Na manhã seguinte, o som de batidas na porta me despertou. As cortinas fechadas não me deixavam saber as horas, respondi que estava indo. Ao abrir, me deparei com Charles sorrindo brevemente, pedindo desculpas pelo incomodo, logo avisando que o café seria servido em meia hora. Agradeci o aviso, seguindo de volta para me aprontar e descer.
Depois de uma alimentação reforçada, subi para o quarto do moreno, o ajudando a separar o que seria necessário para a reunião dali a uma hora. Sendo a primeira delas, organizamos os tópicos mais importantes que deveriam ser debatidos primeiro.
— Quero você comigo lá dentro — apontou.
— Tem certeza?
— Por que não teria? Te trouxe aqui somente para organizar papéis? Quero sua opinião, depois que conversamos sobre algumas coisas, vi que pode muito bem ajudar sobre isso também. — Ele parou de repente. — A lua estava linda ontem, não é verdade?
— Ah, é evidente. Consegui belas fotos da sacada, junto com ela e o bosque da frente. Pedirei permissão para fotografar o jardim dos fundos também.
— O Jonathan irá ceder. Deveria mostrar-lhe o seu álbum, ele aprecia esse tipo de arte.
— Não encaro como adequado. Estamos aqui a trabalho.
— Claro. — Rolou os olhos, divertido. — Não seja tão careta, é jovem demais para isso. — Sentou na cama. — O que achou do Jonathan?
— Me parece alguém bastante responsável para idade que, na verdade, nem aparenta ter. — Dei de ombros, guardando a última folha na pasta restante.
— Notou algo?
— Como o quê?
— Ele não perguntou pela Akemi, em hora nenhuma, nem mesmo quando estávamos a sós.
— E o que significa?
— Que não é nem um pouco questionador quanto às escolhas que faço. O Jonathan, assim como eu, pensa que se foram feitas é por motivos específicos do momento e suas necessidades.
— É um bom modo de se pensar.
— E funciona — complementou.
— Não continuaria a usá-lo caso não.
— Tem razão.
Conversamos sobre outras coisas que não foram sobre Jonathan ou sua companhia, muito menos a empresa em que trabalhamos. Falamos do país em que estamos e ele me citou alguns lugares para os quais me levaria para conhecer. Estávamos apoiados na sacada do seu quarto, que contém quase a mesma vista que o meu, com a exceção de para onde é direcionado. Mas não muda o fato de ser extremamente belo.
Tempos depois, Charles veio avisar que Jonathan esperava em seu escritório para as negociações e que nos acompanharia até lá. Matthew caminhava ao seu lado, eu um pouco mais atrás, observando quase de modo perfeito as costas de ambos.
Charles é mais baixo do que Matthew, e eu diria que ele me lembra, mesmo que de forma breve, o Hikaru. Balancei a cabeça para afastar os pensamentos que me levariam até Makoto. Não estava querendo pensar em suas formas de repreensão para pessoas que se apaixonam por seus chefes, por conta dessa distração, por muito pouco não esbarrei nas costas de Charles. Me contive antes de colidir, no entanto, Matt deixou um baixo riso escapar quando percebeu minha forma desajeitada.
Batendo na porta, escutamos a permissão de entrada e assim, depois de nos cumprimentar, demos início à nossa reunião.
Enquanto eu ainda não era requisitado, dei uma breve olhada no ambiente onde estamos, bem arejado com janelas enormes, prateleiras com livros de diversos temas, uma grande mesa para caber todos os papéis necessários sem a necessidade de ficar recolhendo e organizando tudo outra vez.
Minha opinião foi pouco cogitada durante toda ela. E, sendo sincero, fiquei feliz com isso, afinal é somente a primeira vez que participo efetivamente de algo desse tipo. Aquela com Hikaru e Makoto não se compara.
Aqui, foi decidida a quantidade previa que seria fabricada de cada personagem principal da trilogia que havia feito sucesso. Contabilizaram brevemente o custo para o envio até os Estados Unidos, entre outras filiais, além de outras coisas relacionadas aos materiais.
Durante a conversa, Charles nos serviu um chá típico da Inglaterra, coisa que aprovei de imediato seu sabor marcante e aroma adocicado.
O primeiro tópico da reunião estava quase concluído, algo que seria feito após o almoço. Cada dia uma reunião dividida em duas partes entre antes e depois da segunda refeição do dia. Faltando apenas três tópicos para resolver na terça, quarta e quinta. Matthew decidiu que ficaremos até o domingo, três dias também para rodarmos pela Londres. Três dias que ainda não consigo prever o que pode acontecer, e nem sei se quero.
