Voltei para o elevador do estacionamento depois de colocar as outras compras dentro do carro.
— Segura, por favor — alguém de fora pediu.
— Claro — respondi, segurando a porta. Mantendo a cabeça baixa para a sacola restante que estava em minha outra mão.
— Mike?
— Hum? — Ergui rapidamente os olhos. — Ma-Matthew?! — Meu coração disparou. Ele sorriu de leve, erguendo a sobrancelha surpreso.
— Não esperava lhe encontrar aqui — comentou com surpresa.
— Muito menos eu. — O acompanhei entrar.
— Posso perguntar onde está indo?
— Comprar chocolate. — Estou ponderando se devo complementar com o fato de que estava com o Makoto anteriormente.
— Ah, claro. — Estamos subindo. — Se importa de me acompanhar? Ou já está indo para casa depois que fizer o que tem de fazer?
— Tudo bem. Eu posso ficar.
Passamos em algumas lojas antes que eu fosse convidado a ir até a praça de alimentação para conversarmos. Meus chocolates já estavam pela metade, além de um milkshake do mesmo sabor.
— Cuidado com a diabetes. — Ele sorria.
— Ah, Matthew, não venha com essa. — Rolei os olhos.
Em determinado momento de nossas conversas, ele riu alto o bastante para arrecadar alguns olhares curiosos. Apesar do volume, sua gargalhada era encantadora. Até que me encarou, seu rosto claro estava vermelho.
— Ah, obrigado pela diversão. Eu realmente vim até aqui para ser breve, porém prefiro continuar a conversar. — Apoiou os braços de volta na tábua da mesa.
— E sobre o que exatamente você quer conversar?
— Bem, depende. O que seria do seu interesse nesse momento?
— Não coloque essa responsabilidade sobre mim. — Tirei mais um bombom de dentro da caixa.
— Quando irá até a minha casa outra vez? Falta de convite e de boas-vindas não é.
— Lógico que não. Além do mais, quase não posso esperar para comer a comida do Gregory outra vez.
— Posso levar almoço para você na segunda, com algo que queira feito por ele. — Me olhava de modo divertido. — Preparado para a viagem?
— Não diria que totalmente. — Algo parecido com uma risada me deixou.
— Então?
Prensei um lábio no outro. Não posso dizer que é por causa dele que estou inseguro com essa viagem, como isso vai soar aos seus ouvidos?
— Por ser a primeira nesse emprego. — Dei de ombros.
— Claro que sim. — Não encaro como se ele acreditasse. — Mas não fique, será bom. O Jonathan é adorável e a cidade linda.
— Tenho certeza que sim.
— Você quer ir assistir alguma coisa? — Seus olhos estavam fixos em mim, são sete da noite. — Isso se não houver algo que precise fazer em casa. Hoje é sábado, sabe?!
— Não acho que seja uma ideia r**m. — Ganhei um sorriso, lhe devolvi.
No final das contas, aqui estou novamente dentro de uma sala de cinema, com ninguém menos que o meu Chefe. A pessoa que mais evito no final de semana. Não posso nem acreditar no que está acontecendo, acho que o universo tem algo contra mim ou gosta muito da minha pessoa, porém ainda não consigo entender que forma de gostar é essa.
Sentamos quase no fundo da sessão. Um filme de ação foi o escolhido, nada de comédias românticas ou dramas sem fundamento. Estou aliviado com a escolha.
— Vem, vamos comprar seus chocolates novamente, você conseguiu acabar com toda a caixa.
— Não precisa, Matthew.
— Vai recusar um presente? — Erguia uma sobrancelha em minha direção.
— Ei. Estou falando sério. — Eu tentava fazer cara de bravo, porém a face divertida com a situação do outro não me deixava executar a feição com sucesso.
— Não reclame, só vamos. — Passou o braço pelos meus ombros, senti seu perfume mais dignamente pela proximidade dos corpos.
E claro que não pude evitar em receber seu "presente". Dentro do carro, após nos despedirmos, estou encarando a sacola no banco de trás. Ah… Como isso foi acontecer? Eu deveria ter ido embora, não decidido que deveria comprar chocolates. Se eu não tivesse voltado, não estaria saindo daqui quase às dez da noite.
Havia algumas ligações perdidas do Nathan. Ignorei por um momento, ligaria quando chegasse em casa e me livraria do choque.
— Onde estava que não me atendeu?
— Você é a minha mãe e eu não sei? — Ele resmungou algo que não entendi muito bem e dei sequência. — Fui ao shopping e aconteceram algumas coisas. — Deixei as sacolas sobre a cama.
