Na tarde do sábado, enquanto colocava as roupas na máquina de lavar e verificava os bolsos, encontrei o número do Makoto. Separando-o sobre o balcão, mandaria um SMS quando estivesse livre dos afazeres domésticos, que sempre ficam acumulados durante a semana — por pura preguiça, porque não chego tarde do trabalho a ponto de poder fazer qualquer coisa que seja lavar os pratos ou varrer a casa.
Bem, o Nathan fez algumas coisas ontem, como trocar roupa de cama dos quartos e pôr em ordem a cozinha e teve os meus sinceros agradecimentos quanto ao feito. Para não fazê-lo de empregada, aqui estou, na lavanderia.
É provável que o Makoto pense que não estou querendo papo com ele fora do ambiente editorial, bem, não que isso seja uma crua verdade, entretanto não é a pura mentira. Como já repeti diversas vezes, Makoto me desconcerta, no não tão bom sentido da coisa, me faz parecer que ele sempre está a investigar algo sobre o Matthew, e claro, isso incomoda, muito. Mas, além disso, o japonês loiro é uma pessoa divertida.
Farei o que foi pedido por ele; e a mensagem foi curta:
“Hey, aqui é o Mihael, da Editora.” 16h13min.
“Hey, Mihael! Achei que não fosse falar comigo, estava ansioso.” 16h15min.
O assunto não se estendeu muito, já que o outro disse que estava ocupado se arrumando para um jantar e que já não aguentava mais ouvir as reclamações de outro alguém que não foi nomeado. Há, mas pelo que me pareceu, nossas conversas não serão tão monótonas quanto achei que fosse, custaram-me boas risadas durante o curto diálogo.
“Divirta-se em seu jantar.” 16h45min.
“Ah, que amável. Com certeza o farei, haha. Nos falamos depois?” 16h48min.
“Sim, claro.” 16h50min.
“Então, até breve, Mihael.” 16h33min.
Essa foi a última mensagem que recebi.
Nathan perguntou para mim com quem estava conversando e digamos que ele parecia até meio surpreso, já que as minhas descrições sobre o meu colega de profissão não foram muito agradáveis.
— Tem alguma ideia de por que ele saiu de lá?
— Nenhuma — suspirei. — Ele disse que foram motivos pessoais e que eu não deveria perguntar, assim, curto e grosso.
— Algo grave? Do tipo, se declarar ao chefe?
— Por que você só pensa nisso? Me diz.
— Ah. Isso pode gerar uma briga. — Deu de ombros, fingindo inocência.
— Sim, pode, mas não apenas isso, Nathan. — Franzi a testa. — Ele parece ser muito bem resolvido quanto a esse tipo de coisa.
— Há, você também parecia quando viajei.
— EI! — Atirei uma almofada na outra extremidade do sofá. — Tirei esse final de semana para lavar a alma sobre esse assunto, faça o favor de colaborar, senhor Philips!
— Okay, okay. As palavras ‘gostar’, ‘relacionamento’, ‘amor’, ‘paixão’. — Contava nos dedos. — ‘Estar a fim’, ‘namorar’ — falava.
— Chega, eu já entendi. — Nos encaramos. — Mas falando sério, não consigo enxergar um motivo... Apenas sinto a tensão entre eles, principalmente quando o Hikaru está junto.
— Então, Hikaru tem algo a ver?
— Talvez. — Dei de ombros.
Makoto ainda era assunto até meu celular começar a tocar, eu ainda respondia para o garoto ao meu lado quando finalmente visualizei o nome no visor do telefone. Me senti empalidecer, o coração bombeando, Nathan perguntava silenciosamente do que se tratava o meu pânico, até que virei minha tela em sua direção. Sorrindo para mim, ergueu as mãos em paz, indo em direção ao corredor.
Respirei fundo antes de finalmente atender.
— Olá, Mike. — A voz profunda me chamou a atenção.
— Matthew — suspirei outra vez. — Que surpresa, não esperava uma ligação sua em pleno sábado à tarde. Algum trabalho deixou de ser feito?
— Não, nada com relação à empresa. Acha que sempre que eu ligar para você será por isso?
— É o que se espera, não?
— Talvez. — Senti seu sorriso. — Mas, me diga, você tem compromissos para amanhã?
— Hum, nada até agora.
— Não gostaria de vir jantar? Estava almoçando hoje e lembrei que gostou da comida do Gregory, posso pedir que ele faça algo que você goste.
— Olha, Matthew. De verdade, obrigado, é tentador, mas eu não posso aceitar.
— Não pode pôr? — investigava.
