Ato 15

2706 Words
Ele ainda me olha. Não disse mais nada desde que falei pela última vez. Talvez ainda esteja absorvendo a minha frase, coisa que até eu mesmo deveria fazer. Mas é evidente que agora já é inútil, não é verdade? — Eu deveria admitir agora que gosto dele — apontei. — Sim, você deveria — confirmou. Somente sorri para ele. Não preciso dizer em palavras, é evidente, mais do que eu gostaria que fosse. Entretanto, nada posso fazer e essa parte eu não contarei ao Nathan, a parte em que o Matthew havia me dito que não namora. Não que eu esteja pensando em qualquer coisa assim, de maneira alguma, ainda é muito cedo. Principalmente quando eu decidi assumir esse sentimento nesse momento, somente porque já chegou ao limite do aceitável, quando falo sobre as minhas negações. Esse passeio foi uma coisa boa, porém também nada de bom, já que me causou esse tremendo rebuliço. Bom, pelo andar das coisas, uma hora essa grande não tão grande revelação iria acabar acontecendo. — Como se sente? — perguntou. — Ah... Eu não sei. Realmente não faço a mínima ideia — suspirei. — Sabe como é, eu pretendia resistir até quando não desse mais, porém acabei cedendo mais cedo do que esperava. — Se isso fosse uma aposta, ela estava ganha, afinal, eu não te dei nem um mês para admitir. — Sorria. — Para, Nathan. — Sorri junto a ele. — De qualquer forma, só fiz admitir, não irei fazer mais nada além disso. — Mas eu pensei que… — tentou. — Ei! — Ergui o dedo indicador para ele, o fazendo se calar. — Pensou errado. Já basta. É somente isso, eu gosto dele e ponto final. Nem mais um passo nem mais uma insinuação sobre. Fui claro? — Sim, você foi. — Escorreu no sofá para se sentar de forma desleixada como uma criança que acabou de ser repreendida. — Ótimo, estou indo tomar banho, preciso disso. — Levantei-me, estava no meio do corredor, quando decidi voltar. — Nathan. — Ele somente olhou para mim. — Obrigado, de qualquer forma. — Recebi um sorriso largo junto a um “Disponha sempre.” Com isso, eu poderia tomar banho e deitar em minha cama em paz. Quando senti a água morna caindo em meu corpo, foi uma das sensações mais maravilhosas que vivenciei durante o dia. Existiram várias, claro, mas poder livrar a mente de pensamentos por um momento, foi a melhor delas. Eu achava que isso não mais iria acontecer, me apaixonar tão fácil por alguém. Irei repetir a ladainha de ser o meu Chefe mais uma vez. Poderia ser qualquer pessoa de dentro daquele prédio imenso. Qualquer pessoa. Mas não. Dessa maneira, fica só um pouco difícil de levar, só um pouco para que eu não perceba o quanto estou na merda por essa besteira que o meu coração louco e carente acabou por fazer. E agora, depois que finalmente me abro e digo o que sinto, tem essa maldita viagem de nós dois para terminar de me enterrar vivo. Sei que devo separar a vida social do emprego, mas do jeito que está andando, com o próprio não colaborando para isso, fica complicado. Só um pouco complicado. Ressaltando outra vez. Demorei mais do que deveria no banho, o vapor da água quente embaçava todo o espelho quando saí. Enrolei uma toalha curta nos cabelos molhados, assim como uma de tamanho normal na cintura. Com uma das peças de roupa que coloquei dentro do cesto, procurei tirar aquela nublagem que impedia a visão do meu reflexo. Quando deitei a cabeça em meu travesseiro, estava com o pensamento nos últimos acontecimentos e quando percebi que isso me deixaria pensando demais, busquei algo para fazer, fosse no celular ou em qualquer outro lugar. Quando estiquei a mão para pegá-lo sobre a banquinha, o aparelho vibrou. O encarei deitado ainda, o coração tremendo intensamente junto à pequena corrida que o aparelho dava a cada sacudida. "Faz bons dias que não nos falamos, não é verdade?" 