— O que está esperando para me dizer? — expliquei desde o início, até o momento que fui para o cinema outra vez. — Tem noção do quanto que isso foi romântico?
— Não, não tenho. — Eu estava indignado.
— Estou orgulhoso que não tenha simplesmente dado um pé na b***a dele.
— Isso é algo típico de você. — Rolei os olhos mesmo que ele não pudesse ver.
Depois de desligar o celular da ligação do outro, fiquei a pensar sobre os acontecimentos do dia. Desde as insinuações vindas de Makoto até o encontro com o Matthew. Foi algo realmente inesperado, ninguém espera encontrar justamente a pessoa a que você quer tirar dos pensamentos em um lugar como aquele, não quando você já deveria ter ido embora, porém fui i****a o suficiente para voltar. Nada teria acontecido se não fosse o maldito vício nesses quadrados marrons cheios de açúcar.
Juntei o cabelo em um coque bem amarrado. Tirando os sapatos, jaqueta e roupas de cima, procurei uma toalha a fim de ir tomar banho. Ao sair, ainda de corpo molhado, comecei a guardar tudo que havia comprado e ganhado no dia de hoje.
Repassando as conversas, rindo novamente de algumas coisas e ficando pensativo sobre muitas outras. Como o fato de não saber se o interrogatório do Makoto sempre se dá para me repreender sobre estar possivelmente apaixonado pelo meu chefe ou para incentivar que eu vá em frente quanto a isso. Se bem que suas caras e bocas sempre me remetem à primeira.
Estou vivendo os dois lados de uma moeda. Uma pessoa que já trabalhou com ele e o conhece; e o Nathan, que se baseia em artigos da internet e relatos meus para tentar insinuar que tipo de pessoa o Matt é. Isso irá me confundir se eu não tomar a providência de escolher em quem devo colocar minhas bases e seguir em frente.
Mesmo que analisando, tudo esteja correndo devagar e de forma simples nenhum acontecimento extremo desde aquele quase beijo na cobertura. Me peguei tocando os lábios outra vez, relembrando o cheiro de uva que vinha de sua boca e pensando que o Nathan nem mesmo sonha que algo assim possa ter acontecido. Ainda que desconfie de que alguma coisa a mais acabou acontecendo naquele dia, não me pressiona para contar nada. Ótimo. Isso desencadearia uma série de imposições da parte dele para fazer um futuro relacionamento surgir. Não posso com isso, não ainda. Não agora.
Comi tanto na rua que malmente fui até a cozinha, no máximo para beber um copo d'água. E além de tudo, estava cansado por estar o dia inteiro fora de casa andando para cima e baixo. Mas não devo e não posso negar que eu estava realmente precisando de uma diversão dessas em minha vida. Foram horas divertidas, que por mais que eu reclame, gostaria que se repetisse. Com a exceção da surpresa do encontro com o moreno — esse eu gostaria que fosse devidamente marcado. E é com esse pensamento de convidá-lo para repetir o cinema e milkshake que acabo adormecendo.
No domingo, acordo com a porta sendo aberta. Me assusto brevemente, relaxando ao lembrar da cópia da chave do Phillips. Viro para o lado, tentando pegar no sono outra vez. Mas quando descubro que já é quase meio-dia, me forço a sair da cama e falar com o rapaz que tenta arrumar na geladeira a torta que comprou.
— Ei, não guarde isso. Não antes que eu possa provar — falei.
— Bom dia, Mike. — Ele me olha.
— Ah — bocejei. — Bom dia. — Apoiei meu cotovelo no balcão. — Ainda estou cansado, mas sei que não vou conseguir voltar a dormir, não naturalmente.
— Amanhã você trabalha, não deveria acordar tarde hoje.
— Não seja chato, Nathan. — Revirei os olhos, voltando pelo corredor até o banheiro. Não antes de deixar claro que queria um pedaço do bolo sobre a mesa quando eu voltasse devidamente pronto.
Quando voltei e que começamos a conversar, não entramos no assunto do acontecido de ontem, acho que não havia mais nada a ser dito. Além do mais, eu não iria dizer a ele que pretendia convidar o Chefinho para outro passeio daquele. Sem o susto de encontrá-lo por aí, claro. No entanto, Nathan me olha, como se esperasse por minha própria atitude de começar a falar sobre isso.
— Então? — instigou.
— Não tem nada mais que precise saber.
— Tem certeza? — Seu olhar estreitou.
