Ato 18

2371 Words
Ouço meu coração pulsando loucamente em meus ouvidos a cada segundo e minuto que passamos aqui dentro, em uma espécie camuflada de confinamento que irá durar cerca de quinze horas; com uma parada em algum país que não fiz qualquer questão de saber ou lembrar o nome. Minhas mãos estão suando, mas não é pelo medo de voar, felizmente. Com um desejo bem infantil, pedi ao Matthew para ficar na janela, recebi um sorriso gracioso quando ele disse para que eu ficasse à vontade quanto a isso. O clima entre nós está mais do que agradável, isto é, se às vezes eu não me perdesse em pensamentos. Estou com a câmera em mãos, pretendo tirar fotos do pôr-do-sol, isso se ainda estivermos em voo e não na pausa. Mas enquanto isso ainda não aconteceu, tirei fotografias de algumas coisas que foram possíveis da altura em que estamos. Irei cochilar em algum momento deste percurso todo, tenho quase certeza. Apesar de não estarmos fazendo esforço algum, é cansativo de algum modo que ainda não decifrei qual. A aeromoça passa por nós de vez em quando, oferecendo água ou bebidas, assim como lanches simples. Até o momento, o moreno e eu somente aceitamos água. Enquanto conversamos, mostrei a ele algumas das minhas fotos favoritas, desde tiradas lá mesmo nos Estados Unidos até a Alemanha, entre outros lugares naquelas proximidades. Fui elogiado devido às qualidades delas, o que me deixou levemente envergonhado. — O dia que reservou para o nosso passeio em Londres vai ser muito bem aproveitado com isso aqui. — Balancei a máquina na mão. — Tenho certeza que sim. — Fez uma pequena pausa. — É um hobby interessante, esse seu. Vejo que gosta de fotografar paisagens. — Não apenas elas. Gosto de coisas simples também, como borboletas em flores. Neve em um jardim. Depende muito do humor que haja em mim no momento, além do que a natureza me oferece. — Não o faz menos interessante — replicou. — Se fizesse, eu não me dava o trabalho. — Sorri de leve. — Deveria fotografar seu sorriso. — Ele sorri também. Continuo encarando seu rosto, pensando que meu cabelo está preso, não há o que colocar atrás da orelha desta vez para complementar o clima. Uma pena. — Um dia, quem sabe — finalizei. Estamos relativamente perto um do outro pela proximidade das poltronas. E ainda mais pelo fato de que me aproximei para poder mostrar melhor as imagens. Eu poderia muito bem beijá-lo sem hesitar... Pensei, logo pigarreando e voltando à minha posição um pouco mais afastada ou o máximo que é possível. — Eu deveria ter tirado o elástico do seu cabelo quando tive a oportunidade — completou. — Não, não deveria — retruquei. — Me dê um bom motivo para não. — Não tenho um. Já que o fato do meu querer não altera em nada. — Obviamente. — Havia graça em seu tom. Meu coração grita através das costelas. Apesar da face quase neutra, estou em pânico por cada frase sua. Estou berrando a comissária em pensamento e pedindo uma dose extrema de calmamente. Passei alguns dedos na testa por baixo da franja, o que essa viagem não fizer aos meus nervos, o Matthew irá. A viagem em si não tem nada de r**m, claro que não. É evidente que quem está participando dela é que acaba comigo. Com os minutos passando, fui retomando a calmaria de meu corpo. Sinto a respiração normal, assim como o coração tamborilando da maneira correta. Isso é bom... Significa que, até o momento, em nossa conversa, nada demais foi falado, nem uma insinuação ou frase de duplo sentido. — Posso te fazer uma pergunta? — falou. — Outra, claro. — Contou para aquele seu amigo o que quase aconteceu a nós na sacada? Aí está, estava demorando para que questões delicadas viessem à tona. — Deveria ter contado? — Franzi a testa. — Fica a seu critério decidir. Mas vejo que isso foi um não. Desculpe por tocar nesse assunto novamente. — Tudo bem. Não é como se fosse mudar o que aconteceu ou melhor, o que não aconteceu. — Apesar da frase firme ainda sinto o gosto amargo do não ter de fato se consumado. Além daquela vez, já houveram tantas chances de acontecer. E até agora, nada. Nada. De quem é a culpa por isso? Sou retraído demais para lhe deixar uma a******a e permitir que termine o que começou? Ou demonstro tanto assim não querer que faça? Okay, seja qual for a alternativa, quero gritar para ele que está totalmente enganado e que o demonstrativo de meu rosto quase nunca condiz com o que sinto por dentro. Comemos por volta do meio-dia. Não foi a melhor das refeições, mas para um transporte, além de não haver um menu muito