Meu primeiro pensamento da manhã foi: dias como o de ontem poderiam se repetir. Porém, fui obrigado a me estapear pelo pensamento desnecessário que invadia minha mente. O relacionamento Chefe/Empregado é tudo o que devemos manter. Então, delimitar suas barreiras e mantê-lo saudável é o melhor a ser feito. E, também, não é como se eu fosse deixar a minha carência afetiva atrapalhar as coisas. Apesar de que tenho o dom para me deixar levar com pequenas mostras de atenção, por mais corriqueiras que ela seja.
Às seis e meia, meu telefone tocou em uma ligação, desci pelo elevador, encontrando com o outro à minha espera na guarita. Me senti levemente desconcertado com esse acontecimento.
— Bom dia. — Me recepcionou com um sorriso.
— Bom dia — cumprimentei de volta.
Seguimos rapidamente pela via principal, realmente estou surpreso com o quão rápido ele dirige. A conversa dentro do automóvel foi pouca e superficial, apenas, na sua grande essência, sobre qual sala deveremos usar para a reunião e quais podem ser os horários de intervalos.
— Bom dia, Watanabe — Williams disse quando chegamos na recepção de sua sala. Akemi também já estava lá, são poucas as vezes que a vi chegar mais cedo que eu. — Ligue para o Makoto e pergunte quando irão chegar — falou para ela. — Mike, vá preparar as atas.
— Estou indo. — Me dirigi ao meu escritório, mas antes que minha porta fosse aberta, a ruiva chamou.
— Vem aqui. — Balançava a palma freneticamente em convite.
— Bom dia, para você também. — Ergui as sobrancelhas, sorrindo de leve. — O que foi?
— Por que veio com ele? — investigava. — E o que é Mike?
— Porque, ontem, quando saímos para almoçar, fui para casa e meu carro ficou aqui. E Mike é meu apelido, achei que não poderia ser mais óbvio. — Pus a mão na testa, reprovando. — Eu preciso preparar as coisas da reunião, está bem? Conversamos depois.
— Claro, claro. — A vi franzindo o cenho.
Não conheço quem é o Makoto Kurosawa. Somente dei uma rápida olhada em sua ficha quando fiquei sabendo da reunião, no entanto, sei que ele é secretário de alguém chamado Hikaru Toyosaki, um dos empresários que faz parceria com o Matt. E essa reunião é para ver os novos produtos que tendem a dar mais lucro, além do que deve sair do mercado. Coisas as quais eu não participo, apenas organizo.
A reunião está marcada para às dez horas. Porém, é certo que, ao menos uma hora antes, os dois estejam estacionando no subsolo.
— Mike, Hikaru e Makoto chegaram. Leve-os até a sala de reuniões. — A porta secundária de meu escritório foi aberta e não notei, somente quando escutei sua voz.
— Sim, farei. — Me atrapalhei ao levantar, ouvindo o riso gentil do outro.
Ao chegar à sala de espera, me deparei com um moreno aparentemente um pouco mais alto do que eu. Em seu rosto eu conseguia ver traços bem definidos e suaves, a pele alva, assemelhando-se à brancura da de Mathhew, assim como seus cabelos são extremamente negros e revoltos; os olhos seguem as mesmas cores de seus fios, ele veste um terno cinza escuro e com as mãos dentro dos bolsos da calça. Ao seu lado se encontra um loiro de longos cabelos e um pouco menor, de pele pouco bronzeada, olhos grandes e de um azul céu que parecem o espelho dos meus; seu terno é quase tão escuro quanto o de seu parceiro.
Os dois pareciam discutir a seu modo, e o que ouvi foi algo assim:
— Vamos, Hikaru, tire essas mãos dos bolsos e pareça apresentável — o loiro, Makoto, falou.
— Eu sou e estou apresentável, Makoto. Não enche — respondeu o moreno, Hikaru.
Pigarreei para chamar ambas as atenções, inclusive de Akemi, que parecia perdida diante deles e do modo como estão interagindo.
