Chegar de carro com chefe no trabalho outra vez não fez a felicidade da minha colega Watanabe Akemi. Porém, deixei de ligar para isso, afinal, não iria mudar o modo como ela via toda essa situação.
Bem, dormir na casa dele foi menos estranho do que cogitei que seria. Mas ainda foi algo anormal. Passei a noite muito bem e acho que esse é o ponto importante. Não acredito que isso terá muita influência no modo como nos relacionamos dentro da empresa, portanto, não é algo que ficarei a pensar.
São oito da manhã. A Sala de Reuniões já está organizada para receber o Hikaru e o Makoto. Matthew está em sua sala, terminando de separar o que será utilizado por ele durante a reunião. E por falar em Makoto, também admito estar um pouco nervoso em reencontrá-lo. Não que ele seja má pessoa, não mesmo, no entanto, o loirinho consegue ser intimidador, ainda mais dado ao fato de sua amargura quando fala sobre sua era de trabalho com o Matthew.
— Está a fazer propositalmente, não é? — Saí de minha sala para levar alguns documentos até a sala de reuniões antes que ela comece e fui abordado dessa maneira quando passei pelo balcão da recepção.
A verdade é que trabalhar com alguém que visivelmente não está satisfeita com a relação que vem mantendo com seu superior, dado ao tipo de sentimentos oferecidos a ele por ela, não é algo para se aproveitar. Nada pior, também, do que ter o olhar acusador da parte feminina sobre si.
— Ah... Não entendo aonde quer chegar com essa pergunta — falei sinceramente.
— Você e o Matthew. — Sua expressão é brava.
— Ainda não entendo. — Coloquei os documentos sobre o balcão.
— Está fazendo isso tudo, de se aproximar dele, chegar juntos, para me atingir, não é?
— Ficou louca? — Apoiei o cotovelo sobre a madeira, deixando o queixo descansar na palma da mão. — Fui até a casa dele ontem para resolver essas papeladas. — Bati com o nó do indicador sobre o classificador. — Nada mais do que isso. — Eu sorria pequeno, tentando passar, apesar de não querer tanto assim, uma espécie de conforto. — Não entenda m*l a nossa relação.
— Não engulo essa. — Semicerrou os olhos em minha direção.
— Nada posso fazer, então. — Ergui os braços em uma falsa rendição.
Caminhei para o corredor e assim para o elevador, dentro dele, meu celular vibrou. Uma mensagem. Uma mensagem do Nathan. Isso me surpreendeu bastante. Ele viajou para a Inglaterra, a fim de rever os parentes e não me deu uma data, mês ou ano para voltar. Bom, vejo que não levou tanto tempo assim longe do país ao qual se naturalizou; Nathan Phillips foi o meu primeiro contato com o mundo japonês.
Nos conhecemos em uma cafeteria próxima ao meu apartamento, Nathan é uma pessoa para conversar sobre assuntos diversos, já que não é só um pouco inteligente. Seu fascínio por cachorros foi o que levou nossa amizade a se estabelecer, no entanto, mesmo com essa grande paixão pelos caninos, sua alergia não o deixava tê-los como bichos de estimação ou sequer chegar muito perto de um.
Respondi sua mensagem marcando de nos encontrar após o meu expediente, no mesmo local em que nos conhecemos, sendo a preferida dele, além de uma das minhas também. Por sorte, nenhum de nós mora longe.
Vinte minutos depois do suposto horário marcado para o começo da reunião, Hikaru e Makoto finalmente estavam presentes na recepção.
— Mihael. — O loiro Aproximou-se de mim. — Não achei que lhe veria assim tão seguidamente.
— Nem eu.
— Lamentamos a demora. O trânsito de hoje não está muito agradável. Lamentamos, não é, Hikaru?
— É? — Ele ergueu uma sobrancelha para o menor ao seu lado, apenas continuou o encarando sem nada dizer. — Onde está aquele homem? — Virou-se para mim.
— Em sua sala. Irei chamá-lo. Pedirei que subam para a mesma sala e aguardem, sim?
— Claro, estamos indo na frente — Makoto falou comigo para logo virar-se para o outro, ele tinha as mãos dentro dos bolsos da calça como da primeira vez que o vi. — Vamos.
Acompanhei por breves segundos suas costas enquanto eles se afastavam. Suspirei, realmente o Hikaru não parece ser uma pessoa fácil de se lidar. Akemi os ignorou como uma pessoa que não sabe administrar a situação, não dei muita atenção para isso, voltando para a sala.
— Os dois que chegaram estão subindo. Está tudo pronto em suas mãos?
— Sim. Você colocou os documentos que pedi na mesa da sala? — Concordei com a cabeça. — Ótimo. Obrigado, não sei como esses papéis estariam sem a sua ajuda.
