O percurso não foi tão devagar, no entanto, tenho a certeza de que este motorista não recebe multas por velocidade ou ultrapassagem de sinal. Quando saí do veículo e comecei a caminhar para dentro do local o cheiro de bolos e café invadiu meus pulmões, isso me fez relaxar um pouco e esquecer as tensões criadas pelo trabalho ou exclusivamente pelo meu Chefe.
A decoração é como de uma lanchonete americana, mesas de madeira forradas com toalhas quadriculadas de branco e vermelho, sobre ela condimentos para os lanches, guardanapos e canudos. Parando próximo ao balcão, passei os olhos por todas as poucas pessoas presentes e no meio delas não foi difícil reconhecer o distinto homem sentado, mexendo distraidamente em seu celular. Aproximei-me furtivo, chamando seu nome, seus olhos ergueram-se primeiramente alcançando minhas coxas e então subindo, até finalmente encarar meu rosto.
— Mike! — Largou o aparelho de lado, levantou-se para tomar meu corpo nos braços finos. — Eu gostei que alguém te chama por esse apelido, vou usá-lo também — falou quase em meu ouvido, rindo de leve. — Achei que iria te ver de couro, mas você está de jeans. — Seu sotaque havia voltado e ainda era reconhecido por mim no idioma japonês.
— Ah, não acho que irei usar aquele tipo de roupa em meu ambiente de trabalho. A não ser que minha intenção seja seduzir o chefe.
— E é? — Ele ergueu as sobrancelhas, tinha um sorriso maroto entranhado nos lábios.
— Mas claro que não! — Arregalei os olhos, Nathan ficou em silêncio, dobrando um pouco a cabeça para o lado, comentaria algo sobre a minha afirmação, porém, o interrompi. — Então, como foi sua viagem de ida e volta?
Demorando breves segundos para responder, pois havia notado a minha interferência, prosseguiu.
— Eu pretendia ficar mais tempo, porém senti saudades daqui. — Deu de ombros. — Pedi cappuccino para nós dois agora pouco, estou esperando.
— Como estão os seus pais?
— Estão bem, minha mãe pegou uma gripe enquanto eu estava lá, mas nada muito forte.
— Pretende voltar?
— Não agora. — Me encarou novamente. — Então, em que está trabalhando? Quando viajei, você ainda não havia decidido.
— Ah... Trabalho como secretário particular do dono de uma editora. — Desviei o olhar para a garçonete que chegava.
— Qual editora?
— Hands of the Gods. — Destampei o cappuccino evitando contato visual com o pálido em minha frente.
— Matthew Williams?
— Exatamente.
— Parece ser um bom rapaz. Não há muita coisa na internet sobre ele, mas o que tem é suficiente. É um belo jovem, também.
— Sim, é — suspirei. — Não quero falar sobre isso.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não exatamente. — Nos encaramos. — Eu conheci o antigo secretário dele, Makoto, e ele deixou de trabalhar lá por problemas pessoais com o chefe. O Matthew é intenso, sabe? Você sente o poder dele. Não no sentido de ser quem é, mas fora disso. Ontem, eu dormi na casa dele — falei.
— Você o quê? Ficou maluco? — Seus olhos estavam arregalados.
— Shii. Me deixa concluir. — Consegui dar um risinho. — Precisávamos terminar todos os documentos da reunião de hoje, reunião está que não foi planejada... — suspirei novamente. — Então corremos para conseguir resolver tudo que estava pendente até hoje pela manhã. Como tinha bastante coisa para se fazer na empresa, não foi possível, depois do expediente fui para seu apartamento. — Senti as bochechas esquentarem. — Começamos a trabalhar, jantamos e depois voltamos ao trabalho, já era além das onze da noite quando acabamos e ele não me deixou vir embora.
— E foi só isso? Quero dizer, foi a única vez que estiveram tão próximos assim?
— Não.
— Ei! Quando é que pretendia me contar essas coisas? — Parecia surpreso com o quanto de coisa aconteceu enquanto estava fora.