— Não me parece correto. — Fui sincero em minha resposta.
— Por isso eu digo que você é muito certinho. Não estou lhe convidando como seu chefe, deveria saber disso.
— Eu sei. — Consegui rir junto a ele.
— Então, o que me diz? Às dezoito horas? Aqui em casa?
— Pode me dar um tempo para pensar?
— Há. Quanto tempo?
— Dois minutos. — Enquanto falava, corri até o quarto do Nathan, procurando papel e caneta, escrevi com letras corrida “Matthew jantar sua casa amanhã”, o garoto segurou o riso com um travesseiro no rosto. Estou me sentindo uma garota pedindo conselhos sobre o que fazer para com a paixãozinha da escola.
— Sua resposta?
— Eu vou. — Na verdade, o Nathan acabou não opinando em nada, ainda ria segurando a barriga, ficando vermelho por ter de segurar a voz. — Estarei aí pouco antes das dezoito.
— Ah. Isso é ótimo, quer dizer que cede fácil? — Senti o riso em sua voz.
— Não vamos entrar nessa conversa de novo, vamos?
— Não, não vamos. Até amanhã, Mike.
— Até amanhã, Matthew. — Desliguei o celular, mordendo o lábio inferior. — Pronto, posso ter uma síncope, isso não deveria estar acontecendo. Pare de rir, Nathan! — O estapeei.
— Isso foi verdadeiramente cômico. — Limpava as lágrimas, o rosto corado.
— Não, não foi — resmunguei.
— Por que aceitou? Já que pretendia ter um final de semana de paz?
— Porque ele, aparentemente, adora arruinar os meus planos.
— É um pensamento bem abrangente. — Sentou-se com as pernas para fora da cama. — Vocês não têm tanto contato além do trabalho para afirmar isso.
— Pelo jeito nem é preciso. Irei ligar e dizer que não posso ir.
— Não, não vai.
— Por que não? — O encarei bravo.
— Pare de ser infantil, Mihael. É só um jantar.
— Tem razão. Jantar que é resultado de outro jantar e café da manhã. — Suspirei.
— Sua cara de pânico foi hilária. — Socou de leve meu braço, jogando-se para trás na cama. — Relaxa, vai dar tudo certo.
— Ah, é desse certo de que tenho medo, sabia?
O outro propôs irmos assistir a algum filme e assim fiz pipoca e passamos o resto da tarde assistindo filmes de terror. Na hora da nossa janta, uma pizza foi pedida, e permanecemos no sofá. O que fez do primeiro dia do final de semana um pouco melhor do que havia se tornado após aquela ligação.
Uma coisa que me dei conta após olhar o horário no visor do telefone, foi que não recebi mais nem uma mensagem do Makoto, comentando esse fato com o Nathan, o pequeno disse que o jantar fora bom o suficiente para também render uma noite de sexo tão boa quanto. De fato, isso me fez rir, mas não era uma coisa impossível de se acontecer, não se quem o acompanhou foi sua namorada.
Era pouco mais das doze quando começamos a organizar as coisas da sala e cozinha para ir dormir. Tomamos banho e as luzes da casa se apagaram, somente os abajures faziam uma pequena iluminação próximo a cada cama.
Quando acordei, também era pouco mais das doze. A mente ainda turva fez a questão de me lembrar que o dia é hoje. Permaneci deitado, o antebraço sobre os olhos, tateei o celular com a outra mão, o quarto estava quase todo escuro pela cortina preta sobre a janela, a não ser o abajur que nem se dava todo esse trabalho, por isso a luz do visor quase torrou minhas pálpebras. 12h37min. Pensei em ignorar o horário e voltar a dormir, seria a melhor coisa a se fazer, mas então não conseguiria acordar para ir ao meu destino. E o Nathan não me deixaria aqui. Ou seja, irei, de uma maneira ou de outra.
Não é como se eu estivesse totalmente ansioso para não ir, só estamos adiantando o encontro que seria para acontecer amanhã pela manhã, formalmente. Entretanto o moreno deixou bem claro que não estava me convidando como meu Chefe. Ah, isso ficou claro assim que o convite foi feito.
Puxando qualquer coragem de algum lugar, levantei, indo direto para o banheiro, analisando o estado atual do meu rosto, por enquanto cansado, porém nada de diferente, além dos olhos ainda um pouco miúdos. Após um banho isso seria caso passado. Tomei uma ducha morna, escovei os dentes e estava pronto, devidamente vestido em pouco mais de trinta minutos.