alternativo para escolher, é provável que seja o que conseguem fazer. Na nossa parada para troca de pilotos e comissários de bordo, preferimos ficar por perto até que tudo fosse finalizado. Tudo isso nos levou pouco mais de uma hora, afinal, eles não simplesmente partem depois que a equipe é renovada. Quando pudemos voltar para as nossas poltronas, avisei que estaria tentando dormir até o final da viagem, mesmo sabendo que não iria acontecer tanto assim, a não ser que fosse com algum remédio para auxílio. Quando comecei a despertar, senti que alguns dedos me acariciavam enquanto meus olhos estavam ganhando foco. Havia, também, algo macio embaixo do meu rosto. — Ei, dormiu bastante, hein? Estamos quase lá. — Só então, pela proximidade da voz, notei que havia deitado em seu ombro. — O quê… — Cocei os olhos. — Você não dormiu? — Sim, fiz. Acordei com o aviso do piloto — explicou. — Pode continuar aí, se quiser, te chamo quando formos pousar. — Não, obrigado. Não quero estar com a cara amassada em meus primeiros passos no solo do seu país de origem. — Ouvi a sua risada gostosa. E notei que seus dedos ainda me faziam cafuné. — Se continuar, vou acabar dormindo outra vez — avisei. — Não me importo que faça. O perfume do seu pescoço invadia meu nariz a cada inspirar e expirar. Pensei em me aconchegar mais para perto, passar o braço em sua cintura em um abraço e me sentir acolhido ali mesmo. Ao invés de seguir os meus desejos, me arrastei para ficar firme e sentado, tentando recuperar de vez o estado de vigília. Desatando o cinto de segurança, avisei que iria ao banheiro lavar o rosto, e assim fiz. Encarando o meu reflexo no espelho, não estou tão r**m após algumas horas sentado e dormindo desajeitadamente, arrumo melhor meu cabelo, prendendo em um r**o de cavalo mais aceitável. Molhando o rosto mais uma vez e enxugando com o papel toalha disposto, logo voltei para a minha poltrona. Ao chegar e me acomodar, Matthew foi até o banheiro também. E enquanto ele estava fora, o carrinho da aeromoça passou por mim. Aceitei duas garrafas de água, entregando na mão do outro quando voltou. Recostei com a cabeça para trás, olhos fechados, relaxado. Abri os olhos e girei brevemente o pescoço em direção ao homem do meu lado, fui o primeiro a sorrir com o olhar retribuído. — Não arrumou os cabelos. — Deslizei os dedos por fios escuros. — Não tem motivos para fazer. Queria dizer o quanto estava sexy e parecia algo pós-sexo. Seus olhos negros semicerrados, um pequeno sorriso para arrancar suspiros das mocinhas. Eu deveria parar de encará-lo, parar de querer correr os dedos pelo formato de seus lábios, por isso, recolhi a mão do topo de seus fios, mas ainda permaneci olhando-o. Era como se o mundo ao redor não existisse. Isso é um saco, estou me deixando levar demais por essa proximidade proporcionada pelas poltronas. E eu desejo isso, desejo continuar aqui, desejo ainda mais beijá-lo. Ah, claro. Tocar bem de leve e sentir o sabor por breves momentos, ir aprofundando com calma enquanto acaricio seus cabelos. Deve ser bom. Muito bom. — Mike? Ei! Mihael! — Me chamou? — Franzi a testa. — Claro que chamei. Está aí me encarando e não respondeu nem sequer uma das minhas perguntas. — Desculpa... O que perguntou? — Tudo bem com você? Mesmo? — Soava preocupado. — Sim, só estava pensando em várias coisas indevidas. Apenas ignore. — Não há como fazer isso realmente, ignorar. — Ele me analisou um pouco mais. — Em que pensava? — Nada que eu deva ou possa trazer à tona... ─ Não parece ser alguém que tem tantos pensamentos indecentes assim. ─ Sorria curto. ─ Acredite, ultimamente venho sendo assombrado por isso. ─ Consegui, de alguma forma, acompanhar sua risada. Conversamos mais do que esperei que fosse capaz de fazer. Até o momento que finalmente era hora do desembarque. Pegamos as pequenas malas que ficaram conosco no compartimento acima de nossas poltronas e saímos do avião. O robótico “Obrigada por escolher nossa companhia” já era escutado desde antes de ser a nossa vez a receber o dito agradecimento. É pouco mais das sete da noite, o céu está iluminado com a lua e as estrelas. Só nesse momento percebi que havia dormido durante o pôr-do-sol e não consegui a foto que almejava. Xinguei baixo por isso, reclamando com o Matthew sobre ele não ter me acordado para fazê-lo. No final das contas, "brigar" não surtiu muito efeito, por isso resolvi perguntar como iríamos chegar até o Hyuuga. Ele me disse para não me preocupar, quando chegássemos, era somente ao