Como finalização, entre assinaturas de papéis e conclusão de orçamentos, separei a papelada dentro de outro classificador de título "Contrato, Action Figures", simples assim, para melhor ser organizado quando colocado engavetado na Hands.
Era por volta das quatro da tarde quando estávamos voltando até o quarto do moreno, tudo já havia sido definido e devidamente organizado, agora, somente colocaria de volta na mala de atas. Separados dos que ainda precisam de discussão, ou seja, longe dos que serão tratados ainda nos próximos dias.
— Isso foi cansativo. — Matthew jogou-se de costas na cama. Encarava o teto.
— Imagino que tenha sido, afinal, não fui de muita participação.
— Quer que eu peça ao Charles que te leve até a biblioteca do Jonathan?
— Não, preciso arrumar isso aqui, são documentos.
— Não sei como devo encarar esse seu senso de responsabilidade. — Deitou de lado na cama, seu rosto apoiado pela mão e o braço pelo cotovelo contra o colchão, me observava de lá.
— Não encare, então. — O olhei. — Mas quando terminar, ficaria agradecido se o fizesse.
— Eu sabia que não resistiria. — Havia dentes brancos à mostra em seu sorriso.
— Se tem tempo para se convencer desta maneira, me ajude a organizar essas coisas. — Trouxe-as para cima de sua cama. O vi se ajeitando de forma a me ajudar.
— Sente falta de casa?
— Acabamos de chegar, ainda não deu tempo disso. E, também, tivemos um dia agitado, nem sequer pensei sobre.
— Bom — limitou-se.
Investiguei em meus pensamentos se ele não estava se referindo ao Nathan, subjetivamente falando. Matthew é esperto e não falaria sobre de forma mais visível, sempre procurando camuflar essas intenções. Que seja... Não faz diferença.
— Falou com a Akemi hoje, não foi?
— Sim. Ela ainda te incomoda?
— Não... — Levantei o rosto, estávamos próximos. — Nossa relação, desde um tempo para cá, tem sido estritamente profissional.
— Pena. Vocês começaram bem.
— Poderíamos ter continuado, se ela não fosse tão paranoica. Mas estou indiferente sobre nosso relacionamento. Você conhece o Hiroshi?
— Nos encontramos em umas festas. Um bom rapaz, entretanto, não enxerga o que a Akemi faz a ele. Deve ser completamente apaixonado por ela. Não n**o que tenha boa aparência, no entanto, isso não é tudo. Correto, Müller?
— Sim, claro, tem razão.
O encarei, as cores dos seus olhos próximas das minhas. Deus me ajude a não empurrar seus ombros no colchão e beijá-lo aqui e agora.
Voltei minha atenção à sua mala, guardei os materiais de volta e me sentei novamente em sua frente. Não pude deixar de sugar uma grande lufada de ar para relaxar os músculos, antes de voltar a estar com ele.
— Se eu a trouxesse, os acontecimentos aqui seriam extremamente na linha. — Deitou de novo, olhou para o teto mais uma vez, suspirou. — E estou precisando relaxar. Os dias em que faremos nosso pequeno tour me proporcionaram isso. Estava te olhando e pensando nos dias em que saímos, inclusive naquele em que nos encontramos no estacionamento.
— E por quê? — investiguei com curiosidade.
— Porque foram bons — ditou simplesmente. — Não me importo que tornem a repetir. Quando voltarmos, quer ir direto para a sua casa? — Dobrou o pescoço em minha direção.
— Bem, não acho que deveria começar a pensar nisso agora. Vamos chegar lá e então decidir. — Dei de ombros. ─ Não vamos apressar nada, okay?
— Okay. — Sorriu sem dentes.
Havia outra coisa implícita em minha frase sobre esperar e espero sinceramente que ele tenha sido inteligente o suficiente para compreender isso.
Após o jantar, Matthew pediu para Charles nos levar até a biblioteca da mansão. E assim como na casa do moreno, meus olhos brilharam ao ver aquele paraíso. Mesmo sabendo que não daria tempo de ler nem mesmo um, por conta do trabalho.
— E pensar que existem pessoas que não gostam de ler. — Segurei um exemplar antigo, folheando devagar.
— E você gosta, por quê?