— Bom dia — intervim —, sou Mihael Müller, secretário do senhor Williams e irei levá-los à sala de reuniões.
— Bom dia. — O loiro virou-se com um enorme sorriso, mas logo ele desfaleceu de seus lábios quando me encarou, olhando rapidamente para o rapaz ao seu lado, como se pedisse respostas para algo, não continuou a falar.
— Bom dia. Podemos subir agora? — Hikaru tomou a frente.
— Claro. — Passei por eles, seguindo e fui seguido para o elevador.
O silêncio aqui dentro é no mínimo constrangedor e desconfortável. Primeiro, porque é a primeira vez que estou conhecendo os dois, e segundo, que depois daquele sorriso que morreu nos lábios do Makoto, eu simplesmente desabei. O que foi? Tem algo de errado em meu rosto?
— Acomodem-se, o senhor Williams irá subir em minutos — comecei quando chegamos na porta da sala de reuniões.
— Espero que ele não se atrase igual à última vez — o moreno resmungou enquanto passava por mim para se sentar em uma das cadeiras dispostas ao redor da mesa.
A sala retangular contém uma enorme mesa de madeira oval em seu centro, com dezoito cadeiras dispostas, oito de cada lado e duas em suas cabeceiras, um telão de slide está preso em uma parede de frente; além disso, há bebedouro, uma máquina de café e lixeira.
— Não seja assim, Hikaru. Você reclama de tudo e todos — comentou Makoto. — Mihael. — Ele virou-se para mim. — Você trabalha para ele há muito tempo, para o Williams? — Seu tom é simples.
— Não muito. Há dois meses, somente.
— Enquanto a reunião acontece, será que poderíamos conversar? Já que não iremos participar. ─ Vi Makoto olhá-lo de cima, seus olhos miúdos como se reprovasse tal convite, mas não interferiu. — Podemos? — insistiu.
— Claro, por que não? Irei chamar o meu chefe. Com licença. — Dei meia volta.
Qual o problema desse homem?! Pensei enquanto seguia para o elevador mais uma vez.
Falei com Matt sobre subir logo, avisando que estavam reclamando sobre ele atrasar sempre para comparecer aos compromissos com o Hikaru.
— Ele deveria morder a língua. — Recolheu algumas folhas da mesa. — Não nos damos muito bem, acredito que já percebeu. Mas admito que seja um belo empresário, a mesma coisa parte dele para comigo. Porém, como seres sociais, não conseguimos conviver. Acredite, não daria certo. — Olhou para mim. — Agora, leve isso para que ele leia enquanto não subo. — Estendeu a mão para que eu pegasse a resma.
E refiz o meu caminho. Os dois homens conversavam lado a lado quando bati na porta e adentrei a sala. Entregando a papelada para o moreno, Makoto chegou próximo de mim na intenção de me seguir para a saída do cômodo, já que Williams acabara de fazer sua entrada.
— Vamos? — Ele sorri para mim, e só pude dizer sim.
Não antes de ver o olhar de advertência silenciosa que recebeu do moreno. Senti o clima levemente sombrio passando por cima de todos os presentes.
— Makoto — Matthew começou. — Há quanto tempo, ultimamente você não vem acompanhando o Hikaru nas reuniões — continuou.
— Sim, faz um ano desde que vim aqui pela última vez. — Ele encarou o moreno com uma grande quantidade de sentimentos que não consegui identificar quais são.
— Como vai? — perguntou.
— Ele vai bem. — Hikaru aproximou-se. — Você não ia levar o Müller para um café? Podem ir. — Jogou o queixo na direção da saída.
— Nos vemos por aí, Makoto. — Matthew nos acompanhou até a porta, mantendo os olhos atentos em mim.
Ouvi a porta fechar quando chegamos perto do elevador e a atmosfera dentro dele também não era das melhores. Enquanto seguimos para o térreo, onde há uma pequena lanchonete, os intensos olhos do outro sobre mim são de abalar as estruturas.