Estamos na quarta e amanhã será o último dia das reuniões. Estou nervoso a cada hora que se passa até lá.
Quero pedir ao Jonathan para me deixar fotografar seu jardim, mas ainda não tive a oportunidade — ou coragem talvez seja a palavra que melhor se encaixa a essa situação, não vejo por quê. Já que o Jonathan é uma pessoa adorável, não se importaria que umas fotografias fossem tiradas. Até porque, elas não vão a público e caso sim, os devidos créditos à sua mansão seriam dados.
Bem, de qualquer forma, não pretendo ir embora sem conseguir minha autorização.
As horas estão velozes. Cada badalada que o relógio antigo dá avisando o passar de mais uma hora, é um pequeno martírio.
— Mike? — Matthew me chamou.
— Pois não...? — O encarei.
— Tudo bem? — Franzia a testa.
— Comigo? Sim.
— Tem certeza? É a segunda vez desde o avião que fica dessa forma.
— Tudo bem. Só ando pensando e fantasiando demais. — Esfreguei os dedos na testa. — Preciso parar com isso. Não é nada.
— Deixa esses papéis aí, eu guardo. — Os pegou de minha mão.
— Desculpa.
— Tudo bem, não peça. Imagino que não só eu esteja cansado dessa correria desde os Estados Unidos.
Caminhei lentamente até sua cama, de lá, observei ele colocar as pastas de volta em sua mala.
— Os dias estão passando rápido, logo estaremos de volta — suspirei.
— Verdade. Mas ainda não quero pensar nisso. Quero aproveitar os extras que ficaremos aqui. — Ficou de pé em minha frente. — Vem, vamos pedir ao Jonathan as suas fotos.
— O quê?
— Você precisa relaxar. Se concentrar nisso um pouco vai ser bom.
Jonathan citou que gostaria de cópias de cada foto que fosse tirada. Meu coração bate forte de felicidade enquanto abro a sacola da câmera. Matthew me espera na porta do quarto, com a lata de alguma bebida típica que não tomei nota de conhecer.
O pôr-do-sol desce agora sobre Londres, o que dá uma vivacidade única nas flores azuis e brancas do jardim ao fundo. O Williams se manteve de pé ao meu lado, em silêncio, levando e retirando a garrafa aos lábios de tempos em tempos.
As flores estão vivas pela chuva da madrugada, gostaria de ter pego fotos pela manhã, quando ainda haveria gotas sobre as pétalas. Depois de caminhar um pouco, fiquei distante do moreno, uns vinte passos talvez.
Ele veste roupas simples, com uma mão no bolso, observa o horizonte do sol poente, a garrafa desce vagarosamente para descansar ao lado de sua coxa. Ergui a câmera na frente do rosto, enquadrando e fotografando meu modelo que nem sabe que serviu para tal tarefa.
Olhando para a fotografia depois de tirada, vejo as cores que se formaram nos fios escuros que flutuam com o vento devido ao sol alaranjado, o movimento de seu braço e a mão no bolso, atrás dele há flores e nuvens. Está perfeita, sussurrei pra mim.
Quando levantei a cabeça, vi o Williams caminhando em minha direção, a garrafa descansou na mesinha com cadeiras que havia para descanso.
— Conseguiu boas fotos? — perguntou.
— Sim, é um cenário e tanto. Quero vir à noite. Com o brilho da lua, saber como ficam as flores. Vai descer comigo?
— Será uma honra. — Sorria de leve.
— Obrigado, eu estava precisando disso.
— Eu sei. Eu também. — Balançou a garrafa vazia.
Fui convidado para sentar naquelas cadeiras. Adivinhando o que fizemos, Charles trouxe chá para nós dois, junto com um pedaço de torta de morango.
— Você se importa que eu tenha tirado uma foto sua? — investiguei.
— Como? — interrogou, mesmo que tenha entendido o que eu disse.
— Uma foto sua, você se importa que eu tenha tirado?
— Não. Não me importo — riu baixo, me encarando um pouco. — Posso ver, junto com as outras?
— Claro.
— Sente aqui. — Puxou uma das cadeiras para seu lado, deixando claro que eu deveria ir até lá. Após passar as fotos e finalmente ser a vez da que tirei dele, perguntou. — Quando fez?
— Quando me afastei.
— Vai dar ao Jonathan também?
— Não... Essa é minha... — Eu não tirava os olhos da imagem. Não havia ficado somente boa, havia ficado realmente muito boa para algo que não foi planejado nem nada parecido. — Não ficaria tão boa se não fosse natural. Em que pensava?
— Coisas. Muitas coisas, coisas boas.
— Pela sua expressão, imagino que sim.
Uma rajada de vento balançou os galhos de arbustos e árvores ao longe, o jardim balançou junto. Aquele cheiro característico de plantas veio até nós. Os cabelos voaram, e não seríamos nós caso seus dedos não colocassem meus fios no lugar, passando por trás da minha orelha.
— Fazia tempos que isso não acontecia — comentei.
— Realmente. Você não tem permitido. Anda somente de elásticos e tudo mais.
Sorri um pouco, não fui questionado. De cabeça baixa, encarando a câmera já desligada, eu sentia seu olhar em meu rosto, quero encará-lo, ver seus olhos. Meu estômago está frio, muito frio. Porém fiz o que desejava.
— Tem os olhos muito bonitos, Mike — sussurrou. — Por um momento, cheguei a pensar que não iria retribuir.
— Por um momento, cheguei a pensar que não teria condições de fazê-lo.
— Pois faça. Não só agora, como sempre.