20h15min. Era só o Makoto. Só o Makoto. Um alívio imenso cresceu em mim. Mas por que será que também havia uma ponta de decepção? Como se eu não soubesse a resposta óbvia para essa pergunta. Respondi ao meu colega, pensando sobre se deveria mandar uma mensagem para o Matthew ou algo assim. Da outra vez em que nos "encontramos", ele enviou um SMS. Talvez eu devesse fazer o mesmo. Só não fazia ideia do que escrever. Conversei com o loiro por algum tempo, a conversa fora divertida e o assunto do meu atual e seu ex-chefe não chegou a vir em pauta, o que foi bom. Mesmo que eu não fosse lhe contar como estamos indo no relacionamento estranho que temos. Bem, eu não mentiria, apenas ocultaria algumas informações, ainda mais que estamos bem longes um do outro, sendo assim, ninguém vai perceber a pequena tensão que se estabelece em meu corpo junto ao mínimo acréscimo de brilho nos olhos. Eu queria perguntar sobre o Hikaru, porém, sentia que não deveria incluir qualquer um dos dois no assunto. No meio de nossos assuntos, descobri que Makoto namora, já esperava por isso desde aquele dia em que ele saiu para jantar sob reclamações de seu atraso para estar pronto. Eles estão juntos há praticamente um ano, mas o outro não quis entrar muito nisso, percebi pelo modo evasivo que me respondia. Entretanto, tenho a certeza de que está feliz. Foi o que deixou claro nas últimas mensagens sobre o assunto. Meu pensamento ainda matutava sobre falar ou não com o Matthew. Na verdade, eu queria, só ainda não sabia bem como fazer. "Obrigado por aceitar ser a minha companhia hoje." 20h57min. Estava feito, mesmo que tenha parecido que soei formal demais. Bem, pelo menos fiz, é isso que importa. E a resposta não demorou a chegar até mim. “Eu quem agradeço. Foi algo muito prazeroso para um sábado à tarde.” 21h01min. Deixei os lábios se moverem em um curto sorriso, assim como meus olhos ficaram colados na mensagem curta. Pensei naquele momento em que nos encaramos dentro do carro, o clima propício para um típico beijo de despedidas, mas infelizmente — ou felizmente — nada aconteceu. Novamente aquele sentimento de decepção me abrangeu, foi melhor assim, com toda a certeza. Eu paralisaria caso fosse beijado por ele, não saberia como agir e o que fazer. Entraria em pânico, sorriria feito bobo, teria um lapso mental, isso era o óbvio da história toda. Fui perguntado sobre quando estaria indo “pegar as minhas roupas” para não usar o termo visitar. Isso é divertido, dependendo de como se olhe. Um romance tipicamente proibido e que não seria aceitável para o nosso ambiente de trabalho. “Ninguém precisaria ficar sabendo que temos alguma coisa” foi o que pensei, mas ao mesmo tempo, imagino que o Matthew não parece alguém que quer esconder estar se relacionando, não importando quem seja esse. De certa forma é bom, não? Mas... E dentro da empresa? Como seria a reação de todos, ou melhor, de todas ao saber que seu queridinho Chefe está namorando o novato. Qual seria a reação de Akemi, era o verdadeiro questionamento. Limitei-me a ficar por aí mesmo. Essa filosofia toda me levaria a arrependimentos de coisas que fiz e não podemos voltar no tempo, o feito está feito e ponto. Não n**o que faria de novo e farei outras vezes. Não deveria pensar dessa maneira, eu sei. Quero dizer, como diria o Nathan, devo procurar a minha felicidade, mas não deixo de pensar, por mais que tente, no fato de ele ser alguém que trabalhe comigo e sendo meu superior, aquele que me contratou. Sinto muito por mim mesmo quanto a isso. De qualquer forma, vamos deixar acontecer. Não ficarei me jogando em seus braços, mas também não ficarei totalmente passivo. Continuarei do jeito que estou, aceitando seus convites e vez ou outra, o convidando também. Me fará bem agir dessa maneira, nem avançar demais e nem me manter estático. Gosto disso. A conversa durou algum tempo, tanto com o Matthew