Ato 3

1918 Words
Hoje comemoro meus primeiros dois meses desde que comecei a trabalhar aqui. Como era de esperar, a Akemi é uma boa colega, me dá ótimas dicas de como proceder e está sempre pronta para ajudar. O que percebi também é que mesmo namorando um cara chamado Hiroshi Yoshida, ou algo assim, ela não deixa de descaradamente dar em cima do Chefe. Eu queria ter coragem suficiente para perguntar como ela consegue ser tão assanhada, mas o bom-senso ainda é uma coisa que me domina, feliz ou infelizmente, nessas horas. Pergunto-me se o Matthew não se sente incomodado com os assédios da ruiva. Certamente, eu ficaria, mais ainda por saber da existência de um companheiro. Meu trabalho por enquanto não é tão simples, mas também nada complicado. Anotar compromissos, tráfego de documentos, marcar reuniões/convencer certas editoras a tê-las, fazer balanceamento de vendas das novas publicações... Algo por esses caminhos. Como era de se esperar, o Matthew é ótimo Chefe, rigoroso na medida certa e responsável em seus afazeres, além de estar sempre impecável a cada dia. Perco a conta de quantos suspiros a ruiva, agora ao meu lado, dá quando desliga o telefone da recepção após uma ligação dele. — Sei que você é homem e provavelmente eu não deveria estar fazendo esse tipo de pergunta, mas… — Ela apoiou o cotovelo sobre a banca do computador. — O que acha do senhor Williams? — O que devo achar? Ele é meu chefe. — Franzi a testa. — Acho-o tudo de bom, em todos os sentidos, sabe? Principalmente o contraste da pele com o cabelo. — Você não namora ou algo assim? — Sim, mas o Suigetsu é só... — Parecia pensar nas palavras certas para usar. — Alguém com quem eu gosto de passar o tempo, talvez essa seja uma boa definição. — Creio que seu alvo seja o Williams — apontei. — Por aí, mas não acho que ele repare em mim. — Fez bico com os lábios rosa de batom. — Você vê as secretárias e diretoras que vão às reuniões, são lindas. — Nunca reparei. — Dei de ombros. — Estou indo para minha sala, vejo você no almoço. Ainda são sete e meia, Matthew só chega daqui a em média vinte minutos. Uma coisa que não havia reparado, devido ao meu nervosismo na entrevista, era a porta ‘camuflada’ que dá para meu pequeno escritório. Uma réplica quase perfeita do original, a não ser pelo seu tamanho reduzido e a cor da mesa, branca. Há duas portas, uma que dá direto no Chefe e outra na sala da recepção. Outra coisa que descobri quando comecei aqui é que não... Deus, não há como conhecer todos nesse lugar enorme. O senhor Williams me leva para cima e para baixo a fim de que eu conheça cada cantinho, dessa forma, o mapa já está decorado, mas são muitos rostos e nomes. Isso me deixará louco daqui a um ano. — Müller, bom dia. — A porta que dá para seu escritório foi aberta. — Bom dia. — Irá almoçar comigo. Temos assuntos a tratar — começou. — Está bem. — Avise à Akemi, e diga para ela remarcar os compromissos para outro dia. — Posso fazer isso. — Não, não pode. Trabalharemos em outra coisa — disse sem se importar. E cá estou eu, com algumas pilhas de papéis para pôr em ordem. Tenho que acabar até às onze horas. Por que almoçar às onze? Massageei minhas têmporas, pondo as mãos na massa. — Williams? — Bati na porta, abrindo-a. — Sim? — Está tudo pronto. — Trouxe os papéis dentro de um classificador dividido por urgências e os coloquei sobre a mesa. — Se tem algo para pegar, faça agora, sairemos em cinco minutos. — Mas não era um almoço? — questionei, franzindo a testa. — Apenas faça. — Sorriu de leve, vi quando pegou sua pasta. Voltei à minha sala, pegando apenas o celular e segui para o elevador. Encontrei com o moreno no estacionamento. Ainda me perguntando o porquê de sairmos tão cedo se ainda faltam uma hora e meia para o almoço normal. Isso se saíssemos realmente às doze, o que seria difícil. Dentro do restaurante, seguimos para uma sala particular. Estava quase vazio, o que é esperado, afinal, ainda não deu nem onze da manhã. Na salinha privada que estamos há somente duas cadeiras e uma mesa, sobre ela, uma toalha bege e cobrindo-a, uma vermelha um pouco mais curta. — Começaremos após o almoço. E já que estamos em um ambiente social, socializaremos um pouco. — Mantinha os olhos nos meus enquanto falava, parecia estar se divertindo. — Me chame de Matt quando estivermos fora do prédio. Ou Sasu, se quiser. — Matthew... Matt... — Provei nos lábios. Um garçom bateu na porta de vidro, trazendo uma bandeja com duas taças e uma jarra de água, o homem à minha frente fez sinal para que ele entrasse. — Bem, me chame de Mihael. Eu não uso um apelido — continuei depois de o outro sair. — Ninguém te chama de Mike? — Parecia estranhar. — Mike? — indaguei. — Uma abreviatura bem óbvia para o seu nome. — Bebeu da água. — Os meus pais, sim. Mais a minha mãe, para ser sincero. Porém, não é algo que acontece com frequência. — Dei de ombros. — Digamos que os nossos supostos apelidos não são lá tão criativos. — De fato, preciso concordar com você nesse quesito. — Analisava-me, remexendo a mão que segurava o copo, fazendo a água ir à sua borda. — Vinte e quatro anos, não é? — Sim — confirmei. — Aberto a experiências, das mais variadas? — perguntou com tons de diversão na voz. — Se