— Eu não sei. Me desculpe. Saímos para almoçar, claro que também para resolver coisas do trabalho.
— Não se meta em furada — me advertiu.
— Não farei isso. — Franzi a testa. — Ele é meu chefe, Nathan. Che-fe.
— Vamos ver até quando irá tentar se convencer apenas disso. Te darei um mês apenas. — Sorriu, levando o copo de café nos lábios.
— Palhaçada — bufei.
Rimos muito, comemos um pouco e o albino iria para meu apartamento. Isso era ótimo, eu não ficaria apenas com a companhia da voz vinda da televisão. O quarto de hóspedes não recebe visita desde que ele viajou, então receber a dele outra vez é muito bem-vinda.
Fui bastante interrogado com perguntas sobre se eu teria alguma coisa ainda escondida sobre a relação com meu Chefe e mesmo dizendo que não, o outro confirmava que havia algo por baixo dos panos que eu não queria contar para ele. O chamei de paranoico, repetindo que tudo já tinha sido dito. Sua desculpa sobre, foi que eu não havia pensado em falar logo e que por isso estava, com toda a certeza, escondendo alguns detalhes importantes.
— Mike — choramingou.
— Chega, Nathan! Não tem nada, absolutamente nada que você não saiba sobre o que acontece em meu ambiente de trabalho nos últimos tempos.
— Nada? Nada mesmo?
— Você sabe da secretária, sabe do que ele veste, até como se vestiu em casa, sabe do seu mordomo chamado Gregory, do seu ex-secretário. Meu Deus, o que mais quer saber? — Bem, ele não sabe do que já aconteceu conosco... Sobre olhares ou mechas de cabelo.
— Da sua opinião sobre ele. Isso não entrou em pauta. É somente os outros e outros.
— E nem irá entrar! — Bati os pés em direção à cozinha, ouvi os passos ligeiros dele atrás de mim. — Estou confuso, okay? Não quero falar sobre isso, não ainda. — Passei as mãos nos cabelos.
— Você conheceu alguém bastante atraente e que aparentemente te dá bola quanto a suas qualidades físicas e mentais. Não deveria se assustar caso se pegasse apaixonado.
— Como? Não! Não! Não! — Me exaltei. — Não está entendendo? Estou com medo! Medo, Nathan! Não posso arruinar as coisas assim tão cedo. Eu não estou apaixonado, isso é simples.
— Ainda não.
— Para com isso — reclamei.
— Mas é a verdade, é tão inteligente quanto eu, sabe disso. Pelo jeito que o relacionamento de vocês está fluindo, sabe que não vai demorar, ao menos não vindo de você.
— Para, por favor. — Olhei para os olhos espertos que me encaravam, ele estava sentado no balcão. — Primeiro, eu não posso. Segundo, eu não vou.
— Não pode por quê?
— Ele é a p***a do meu chefe! — Sei que falei alto demais. — Chega, está ouvindo? Chega! Chega. Eu vou tomar banho — declarei por fim, saindo do cômodo em que estávamos.
Demorei debaixo da água quente. Sentir aquela torrente sobre mim era maravilhoso, um momento de sossego na mente, por alguns minutos. Não que o Nathan esteja mentindo nem que eu esteja fazendo o mesmo. Tudo bem que os poucos olhares que trocamos foram intensos o suficiente para me deixar visivelmente desconcertados e que suas falas quando estamos sozinhos e fora do expediente também tinham esse propósito. Mas agora, eu sei também que Matthew Williams não é alguém que namora. Então, vamos lá, garoto, nada de sofrer por antecipação, decida sua vida. Você não está e nem irá se apaixonar por ele.
Isso ou tudo começaria a desmoronar.
A sexta-feira dentro do escritório passou de maneira lenta e excruciante. Evitei o máximo que pude o contato com meu superior, entregando papéis apressadamente com a desculpa de, por ser véspera de final de semana e por causa da reunião, coisas ficaram pendentes, além disso, evitei a todo custo sem fazer muito contato visual. Teria o sábado e domingo para colocar meus pensamentos em ordem, e aí sim, tudo estará de volta a seus devidos lugares.