— Meus pais liam muito para mim… Acabei me apegando a isso. — Passei os dedos pelas lombadas. — Tenho alguns em meu apartamento, mas a maioria está na Alemanha. Iria ultrapassar demais a cota de peso com eles. Trouxe apenas meus favoritos, além de alguns títulos ainda não lidos. Os atuais são j*******s. Mas sempre que visito os parentes, no fim do ano, acabo dando um jeitinho de trazer alguns para perto.
— Tenho vontade de conhecer lá, a Alemanha.
— Será bem-vindo em minha casa quando for. — Sentei-me no sofá, estamos de frente um para o outro.
— Vejo que sim. — Sorria de leve, levando a xícara de chá nos lábios. — Irei te dar um de todos os nossos próximos lançamentos. Daqui até quando estiver trabalhando comigo.
— Fala sério? — Arregalei os olhos.
— Claro. — Ele se levantou para ir até a janela.
— Deus, obrigado. — Corri em sua direção como uma criança, agarrando seu corpo no meio do caminho em um abraço.
— Opa. — Apesar do susto inesperado, retribuiu o carinho.
Seu perfume se espalhava em meu nariz com meu rosto enterrado contra seu pescoço. E somente depois de segundos, percebi o que havia acabado de fazer.
— Desculpa — falei baixo.
— Não se preocupe. — Nos afastamos lentamente.
Percebi que esse foi nosso primeiro contato tão íntimo. Sempre estamos nos dando as mãos ou algo parecido, apesar de sairmos nesses dias, não havíamos chegado tão próximos um do outro.
O coração bateu mais forte. Pigarreei, voltando a sentar e quase enterrando o rosto em um livro qualquer que estava sobre a mesa entre os sofás. Isso não só foi infantil como vergonhoso. Muito vergonhoso, Mike. Como pôde? i****a.
— Estou no quarto, caso precise de mim. — Passou por trás do sofá, afagando meus cabelos.
— Claro — respondi.
Estou me sentindo a pessoa mais tapada do universo. Baixei o livro sobre as pernas assim que escutei o barulho da porta se fechando nas costas do outro. Eu não poderia ter feito pior. Não, não poderia. Um cara de vinte e quatro anos agindo dessa forma pra cima de seu chefe. O que há de errado comigo? Suspirei profundamente, mas a próxima puxada de ar ficou presa quando escutei a porta se abrir, dei um salto ainda sentado no sofá pelo susto, e encarei a porta.
— M-Me desculpa. Não quis te assustar. — A empregada de cabelos escuros entrava.
— Não, você não teve culpa nenhuma. Eu estava distraído demais.
— Eu deveria ter batido.
— Você só está fazendo seu trabalho, deve ter achado que estaria vazio. Não se preocupe... Você não teve culpa. — Sorri de leve. Vi suas bochechas colorirem. — Jane, não é?
— Sim. — Aproximava-se para limpar a mesa de centro. Essa foi a última palavra que eu escutei ela dizer.
Tomei um bom e demorado banho quando voltei ao meu quarto. Em momentos de vazio na mente, a visão de quando corri para os braços do Matthew me assolava e eu só podia cobrir aqueles pensamentos com outros, mesmo que o perfume de sua pele viesse como lembrança ao meu olfato. Era a gota d'água para me manter no momento que aquilo aconteceu.
Foi bom estar ali, mesmo que por aquela fração de segundos, mas foi aconchegante, acolhedor e carinhoso. Me peguei perguntando a mim se Akemi já havia experimentado estar em seus braços dessa forma simples, mas tão boa. Talvez sim, e isso a fez se apaixonar ainda mais. Não gosto e não quero pensar sobre.
Deixei o antebraço cobrir meus olhos, deitado aqui na cama, ainda não consigo dormir e deveria, quanto antes melhor, a reunião foi cheia de papéis, amanhã não será tão diferente.
Está tarde, é por volta de meia-noite, mas preferi levantar da cama, com as poucas roupas que ainda me cobrem, segui para a varanda, abrindo a porta de vidro que há antes de chegar até ela. Apoiei os braços sobre o muro, mirando a lua cheia coberta de nuvens, o vento frio soprando sua brisa.
Vai chover, pensei. Não sei exatamente quanto tempo se passou, acredito que não muito, talvez, somente o fato de estar sozinho tenha me feito parecer bastante. E quando o primeiro bocejo se fez presente, voltei à cama e deitando para aproveitar e não perder a chance de dormir rapidamente.