— É apenas o meu trabalho. — Me senti envergonhado com a expressão que ele tem no rosto, um sorriso sem dentes e satisfeito.
— Não há trabalho por agora, sinta-se à vontade para fazer qualquer coisa. Te chamarei caso precise de algo.
— Está bem. Tenha boa reunião.
— Com aquele lá, é um pouco difícil — resmungou.
Desci para a pequena lanchonete do térreo. O mesmo de sempre entre meus dedos, os aquecendo um pouco. Assoprei, por mera brincadeira, a fumaça clara que voa para fora do copo.
— Pensei mesmo que iria encontrá-lo aqui, Mihael. — A voz que chamou meu nome, me trouxe para a realidade.
— Makoto?! — O encarei. — Pensei que fosse auxiliar na reunião — apontei.
— Eu nunca faço isso quando se trata deles. — Puxou o banco ao meu lado. — Como está? — A garçonete aproximou-se, seu pedido foi um cheesecake.
— Estou um pouco cansado, trabalhamos até tarde, além disso, vou indo muito bem. Você, como anda?
— Estamos correndo com a viagem, é cansativo. Mas, além disso, vou indo muito bem — riu baixo. — Como vai o Matthew? — Não me encarava mais.
— Bem, eu diria.
— Vocês dois?
— Nós dois? — procurei investigar o que quis dizer, minha expressão deixando claro o meu choque com a pergunta.
— Calma, não é nada disso. A relação no trabalho, é a isso que me refiro.
— Ah. É que a Akemi anda me acusando, então pareço estar achando que todos farão o mesmo.
— Acusando? — Franzia a testa.
— Ela acredita que estou evoluindo a relação com meu chefe para fazer ciúmes ou para atingi-la — suspirei. — Isso não tem qualquer lógica.
— Nenhuma? — O pedaço do minibolo em sua frente começou a ser mexido.
— Não... Não da minha parte. Sou secretário particular, é lógico que trabalharemos juntos, aquela cabeça ruiva está inventando coisas. — Na verdade, a partir deste momento tentei acreditar em minhas próprias palavras. — Ele namorou alguém? Enquanto você trabalhou com ele. — O encarei.
— Nunca procurei saber da sua vida particular, entretanto, o Matthew não era visto com alguém do sexo oposto.
— Nem do mesmo sexo? — investiguei um pouco mais.
— Não, nem mesmo isso. Se havia alguém em sua vida, ele sempre foi muito discreto.
— Ele disse ontem que não era uma pessoa que namora. Só queria confirmar se isso é de hoje ou não. — Nos encarávamos firmemente.
— Disse isso, é? Em que ocasião?
Foi a minha vez de sentir os nervos tensionarem junto aos músculos. A resposta era clara na mente: Ontem, durante nosso jantar, na casa e no escritório dele. Porém, não sabia se era o certo a dizer, não dessa forma.
— Ontem, eu fui ajudar nos papéis da reunião e enquanto trabalhávamos esse assunto surgiu, daí a sua declaração. — Levei o copo nervosamente aos lábios, tentando disfarçar a agonia interna.
— Entendo. — Sua fala era óbvia sobre querer mais informações. — Talvez a Akemi esteja com razão em estar com esse receio.
— O Matthew já deixou claro que não se relacionaria com ela. Não entendo o medo, e a mulher tem namorado — apontei com certo desgosto.
— Sim, tem, mas a sua paixão pelo chefe não é de ontem.
O assunto sobre o Matthew morreu nesse momento, já que não respondi.
Não foi feliz de minha parte conversar sobre tudo isso. Não de todo r**m, claro. Makoto ainda tem o poder de conseguir me intimidar, creio que a sua convivência com o Hikaru e combina a forma com que encara as pessoas contribua para esse sentimento. E no meio disso, consegui organizar os pensamentos de modo a tentar entender o tipo de relacionamento que estou a desenvolver com o meu Patrão. Aos meus olhos, nada de mais, porém quem está de fora consegue sempre enxergar a situação de modo diferente de quem a vive. E pelo jeito, esse tipo de acontecimento ocorre aqui.
Como eu havia pensado antes... Prefiro não me preocupar e deixar fluir. Enquanto não intervir no meu serviço ou vida pessoal, significa que estou indo por um bom caminho.
Mais ou menos uma hora depois do começo da reunião, meu celular tocou com uma ligação do Matthew, nela ele pedia para que eu subisse e procurasse em seu escritório a pasta de Contratos e dentro dela a da Companhia dos White. Makoto subiu junto a mim, ficando na recepção conversando com Akemi, enquanto eu estava lá dentro.
— Me desculpa não ter falado com você dá outra vez, o Hikaru estava tendo outro chilique...
Foi o pouco que escutei quando fechei a porta. Eu diria que a relação deles é no mínimo interessante, a do Makoto com o Hikaru.