Jonathan, um carro viria a nosso encontro e seríamos conduzidos sem mais preocupações. Depois que nos colocamos a esperar pelo transporte que viria nos buscar, percebi que estou com fome. Muita fome, mas não falei sobre isso enquanto fazíamos nossa espera. Após o que pareceu bastante tempo, um homem de muita idade chamado Robert Walker, veio nos pegar na área de desembarque do aeroporto. Desde então, estamos a mais ou menos vinte minutos andando pela cidade. Estou com os olhos nas janelas, aparentemente, o senhor está indo mais devagar para que eu possa aproveitar o ambiente, talvez — ou ele não tem a coragem necessária para passar dos sessenta por hora, já que usa óculos e seus olhos são miúdos. Matthew conversa comigo, apontando lugares e sussurrando coisas próximas a meu ouvido, já que está inclinado sobre meu ombro para ver o que vejo. "Vamos ali quando tudo acabar", ele diz. — O perfume que está usando é muito bom — completa. — Obrigado. — Senão se importar. — Meus cabelos estavam presos na parte de cima e soltos embaixo, seus dedos roçaram meu pescoço quando ele afastou os fios e deslizou o nariz em minha pele. Foi por muito pouco que não cometi o pecado de fechar os olhos, aproveitando a pequena e aparentemente tão inocente carícia que vinha dali. Fiquei em silêncio logo depois, porém, sua grande euforia quando passamos pela frente do Big Ben e o vi apontando, me fez esquecer, pelo menos por um momento, o que havia acontecido. Quando tudo à nossa volta era nada menos do que paisagem natural, me acomodei melhor sobre o banco para deixar de olhar para tanto verde. O som da voz de Robert avisando que não demoraríamos mais tanto para chegar, foi um alívio. Na porta da enorme casa de belo jardim, um jovem estava de pé ao lado de um alto e magro moreno de fraque. Em fileira, uma empregada de cabelo escuro, quase azulado, com roupa típica de seu emprego, um cozinheiro loiro com chapéu alto de chefe e um jovenzinho, também de cabelos amarelos e chapéu de palha nos esperava. O carro parou, sendo aberto pelo homem de fraque, sua aparência de perto é distinta. — Boa noite, senhores. — Sorria gentilmente. — Sejam bem-vindos à mansão White. — Matthew, seja muito bem-vindo outra vez. — A voz doce não deixava negar que aquele deveria ser o herdeiro da empresa, com seus longos cabelos castanhos e olhos cinzas incrivelmente claros. — Jonathan, é sempre um prazer estar aqui. — Deram um aperto de mão firme e um breve abraço completou o ato. — Quero que conheça meu novo secretário, Mihael Müller. — Me apresentou. — É um prazer conhecê-lo, Mihael. — Seus olhos se voltaram para mim. Seu aperto em meus dedos foi amistoso. As rápidas apresentações foram feitas. A empregada chama-se Jane, o cozinheiro, Joshua e o jardineiro, Tristan. Além do mordomo de fraque, Wood Charles. — Venha, vamos entrar, devem estar famintos. O jantar já vai ser servido — anunciou Jonathan. Antes de tudo, ao levar nossas malas para nossos respectivos quartos de hóspedes, tive a noção do quanto o lugar onde estaríamos nos próximos dias da semana era amplo. Precisarei de muito cuidado para não me perder. Fomos conduzidos à sala de jantar antes que eu pudesse ter um vislumbre melhor do nosso alojamento. A comida tradicional nos foi servida e por incrível que fosse parecer, o mesmo prato ao qual Matthew havia mandado servir quando jantei em sua casa, chips and fish. E que o Gregory me perdoe, mas as mãos do Charles são de deuses na cozinha. Minha primeira impressão do jovem empreendedor Jonathan é que seja responsável e minucioso, mesmo com tamanha pouca idade, já que logo após a mesa servida, o Williams e ele já falavam de negócios, eu preferi não me intrometer. Minha função é apenas auxiliar com os papéis. — Descansem bem. Amanhã, Matthew, começaremos as novas negociações logo após o café da manhã — Jonathan falou quando estávamos despedindo. — Tenham uma boa noite — finalizou. Havia uma sacada no meu quarto, me dando uma bela visão para a lua cheia. Meus olhos brilharam diante daquela beleza natural, tão bonita quanto à vista que temos no apartamento do Matthew. Não perdi tempo em tirar a câmera de dentro da sacola e fotografar aquele espetáculo. Depois de pouco tempo admirando o que tinha à minha disposição, decidi que o melhor era partir para um banho, troquei as roupas e dormi; o cansaço do tempo de viagem para chegar aqui, além da tensão que acumulei durante ela, me fez cerrar os olhos quase imediatamente.
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