estiverem dentro de minhas condições de executar, por que não arriscar? — Fui sincero. — Esse é o tipo de resposta que espero e gosto de ouvir. — Sorria largamente; e que sorriso. Consigo entender o interesse da Akemi nesse cara. — Pergunto apenas pelas razões de que, muitas vezes, precisamos ir a lugares diferentes, a fim de conseguir contratos ou particularidades para algum livro — explicou e acenei em concordância. — Sobre as suas relações na empresa... — começou novamente. — Você e a Akemi são bem próximos, vocês saem? — Ela tem namorado — enfatizei. — Isso é um não sobre a possibilidade de vocês, um dia, saírem? — Sim, é. Ela não faz meu tipo, em diversos quesitos, ainda que eu não seja exigente sobre isso. — Exigências, você diz? — investigou. — Realmente não me importo com essa coisa toda de estar escolhendo, apenas isso. Se gostar de mim, estarei satisfeito — respondi sem delongas. — Gosto de pessoas ruivas — apontou. — Isso quer dizer que gosta da Akemi? — Juntei as sobrancelhas. — Não — ria com escárnio. — Usando suas palavras, ela não faz o meu tipo, em diversos quesitos. Mas não sou exigente sobre, também. Gosto bastante de loiros, por exemplo. — Me entregou um sorriso de cumplicidade. — Pois bem, ela gosta do senhor. — Joguei os ombros para cima outra vez. — Você — corrigiu. — Me chame de você. — Levou novamente a taça nos lábios. — Ela gosta de você. — Sei muito bem disso, ela não é discreta nesse quesito — argumentou. — Isso não te incomoda? — Por que deveria? Não lhe dou atenção e isso é o mínimo que posso fazer, não a demiti ainda por ser boa funcionária. Por que acha que te contratei? É meu secretário particular, além de precisar de um, não queria ao meu lado, o tempo todo, alguém que se sente completamente atraído por mim e que não se importa em demonstrar isso. Me remexi um pouco na cadeira. Okay, se é assim que ele pensa, seguiremos. — No que viemos trabalhar, exatamente? — Troquei o assunto. — Na reunião de amanhã — explicou. — Mas o assunto já não foi definido? Falta algo? — É o que veremos, mas não agora. — Abanou a mão em frente ao rosto. — Então, você estava com seus pais? — Eu passo todo Natal e Ano Novo com eles, virou rotina. Você não visita os seus? — Não, a não ser seus túmulos — falou. — Meus pais morreram quando eu fiz vinte anos. E por isso tomo conta do que era de meu pai. — Sinto muito, eu não sabia. — Senti o tom de minha voz ficar mais baixo pela surpresa. — Não, tudo bem. — Posso perguntar como aconteceu? — investiguei. — Foi um acidente de avião. Íamos à Inglaterra, mas preferi ficar por aqui. E então, na tarde do outro dia, eu soube que, perto de Londres, o avião caiu. A polícia local acha que foi sabotagem, devido ao que foi encontrado na perícia. Ou seja, eu não estaria aqui se houvesse acompanhado — concluiu. — Isso é horrível. — Pisquei várias vezes. — Algumas pessoas queriam destruir o negócio. E teriam conseguido, se eu embarcasse naquele dia, mas felizmente aqui estou. — Deu uma leve batida com a ponta do dedo na taça, fazendo a água tremular. — Não foi a primeira vez que eles atentaram contra a nossa família, mas tiveram êxito após muitos fracassos — suspirou. — Okay, okay, chega de relembrar o passado dessa maneira melancólica, vamos almoçar? — Seus olhos se iluminaram novamente naqueles ônix. Admito que não tinha notado que o tempo já havia passado desse jeito, já sendo quase doze da tarde. Comemos a especialidade da casa: Tempurá de Camarão e Legumes, com Chá Verde para acompanhar. Reviramos os papéis que foram tirados de dentro da maleta que o moreno trouxe, em busca de algo que estivesse fora do lugar e, felizmente, estava tudo lá, como deveria. — Pode ir para casa, vou fechar a empresa mais cedo por causa da reunião. Amanhã, esteja lá um pouco antes amanhã, posso passar para lhe pegar. — Caminhávamos em direção à saída do restaurante, já são por volta de quatro da tarde. — E levar você agora, já que deixamos seu carro no edifício. — Não se incomode, eu pego um táxi. Obrigado. — Venha, entre. — Abriu a porta do carro, parei por um momento, olhando para a porta aberta, logo, me senti quase na obrigação de entrar. — Eu disse: não se incomode. Mas parece que você não me ouviu. — Ele já dava partida depois que me acomodei. — Ouvi, sim. — Olhou para mim. — Mas fiz questão de ignorar. Não posso deixá-lo ir para casa de táxi se veio comigo — concluiu. — Obrigado pela sinceridade — resmunguei. — E então, para qual endereço estamos indo? — perguntou com graça na voz. É, eu não teria feito o caminho tão rápido quanto ele foi feito. E olha que moro aqui há um tempo razoável. Acredito que multas por velocidade não faltam na caixa do correio dele. Agradeci o almoço de hoje e tive que aceitar sua carona no outro dia. Não que eu estivesse me sentindo m*l por isso, é só que poderá soar estranho chegar com o Chefe depois de ter saído para almoçar com ele. Passei o resto do dia lendo um livro, assim como fui para cama mais cedo a fim de que, no amanhecer, eu não aparente com qualquer coisa que não deve parecer politicamente correto para se ser quando levantar da cama. Podendo causar falsas ilusões nos empregados da empresa.
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