O telefone tocou após dois dias. A voz do outro lado logo foi reconhecida por mim, era Matthew Williams. Meu coração disparou, aquela ligação, claro, só poderia significar uma coisa. Ou isso, ou eu estaria errado sobre a suposição.
— Pois bem, senhor Mihael, mais uma vez dizendo, terei o prazer de aceitar você em minha empresa.
— Muito obrigado, senhor Matthew. Não irei decepcioná-lo.
— Ah, não, tenho certeza de que não. — Senti um leve sorriso em sua voz.
Reprimi um sorriso enquanto as instruções de que eu poderia começar já no outro dia eram me passada. Com o nervosismo à flor da pele, eu escutava tudo com atenção dobrada.
— Às oito horas?
— Às sete e meia seria mais recomendável. Passe em minha sala, iremos conversar um pouco.
— Está bem, obrigado pela oportunidade.
— De nada, você tem potencial.
A conversa no telefone não se estendeu, mas o frio em minha barriga permaneceu até a hora em que deitei a cabeça no travesseiro. Tudo agora aponta para uma bela noite m*l dormida, proveniente do nervosismo e ansiedade do dia seguinte, e, assim, do primeiro dia de trabalho.
Um suspiro pesado deixou minhas narinas, a rapidez com que a ligação veio me deixou feliz, claro, mas ainda assim, me peguei pensando na pergunta se não houve outros candidatos além de mim. Porém, quem se importa quando o emprego é seu? O que me resta agora é somente me preocupar e conciliar tudo isso. A Akemi parecia uma boa pessoa e, aparentemente, tê-la como colega de trabalho e ajudante para me adaptar pode ser algo proveitoso. Mas não me agarrarei a isso, preciso criar minha independência na execução do trabalho.
Com aquele homem sendo o diretor, trabalhar com ele poderá ser o inferno no paraíso. Seus olhos negros de encaro firme, mas ainda assim gentil e o belo palavreado. A minha sexualidade não deveria agir diretamente nesse assunto, mas admito logo de cara que ele chame atenção. E deve ter namorada. Um espetáculo como ele não fica solteiro, a não ser que queira.
Mas sobre o que eu estou pensando? Balancei a cabeça, afastando os pensamentos. Isso é carência afetiva, admito que ando um pouco assim nos últimos tempos.
— Ah... Eu preciso arranjar alguém. — Sorri com o meu próprio comentário, mas não um sorriso de contentamento, apenas um de pura graça a ele.
Namoros nunca foram o meu forte. Desde a adolescência, sempre fui “o virgem, não pega ninguém” da turma, e não que eu me importasse com isso, afinal, para mim, isso não é uma coisa a se ficar brincando de “teste para ver se vai”, tem que vir de dentro. Muito clichê, soa como livros e filmes de romance, mas é o que eu acredito, e espero que dê certo.
Como era esperado, a noite não seguiu nada bem. De manhã, a cama estava mais bagunçada que de costume, pela quantidade de rolamentos que dei enquanto tentava pegar no sono. Entretanto, a disposição não foi totalmente roubada de minha pessoa. Não tenho olheiras pelo sono m*l dormido e o corpo não está tão reclamão.
O primeiro dia de uma rotina de, espero eu, muito tempo está apenas começando. O suspiro que deixou meus lábios foi prazeroso o suficiente para me proporcionar um bom gás para começar a manhã. Apoiando as mãos na pia, eu estava nervoso, sentindo o coração tamborilando forte dentro do peito.
— Acalme-se, droga! — Olhei para o reflexo no espelho. — Respire, vamos. Você já fez isso outras vezes. Não muitas, mas está valendo... — Dei de ombros. — Qual é, é por causa do moreno gostoso? Gostoso. — Acabei me permitindo rir pelo comentário, intrometendo-me embaixo d’água.
Um banho para despertar melhor, seguindo para o café da manhã. Em meu relógio tenho o horário das seis e quarenta, tempo de sobra para caso de acabar em um engarrafamento.
A brisa matutina lá fora ainda não está totalmente aquecida, obrigando quem sair a levar agasalhos. Pelo ar-condicionado que senti naquele escritório, parece que também precisarei levá-los independente da estação ou apenas ir com roupas mais quentes. Ao menos, vestimentas formais ajudam nesse quesito.
Já na estrada, o pouco de trânsito que peguei não me fez atrasar a vista do prédio que já desaponta no meu campo de visão. As entranhas em meu estômago afloram. Novamente, as chaves são dadas ao manobrista. O ‘plim’ do elevador e estou no andar desejado.
Akemi não está em seu posto, mas a porta já está destrancada. Bato duas vezes no escritório do moreno e tenho a permissão de entrar.
— Bom dia. — Cruzei os dedos para que a minha voz tenha saído em tom normal.
— Ora, ora. Bom dia, Müller. — Elevou os olhos dos papéis sobre a mesa, descansando a caneta que segurava. — Venha, sente-se.
Passei completamente meu corpo para dentro do cômodo, fechando a porta atrás de mim.
— Quero lhe fazer algumas perguntas extracurriculares. — Sorria ternamente. — Se era isso que lhe intrigava quando pedi que viesse um pouco mais cedo para conversarmos.
— Bem, eu nem sequer havia pensado em algo. — Sentei na mesma cadeira de antes.
— Tudo bem. A Akemi já chegou?
— Não, lá fora está vazio.
— Então, Müller — juntou as mãos em um enlace, apoiando o cotovelo sobre a papelada, e as palmas juntas na frente de sua boca —, você tem algum tipo de relacionamento?
— Não.
— Quando pergunto isso, me refiro a qualquer um, seja ele fixo ou não, apenas para caso tenha de ficar um pouco mais além da sua hora por questões burocráticas — explicou. — Poderia ser um transtorno ter alguém esperando pela sua volta, caso haja algo de última hora.
— Sim, eu compreendo. — Acenei um positivo com a cabeça.
— Seus pais moram aqui? — perguntou com descontração.
— Não, vivem em minha cidade natal. Berlim, Alemanha.
— O tom de seus olhos, seu leve sotaque, além do loiro de seus cabelos não o deixa negar a nacionalidade — brincou.
— E nem pretendo. — Acompanhei seu simples sorriso.
— Bem, apesar de ser apenas o seu primeiro dia, tenho grandes planos para você, Müller. — Alargou o riso por trás das mãos que o cobria. — Novamente, seja bem-vindo.
Ainda envergonhado, só pude agradecer.