Estou fazendo muito esforço para não deixar o olhar escorrer para seus lábios. Se eu fizer, pode ser que o resultado seja inevitável, e será inaceitável. Sempre, sempre acontece de estarmos tão próximos e sozinhos, com uma situação que parece nos favorecer, o que há com o universo? Tornando isso assim tão fácil, tem algo errado.
Afastei alguns fios de seus olhos, deixando-os completamente expostos, não deixando de pôr atrás de sua orelha. Pensei no momento que ele fez o mesmo, mais parecia uma carícia que apenas um ato. O que Nathan diria se ficasse sabendo de uma coisa dessas? Sabendo do modo como estamos nos olhando agora ou de como quase sinto sua respiração espalhando em meu rosto.
— Matthew — sussurrei.
— Hum?
— Podemos subir? — Eu precisava interromper o momento.
Desculpa. Mas... Preciso me afastar e conter o meu instinto.
— Claro. Já conseguiu o que queria?
— Sim.
— Ótimo, voltamos mais tarde.
— Vamos.
E não vamos sentar aqui outra vez para ver nada. Nem comer nada. Por favor, completei em mente.
Subimos, fui até meu quarto e fiquei de chamá-lo quando fosse descer novamente. Eu teria algumas horas sozinho, o que era ótimo. Deitei com a cara no travesseiro, até queria ver melhor as fotografias, mas era certo estancar em uma, sendo assim não fiz nada, deixando para mais tarde; estaria recuperado do que aconteceu ou menos devastado.
Tirei meu notebook da mala, pretendendo mandar uma mensagem para o Nathan, conversar com alguém sobre o que está acontecendo parece ótimo, mas não foi o que fiz. Empurrei o computador para mais longe, juntando as pernas em direção ao meu peito, abracei as canelas. Inspirei profundamente, o dia foi de uma canseira mental muito grande e estamos apenas no final da tarde.
Após o jantar, subi para o quarto, avisando meu chefe que logo estaria descendo para o jardim. Não muito tempo depois, me encontrei com ele na porta que dava acesso ao ambiente.
— O que pretende?
— Talvez mudanças nas cores por causa da luminosidade, não sei exatamente.
— Mike. — Sua voz soou grave.
— Hum?
— Estou fazendo algo errado? — Suas duas mãos estavam em seus bolsos.
— Sobre o quê?
— Esqueça. — Um sorriso sem dentes me foi apresentado.
Eu sei sobre o que ele perguntou, assim como Matthew sabe sobre a minha escolha em fingir desentendimento.
O assunto foi ignorado pelo resto do tempo, e não havia mais muito que ser feito.
Analisando as flores, não notei mudanças significativas, por isso, antes de subir para o quarto, tomamos apenas uma brisa enquanto conversávamos olhando para o horizonte agora escuro.
Não preciso dizer que levei tempo demais dentro do banheiro e saindo de lá com uma toalha nos cabelos, sentei na cama para secá-los, o secador estava dentro da mala, mas havia em mim a vontade de fazer de forma rústica, me prender por momentos em coisas pequenas e simples, como secar o cabelo com toalhas.
Após feito, procurei por minha escova, indo à frente do espelho para fazer o melhor que podia antes de dormir. Não é de meu costume molhar os cabelos à essa hora, porém, eu precisava arranjar coisas para fazer e isso foi o que me surgiu no momento. Só pude acolher, mesmo que por esse horário.
No momento em que os pensamentos intrusivos já estavam tentando começar sua festa em minha cabeça, Charles bateu à porta, me servindo chá de camomila. Agradeci inúmeras vezes, estou realmente precisando de algo que acalme meus nervos e provavelmente acostumado com as tensões constantes de seu chefe, tenha notado que estou em igual, senão em pior estado, no momento.
— Vou dizer mais uma vez, obrigado, Charles. — Lhe entreguei a xícara.
— Não precisa agradecer.
— Claro que preciso. Depois de tomar isso, tenho a certeza de que irei dormir melhor esta noite.
— Não quero me meter, no entanto, acredito que já estarei fazendo isso ao perguntar — ria de leve. — Mas... Há algo entre você e o senhor Williams? — Os olhos brilhavam de modo curioso.
— Não, nada. — Meu coração dispara enquanto n**o.
— Me desculpe pela indelicadeza do que continuarei dizendo, vocês parecem próximos para a relação que mantêm dentro do trabalho.
— É só... Só uma forma de não ser tão formal — respondi tentando acreditar nas minhas palavras.
— Perdoe-me, mas o senhor Williams não tratava a senhorita Watanabe dessa maneira.
— Claro que não. Ela queria e quer coisas com ele. Não é essa a minha intenção — afirmei tentando passar credibilidade.
— Obviamente. E eu não deveria estar interferindo em suas relações. Tenha uma boa noite, senhor Müller. — Curvou o peito de leve, arrastando, em seguida, o carrinho pelo longo corredor, o acompanhei um pouco com o olhar.
É tão óbvio assim? Dou muito na telha que sinto algo mais? Recostei contra a porta fechada, mordendo o lábio, pensando.
Makoto havia falado para que eu revisse, então talvez eu seja muito aberto quanto a isso, pela falta de costume de gostar de alguém não sei disfarçar o que sinto. Ah, Mihael, só não seja demitido por isso. Bufei, não é possível que seja assim tão claro. É irritante que mais uma pessoa, além do Nathan, claro, tenha vindo até mim para perguntar se tenho relações extras com o meu chefe. Chega a ser absurdo. Por fim, não vou refletir nisso, estou cansado e com sono, quem sabe quando acordar ou quando voltar para os Estados Unidos; ou, quem sabe, apenas deveria deixar para lá e ignorar qualquer comentário.
Dei de ombros indo para o banheiro, escovar os dentes e rumar à cama.