei.
Sentando-se na cama, acompanhei, me sentando em um pequeno sofá ali mesmo. Continuamos conversando e quando fui perguntado sobre o que usaria amanhã, avisei que desta vez, não saí de casa sem uma roupa extra para o trabalho dentro do carro, não aconteceria como da outra vez.
Durante o pequeno período que Matthew ficou de fora do quarto, recebi uma mensagem do Nathan, tirando sarro da chuva e se gabando pelo fato de que estava correto quando disse que eu não voltaria para casa hoje. Respondi com outra mensagem m*l-educada, avisando também que quando eu estivesse de volta ao apartamento, ele se veria com o meu punho.
“Estou morrendo de medo, senhor Müller. Aproveite a sua noite fria.” 19h27min.
— Um pouco de vinho para aquecer. — Tirou minha atenção da tela do celular quando entregou a taça.
— É sua intenção me deixar bêbado?
— Jamais. — Sorriu pequeno, levando o cristal nos lábios.
— Está me dando álcool desde que cheguei aqui — apontei.
— Ah, você não sabe de nada, querido Mike. — Seu olhar fora deveras sugestivo, assim como o que lançou para a cama enquanto seguia até lá.
— Sabe, é uma pessoa bastante interessante, Matthew. — O encarei, ele remexia o vinho na mão. — Todos esses trocadilhos e outras coisas as quais esconde. — Baixou a cabeça sorrindo às minhas palavras. — Estou falando sério.
— Escondo?
— Claro, todos escondemos. Com você não será diferente.
— Eu diria que você é uma pessoa interessante. As suas observações são. Eu gosto do seu modo de pensar também. Foi um dos motivos que me fez te contratar sem fazer outras entrevistas.
— Bom saber.
Contra a janela era escutado o som da chuva do outro lado do vidro. Realmente não estarei no conforto da minha cama até o dia seguinte. Bem, tem alguém contra mim ou ao meu favor de algum modo estranho que ainda não consegui descobrir muito bem qual é.
Próximo às dez da noite, Gregory nos serviu chocolate quente, o que veio muito bem a calhar, apesar de não ser uma das minhas bebidas favoritas.
No final das contas, dormi no mesmo quarto que havia dormido da primeira vez.
Pela manhã, após o café, desci em meu carro para pegar a roupa do trabalho. E logo estávamos prontos para ir até a Editora. Descemos o elevador e no momento de entrar em meu automóvel, eu encarei o moreno. Mordi meu lábio, sentindo um grande conflito interno.
— Te encontro no estacionamento de lá. — Acenou, caminhando em direção ao seu.
— Sim, nós nos veremos. — Tirei a chave do bolso, girei-a entre os dedos. — Matthew — chamei para que escutasse à distância que estava.
— Pois não? — Me olhou por cima do ombro.
— Eu vou com você.
— Vai? — Deitou a cabeça para o lado, curioso. — Claro que sim. — Sorriu de leve. — Venha.