Nathan decidiu que ficaria comigo no final de semana também, somente iria para seu apartamento pegar roupas e voltaria. Estou contente com isso, terei alguém para me distrair e não me deixar apenas submergir neste assunto infernal. Não quero ser uma mocinha que irá para casa tomar sorvete direto do pote enquanto assiste qualquer filme romântico e melancólico para tentar tomar um rumo. Isso está definitivamente fora de qualquer questão.
O suspiro de alívio foi grande demais quando entrei no meu carro, em poucos minutos estaria longe da Hands e longe do causador do meu atual martírio mental por longos dois dias.
Nathan, ontem, enquanto conversamos antes que eu surtasse com o fato de suas tentativas de infiltrar-se nos assuntos, jogou em minha cara que eu simplesmente deveria deixar acontecer, que estou carente e que ter uma nova paixão seria algo bom para minha vida. É quase certeza de que o álcool na bebida Inglesa é mais forte. De maneira alguma me deixarei levar por uma coisa dessas, acho que basta a experiência de ter me apaixonado severamente uma vez e ter sido o pior que me aconteceu.
Eu era mais jovem, já morava aqui nos Estados Unidos e fazia o primeiro colegial. Com quinze anos, me percebi apaixonado pelo representante de turma. Ele era um rapaz certinho, tinha um humor legal e certo charme enquanto passava os recados para a sala, estes que vinham da diretoria da escola.
Éramos até bons amigos, ou colegas, poderíamos ter sido até hoje se eu não tivesse decidido me declarar.
No meio das aulas do segundo ano, o chamei depois que tomamos banho, após a aula de educação física. A minha vergonha era visível, eu o conhecia há um ano e meio, mesmo assim, ainda não acredito em suas palavras quando afirmei meu sentimento. Depois disso, só vim tentar algo aos dezenove, não estava apaixonado, não de fato, mas que ainda assim também não teve um bom fim.
O trânsito facilitou a minha chegada até em casa. Me joguei no sofá, Nathan não estava, o que era realmente estranho, não é de seu costume estar saindo, suas roupas ainda estavam no quarto de hóspedes, o que significava que sua ideia sobre ficar o final de semana não havia mudado, e se sim, teria avisado algo. Só restava a ideia de que o outro deu uma escapada até a cafeteria.
Aproveitei para tomar logo banho, não antes de ligar a televisão do quarto e ter uma companhia falante. Esperava que o sábado e domingo fossem algo revigorante, não tive trabalhos para casa e isso em si já era um bom, não, um ótimo começo para manter a cabeça longe da “Mãos dos Deuses”. Claro, o Nathan teria que colaborar com a história e não ficar fazendo perguntas escrotas ou insinuantes sobre tal assunto.
Assim que saí do banho, ouvi a porta da frente ser aberta, terminei de me vestir e fui ver onde que ele havia se metido quando saiu.
— Oi — começou quando me viu, abria uma embalagem de bolo. — Chegou pouco mais cedo, o que houve?
— Oi. — Sentei-me à mesa da cozinha. — Hoje é sexta, quase sempre é assim, a não ser que haja trabalho de sobra. Onde estava?
— Fui comprar bolo. — Cortava uma fatia, colocando sobre um pires e me serviu. — Trouxe da sua favorita, chocolate e coco. — Mantinha um sorriso feliz nos lábios.
— Uau. Não quer vir morar definitivamente comigo? — dei risada, ele me acompanhou.
Sentamos para comer e conversar, penso que o outro entendeu meu lado sobre não estar nem um pouco a fim de falar sobre o Matthew e que por isso não tocou no assunto nem uma só vez. E, se não fosse esse pensamento de agora, eu não haveria nem notado que não falamos sobre isso. Já é um belíssimo começo para o final de semana.
Jogamos vídeo game, assistimos a alguns filmes de ação, até que por acordar cedo e ir para o trabalho, e, claro, após ter um dia cansativo tanto mental como fisicamente, fui o primeiro a ceder ao sono e ir dormir.