— E por que não teria? — Passei o dedo na borda do prato para pegar do chocolate.
— Não sei. — Deu de ombros. — Acha que o Makoto pode ser alguém de confiança?
— Ainda não decidi isso. Ele parece rejeitar a ideia de alguém com o chefe.
— Ou de alguém com o Matthew, porque ele próprio já passou por isso e foi obrigado a sair da empresa — concluiu.
— Faz sentido, mas não vou me apegar a essa possibilidade. Há um clima tenso entre eles, como de uma briga. A mesma coisa vem do Hikaru. É complicado tentar definir algo que possa ter acontecido.
— Mas ele não deixa de tentar investigar se você sente algo pelo patrão.
— Não, não deixa — suspirei. — Pensar nisso não leva a lugar nenhum. — Abanei a mão na frente do rosto. — Vamos falar de outra coisa. Você — apontei com o garfo para ele — deveria arranjar alguém, pararia de encher o meu saco sobre isso.
─ Não, obrigado. Estou muito bem como estou. ─ Nem mesmo encarou meu rosto.
─ E é por isso que você fica desse jeito comigo. Não dá pra simplesmente aceitar que posso não querer ninguém?
─ Claro que não, já que você quer o Matthew. ─ Não segurou o riso, quase o acompanhei, isso se não ficasse levemente constrangido com sua afirmação.
Não preciso dizer que o dia de domingo com a companhia do Nathan ficou bem mais divertido. Me fazia não pensar e ponderar sobre certos assuntos, o que já era um bom progresso para os últimos acontecimentos. Mas isso também não faz com que o tempo em relação a minha viagem cresça, muito pelo contrário, são horas e dias sempre a menos quando se trata disso. Eu deveria seguir o conselho do Makoto e do Williams sobre não me preocupar com ela. Porém, tenho quase certeza de que o Matthew sabe exatamente qual o meu medo sobre ela.
Novo dia de trabalho e aqui estou no elevador para o andar do escritório. Por mais incrível que possa ser, não estou nem mesmo tenso, muito menos apreensivo. Ainda ontem, troquei algumas mensagens com o Makoto sobre o dia anterior. Não comentei com ele que havia me encontrado com o Matthew assim que sua partida se deu, provavelmente isso iria render alguns papos e não sei se quero o loiro sabendo dessas coisas. Ainda não decidi quem ele é sobre o assunto. Não que seja uma má pessoa, só não nos conhecemos o suficiente para que haja essa interação. Que seja, a conversa flui bem sem precisar colocar polêmicas dentro dela. Vamos deixar como está.
A semana em si também passou rápida e tranquila, o que dessa vez criava o desespero em mim. Nathan e eu temos conversado pouco sobre esses assuntos, estou evitando o máximo que posso.
Faltando apenas três dias até o nosso embarque, sendo hoje uma quarta e iremos partir no sábado, já comecei os pequenos preparativos das minhas malas. Meu amigo está acompanhando tudo de perto sem fazer muitos questionamentos. O que é ótimo, acredito que ele tenha notado o meu voto de silêncio sobre a viagem. Terei de ir, de um modo ou outro.
A Akemi já está sabendo da nossa ida há cerca de uma semana, sua face de perplexidade não a deixava mentir sobre o quanto gostaria de estar no meu lugar. E claro, como era esperado por mim, ela perguntou o porquê de um novato, não mais tão novato assim, estar indo em seu lugar. Matthew disse que não devia explicações, ela deveria somente obedecer a ordem que foi passada e tomar conta da empresa durante a semana que vai ficar fora. Indignada, e demonstrando isso, ela acatou.
Estou sentado na ponta da cama, relembrando aquele momento. Na verdade, acho que foi desnecessário o fato de ele ter me colocado junto na sala para lhe dar a notícia. Isso deveria ter sido feito a sós, entre os dois. Mas com certeza, ele estava a fim de provocar. E conseguiu o efeito desejado. Disso não tenho a mínima dúvida.
Suspirei, guardando a peça de roupa que havia dobrado por último e colocando dentro da mala.
Como eu havia dito que faria, nós realmente saímos depois daquele encontro. Foi algo bem simples, fomos até um restaurante ao qual ele gosta. Mas não o visitei em sua casa. Ah, claro, como de certa forma prometeu, ele levou um prato feito pelo Gregory na segunda após o shopping, almoçamos na lanchonete do prédio.