assim como com o Makoto. Me distraiu desse assunto de como ter uma conduta durante o desenvolver do relacionamento. E quando nos despedimos, por volta das dez horas e alguns minutos, fui até a sala sentar com o Nathan e acompanhar, mesmo que já pela metade, o filme que passava. O rapaz estava com uma vasilha de pipoca de microondas nas mãos, isso eu não aceitei, mas a barra de chocolate que se encontrava no armário e a garrafa de coca na geladeira serviram de boa companhia pelos outros longas que passaram na televisão. Na segunda-feira, o cronograma principal envolvia organizar os materiais para a nossa viagem, tudo sobre o que deveria ou não ser levado, uma pequena reunião de duas pessoas. Quando tudo parecia em seus devidos lugares, comecei a guardar dentro de uma pasta separada alguns dos materiais que levaríamos na bagagem, incluindo a ficha do Jonathan e o histórico das últimas vezes de venda da Hands. — Vamos, Matthew, mexa-se. Isso está uma bagunça — reclamei quando notei que apenas me observava colocando a papelada em seus devidos lugares. — Você é mandão quando quer ser, não é? — Sorria, com o cotovelo apoiado sobre a mesa e o rosto descansando na palma. — Ah, o que foi agora? — Não contive o riso divertido em minha voz. — Essas suas perguntas sempre contêm duplos sentidos. Só preciso desvendá-los. — Não vai ser assim tão fácil. Isso posso garantir. — Acredite que não sou o tipo que curte coisas fáceis demais. Uns desafios são muito bem-vindos. — Percebo pela sua cara e é bom escutar algo assim. Posso te provocar mais. — Ampliou um pouco mais o sorriso. — Posso fazer uma pergunta? — Não precisa perguntar se pode, apenas faça. — Voltei a arrumar as coisas. — Poupa tempo, sabe? — Ah, claro. Então, aqui, olha para mim. Levantei os olhos do classificador transparente, encarando aquelas orbes negras que quase me fizeram recuar de tamanha intensidade que havia ali. O ar pareceu rarefeito por segundos e esqueci como respirar. Aqueles olhos pareciam me analisar minimamente, despindo meu corpo… E principalmente minha alma, como se soubesse, ou quisesse saber, o que sinto na verdade, bem no fundo dela. — Então? A pergunta? — investiguei. — O que acha de… — Houve alguns toques na porta, a voz de Akemi acompanhou. As feições do meu Chefe mudaram de imediato. — Entre. — Olhava para a mulher que entrava. — Senhor, o Hikaru está na linha. Posso transferir? — Claro, faça isso. Eu já havia voltado aos meus afazeres de guardar os papéis, mesmo quando ela saiu do ambiente não voltei a encará-lo e imagino que a pergunta não mais seja feita, por isso não questionei outra vez. Não sei se devo considerar isso uma total falta de sorte. Arrumei as coisas e me levantei para ir para a minha sala, o Matthew tinha assuntos a tratar com o Hikaru, eu os deixaria a sós. Pretendia sair, quando tive meu pulso segurado, olhei para ele como alguém que não entende, e realmente não havia entendido. — Com licença, Senhor Williams — pedi, ele franziu a testa com a frase e o tom usado nela, soltando o pequeno aperto em meu braço e me liberando para ir à minha sala. Me joguei na cadeira quando próximo dela. Passeei a mão na testa, respirando fundo algumas vezes. Pela primeira vez, deveria agradecer a Watanabe por ter aparecido, apenas de forma retórica. Permaneci olhando para o teto, balançando devagar a cadeira de um lado a outro como se em algum momento fosse girá-la. Inspirando e expirando a fim de relaxar as tensões obtidas, em consequência, meu coração relaxava aos poucos que os minutos passavam. Sei que não vou precisar vê-lo agora, mas preciso me recuperar logo. Preciso de um cappuccino urgente, foi o que pensei, e desejava poder realizar esse desejo no exato momento vivido, cheirar o vapor do grão de café queimado seria bom. Bom demais. No entanto, irei ficar somente no desejo, por