Aparentemente, meu companheiro de casa ainda estava dormindo ou assim como eu, preferia arrumar-se antes de sair do quarto. Mas nenhum barulho vem de seu quarto. Bati uma vez, chamando seu nome em seguida, um murmúrio baixo se fez ouvir que dizia já estar acordado; pelo seu tom de lamento duvidei um pouco.
Havíamos cozinhado para o almoço de ontem, então enquanto meu amigo ainda não se dispunha a sair do quarto, fui colocando as coisas sobre o fogão e micro-ondas, depois da mesa toda feita, Nathan resolveu dar as caras. Havia tomado banho, seus cabelos estavam molhados e pingando na roupa que sempre me lembrava de um pijama, mas nem isso conseguiu melhorar a estampa de sono em seu rosto.
— Oi — falou baixinho.
— Oi. Vem, senta. — Puxei uma cadeira para mim.
— Estive pensando, e não irei embora hoje.
— Não? Por que mudou de ideia?
— Ah, eu quero estar aqui quando voltar, amanhã.
— Entendi. — Depois das engrenagens girarem, reclamei. — Ei, o que diz a você que só voltarei amanhã?
— Não se faça de bobo. — Bocejou. — Vai ser aquela mesma história, vocês vão jantar, depois vão conversar, e, pufe, à hora passou e, claro, o Matthew não vai te deixar vir para casa. Só verei sua cabeleira loira depois do expediente.
— Você não presta. Não pretendo ficar muito após o jantar, estarei aqui ainda hoje.
— Não criarei expectativas. — Me olhou, rolando os olhos em seguida. — Mike, você é tão duro consigo mesmo. Deveria se abrir um pouco mais.
— E quebrar a cara outra vez? Desculpe, Nathan, não, obrigado.
— Quem sabe agora funcione — insistiu.
— Foi o que pensei da última vez e que funcionaria da primeira.
— Não fique se deixando ancorar pelo que já passou.
— Come, Nathan, come. — Ele riu, fazendo o que foi orientado.
Muito diferente da sexta-feira, eu estava nada afim que a hora passasse rapidamente. Mas sabemos que nada é como queremos, ainda mais em situações como essa.
Nathan andava bastante sorridente à medida que às quatro da tarde se aproximavam, logicamente, já que não é ele a pessoa com o coração em estado de ocorrer uma erupção a cada segundo que se passa.
— Não deveria começar a se vestir?
— Não deveria deixar de se meter na vida dos outros?
— Achei que havia acabado essa sua ignorância, junto com a falta de roupas de couro e unhas pintadas.
— Com você, eu não preciso me conter. — Lhe dei língua, fui retribuído no mesmo nível.
E aqui estou eu, descendo para o estacionamento, o albino seguindo meus passos.
— Te vejo amanhã? — perguntou baixinho.
— Não, você me verá ainda hoje. Estou de carro, não há motivos para dormir lá.
— Se você diz. — Ainda assim não fez questão de esconder o quanto não acreditava em mim. — Bom jantar.
— Obrigado, tentarei fazer ser bom. — Dei partida, ele acenou enquanto eu me afastava.
No caminho até o apartamento de meu Chefe, o coração era frenético em cada uma de suas batidas. As mãos estavam geladas, assim como borboletas se agitavam em meu estômago, estou completamente nervoso.
Não liguei para avisar que já havia saído de casa e que nem ao menos estava para chegar, era o único tempo que eu teria para ficar quantos minutos quisesse em sua garagem e tentar tomar a coragem necessária para tocar sua campainha. Vejo agora a besteira que fiz em aceitar. Ah céus...
Estacionei em seu prédio, pelo interfone antes que eu entrasse, ele sabia que eu havia chegado, como pude me esquecer do protocolo de segurança? i****a. Ainda levei alguns momentos até entrar no elevador e subir. Olhei para meu reflexo no espelho, visto uma blusa branca com poucos relevos em cores escuras, jaqueta marrom, a calça com jeans lavado e uma basqueteira Chuck Taylor. Se colocar todos os meus sentimentos do momento de lado, me sinto ótimo.
E aqui estou, de frente para sua porta. Contei até alguns números antes de finalmente tocar a campainha, escutei um “Pode deixar que eu atendo, Gregory” e me senti ainda mais eufórico. Talvez ser atendido pelo seu mordomo não fosse uma ideia tão r**m. O barulho da tranca soou e sua cabeleira escura e olhos negros surgiram através da porta aberta.
— Achei que havia desistido. — Sorria de lado, a mão ainda na maçaneta. — Seja bem-vindo outra vez, Mike. — Me dava passagem para dentro.