Descemos sob os olhares atentos da ruiva que trabalha no balcão de entrada do escritório. Me sinto levemente m*l por isso, mas nada que vá alterar a minha conduta. Já decidi deixá-la de lado há muito tempo, ainda mais que no momento tenho coisas bem maiores para me preocupar, como separar corretamente os documentos que vou precisar para o embarque e coisas desse tipo.
Na sexta-feira, fui liberado mais cedo. Matthew deu o pretexto de que ambos precisávamos conferir tudo o que levaríamos à Inglaterra. E adivinha: ele precisa de mim em sua casa para verificar toda a papelada. E que eu já deveria levar minhas malas, porque partiremos cedo até o aeroporto.
— Vá para casa, passo lá às sete para te buscar. E não jante, falarei para o Gregory fazer algo para nós.
— Okay.
Nos despedimos no estacionamento. Quando cheguei, contei a bela novidade para o outro e por incrível que pareça sua resposta não poderia ter me irritado mais.
— Eu desconfiava que algo assim pudesse acabar acontecendo. Sabe como é, para evitar atrasos na chegada até o aeroporto.
— Eu nunca me atrasei para chegar no trabalho, por que diabos me atrasaria para ir até lá, que é, de certa forma, mais importante? — Olhei com raiva desnecessária para ele.
— Você está perdendo seu tempo só por continuar me encarando dessa maneira. Deveria ir logo ver se separou mesmo tudo.
— Espero que essa coisa toda acabe de uma vez. — Girei nos calcanhares, me afastando dele.
Quase pontualmente às sete, meu celular vibrou. Pedi ajuda ao Nathan para levar as malas até além do portão, ele aceitou sem muitas objeções, isso era óbvio de acontecer. Tenho a certeza de que ele quer dar uma boa olhada nos olhos do Matthew e decidir se é certo o que vem falando sobre manter o tipo de relacionamento que vem se desenvolvendo.
— Oi — meu chefe começou, acenando para mim, indo até o porta-malas logo em seguida.
— Oi — falei baixo. Nathan me acompanhou em tom mais alto.
Concluímos o serviço em silêncio. Até Phillips se meter entre nós e falar com o moreno:
— Cuide dele. — Se olhavam fixamente.
— Ah, claro, farei com certeza. — Deram um aperto de mão. Matthew entrou no carro após isso, fez sinal para que eu me despedisse.
— Só uma semana. Não é o fim do mundo — falei.
Recebi um abraço.
— Escuta, faça coisas, divirta-se. Gosto do olhar que ele tem — sibilou em meu ouvido. — Além de ser extremamente gato. — Belisquei sua cintura, ele riu. — Até mais, Mihael.
— Até mais, Nathan.
Depois de nos afastarmos do prédio, a pergunta que eu estava esperando veio.
— Seu amigo que veio do mesmo lugar que eu?
— Sim, o próprio.
— Parece uma pessoa interessante.
— Tanto quanto é irritante.
— Devo identificar nisso uma pitada de que ele concorda com coisas que você não?
Foi de minha necessidade encará-lo de forma perplexa, franzindo a testa para complementar a feição. A boca abriu de leve, nada saiu de lá.
— Ah, vocês ainda vão me matar com isso — resmunguei.
— Deixa de ser tão cabeça dura que as coisas mudam muito mais rápido do que você possa esperar.
— Isso não me convence.
— Claro que não — ria.
Notei o curto sorriso que adornava seu rosto mesmo depois que o assunto se encerrou.
Em seu apartamento, comemos no escritório depois de revisar todas aquelas pastas e ver que estava tudo certo. Descemos e colocamos todas as suas malas junto das minhas, e todas as outras coisas necessárias. Depois de tudo, subimos para a sua sacada por volta das dez. As luzes lá embaixo, a lua acima. Recordo-me que deixei a câmera dentro de uma das sacolas.
— Pode fazer isso quando voltarmos.
— Claro que posso. — Mantive meus olhos no céu. — É uma paisagem incrível para fotos.
— Fico grato que tenha gostado. É realmente um lugar admirável. — Suas mãos estavam em seus bolsos, a calça folgada no corpo. — Talvez seja melhor irmos dormir. Iremos levantar cedo amanhã.
— Tem razão.
Antes de descer, dei mais uma olhada para aquelas cores e pessoas minúsculas. Desejei boa noite, troquei de roupa após um banho e caí no sono.
O café da manhã não poderia ter sido menos incrível dado por quem foi feito. Matthew deixou algumas instruções com o mordomo e então partimos.
Estamos dentro do avião.
Estamos decolando.
Estou nervoso.
Que Deus me ajude com essa distância de obstáculos que teremos.