enquanto. Na saída para casa, passarei na lanchonete aqui embaixo ou lá perto do prédio seria melhor. Me faria correr para sair daqui e me satisfazer. Satisfação. “— Diga-me, o que você pensa sobre pessoas que se relacionam por mera brincadeira? — Não as julgo, todos precisamos de uma satisfação de vez em quando, não é verdade? Até os mais certinhos.” Engraçado. Consigo até rir agora, de modo nervoso, mas ainda é uma risada. Espero não ter trabalhos para fazer com ele pelos próximos minutos, vai ser bom não vê-lo pelo máximo de tempo que seja possível. Em um pequeno intervalo, às quatro da tarde, desci de elevador até a lanchonete. No final das contas, acabei não tendo a paciência de esperar meu expediente acabar até poder comprar um. Sou servido e aquele cheiro maravilhoso da fumaça se espalha em meu rosto, aspirei profundamente. Noto a feição da garçonete que sempre me serve encarando-me, provavelmente tentando imaginar se sou alguém viciado em algo além do café pelo modo como puxei aquele vapor quase transparente. O pensamento me fez rir outra vez e aproveitei para sorrir para ela também, que retribui docemente, acompanhando uma sentença de “Vejo que gosta muito de cappuccino”. No final do intervalo, subi com outro copo em meus dedos, vedado com uma tampa plástica. Empurrando a porta de vidro da entrada, os olhos de Akemi ganham a minha presença, não lhe dou muita atenção, já que não temos algo para que seu serviço me seja necessário. E desde que nossa relação se tornou estritamente profissional, nada nos falamos além do que é necessário, principalmente além das formais de educação. Sem pensar muito, abro a porta do escritório do moreno, quase nem me dou conta do que estou fazendo, não até deslizar o copo em sua direção e seu olhar vir ao meu com uma interrogação levemente divertida. — Obrigado. — Toma o recipiente em mãos, destampando e apreciando o suave aroma que sobe. — Aprendi a gostar desse cheiro com você. — Tem um pouco de canela também. — Dei de ombros. — Está muito bom. — Ele eixou o copo ao alcance, mas afastado das pilhas de papéis e do notebook. — Sente-se, preciso dizer algo. — Olhou em meus olhos quando me sentei. — Eu já contatei o Jonathan, ainda esta semana vamos receber sua ligação com a data programada para a viagem e a inclusão e exclusão dos assuntos a serem tratados, ou seja, é provável que daqui até a sexta-feira aquelas pastas que fizemos hoje sejam alteradas de alguma forma. — Entendido. É só isso? — Por enquanto é só. Chamarei se precisar de você. — Okay. Com licença. Me dirigi ao meu mini-escritório já começando a pensar sobre o efeito que essa viagem terá sobre mim. Entretanto, para não entrar em muitos detalhes e me dispersar, começo logo a trabalhar com coisas que precisam ser organizadas ou e-mails respondidos. Distrair a mente nessas horas é sempre a melhor coisa a ser feita. E foi assim até quando meu expediente acabou e segui para minha casa. Nathan ainda estava lá, mas planejava ir hoje ou quem sabe amanhã. — Então, por que não fica? — perguntei, jogando a chave do carro sobre a estante. — Passa esses tempos aqui, até que eu faça a viagem. — Viagem? — Sim, a que eu conversei com você, para a Inglaterra. — Ah... Foi uma conversa breve demais. Já está marcada? — Ainda não. Essa semana terei a data. Vou tomar banho. Se não se importar, poderia ir comprar torta pra nós, por favor? — Para você. — Sorria de leve. — Pode deixar. Na verdade, a intenção era cortar o assunto viagem da conversa. Quando conversei sobre isso com ele foi lá quando Nathan chegou do país para onde vou, somente avisei que iria, e essas coisas sobre os meus sentimentos ainda não estavam tão acentuadas. Espero que ele não me venha com planos mirabolantes sobre o que fazer ou deixar de fazer lá.
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