Se meu Chefe não fosse organizado e na gaveta de pastas nada estivesse em ordem alfabética seria um caos procurar em tudo aquilo. A White Company trabalha com brinquedos infantis e colecionáveis. O que de primeira não entendi o porquê da parceria com uma editora; no final das contas, a Companhia que é de origem inglesa, faz action figures, bonecos de pano, porcelana, ou seja lá qual tipo pedido para cada um dos livros mais vendidos.
A empresa é atualmente comandada por Jonathan White, um jovem herdeiro da fábrica que antes atuava em posse de seu pai, Christian White, um nobre Inglês, que morreu em um acidente juntamente a sua esposa, deixando o pequeno Jonathan, com dez anos de idade na época, órfão.
Não há fotos atuais dele nos documentos, apenas de quando criança, com longos cabelos castanhos e um encarar intenso de olhos acinzentados. Apesar de ainda ter pouca idade para um empresário, com dezoito na atualidade, em sua ficha há apenas elogios quanto à direção da empresa.
Após achar o pedido do moreno, saí da sala e subi, tendo o Makoto em meu encalço durante o percurso.
Na sala de reuniões nada parecia tenso, ambos estavam em silêncio e encaravam umas planilhas, na televisão, um slide com números de vendas por autores era destacado. Makoto sentou ao lado de Hikaru que quase imediatamente o olhou nos olhos, falando baixo, mandando-o se aproximar mais com a cadeira, para que pudesse ver o que estavam estudando no momento. Matthew puxou um assento para mim e próximo de si, apontando alguns índices e explicando o que poderia ser feito, além do motivo pelo qual me mandou trazer a pasta do Neji.
— Já estamos terminando. — Me encarou. — Estou pensando em dispensar você e a Akemi, subirei para deixar os pedidos e vocês poderão partir. — Seus olhos negros eram intensos e hipnotizantes.
— Se não houver mais serviço.
— Isto aqui é a única coisa a se fazer hoje.
Hikaru pigarreou, o que me assustou um pouco, desviei os olhos para meu colo, sentia as bochechas arderem; e não prestei atenção em uma palavra do que os dois aliados trocaram depois do ocorrido.
De fato, o meu superior é um cara sexy e a força à qual seu olhar acaba exercendo enquanto sustentado é inacreditavelmente alucinante. Magnética. Isso é um saco. Gritando a verdade: ter um chefe bonito e solteiro é um saco.
Finalmente estávamos todos descendo no elevador. À beira da entrada da recepção, Matthew apertava a mão de Hikaru, enquanto Makoto vinha até mim.
— Acho melhor repensar certas coisas, Mihael.
— Certas coisas sobre? — Pisquei algumas vezes sem entender.
— Certas coisas de como anda a relação com seu chefe. — Tinha um olhar sério no rosto. — Toma. — Ele me entregou um cartãozinho. — É o meu número, me liga, manda mensagem ou qualquer coisa assim. — Afastou-se devagar, indo de encontro ao companheiro.
— Watanabe, está dispensada. — A garota concordou com a cabeça. — Mike. — Matthew passou por mim. — Vem, na minha sala. — Abriu e deixou porta entreaberta, senti o olhar castanho em minhas costas enquanto eu caminhava.
— Aconteceu alguma coisa? — Fechei.
— Não, nada. — Sentou-se em sua cadeira, tirando o paletó, em seguida folgou a gravata. — Sente-se — riu de leve. — Pedirei que espere até que eu possa lhe levar para casa, seu carro não está aí, não é verdade?
— Sim, é, mas não será necessário. Irei encontrar com um amigo fora do prédio. Não precisa se incomodar.
— Um amigo? — Enlaçou os dedos sobre a mesa, inclinando o corpo para frente, a face séria.
— É. — Senti o coração tamborilar. — Um amigo da juventude, ele voltou de fora do país, iremos nos ver.
As obsidianas permaneceram sobre mim, analisando-me por completo ou pelo menos o que conseguiria por aquele momento. Minha respiração começou a se dificultar, aquela intensidade toda era quase sufocante.
— Tem certeza de que não precisa de carona?
— Sim, agradeço a prestação. — Dei a volta na cadeira. — Pegarei as minhas coisas na sala, com licença.
Marchei em automático para a sala ao lado. O que havia sido isso?! Esfreguei as mãos no rosto, sentia o estômago gelado assim como o peito recebia fortes impulsos do coração.
Peguei o primeiro táxi que passou pela frente do prédio, não antes de mandar um SMS para avisar ao Nathan que eu já estava a caminho. Apesar dos resmungos do Matthew sobre “eu posso levar você, não precisa gastar dinheiro com táxi”, não fiz isso. Já chega. Depois de ontem, depois de hoje, realmente preciso dar um tempo. Pela graça, amanhã é sexta-feira e no sábado e domingo, o planejamento é não vê-lo. Espero cumprir.