E aqui estamos nós. Um cappuccino foi servido para mim, enquanto Makoto preferiu café preto. Para quem disse que gostaria de conversar, até agora nenhuma palavra saiu de seus lábios e em contrapartida, seus olhos ainda me olham com igual intensidade. Não há nem como disfarçar o meu desconforto.
— Me desculpa — falou pela primeira vez.
— Como?
— Desculpa, por te deixar desconfortável. — Coçou a nuca, parecia envergonhado.
— Tudo bem, é que não estou acostumado com isso.
— Deveria. Japonês loiro não é comum. — Bebeu da xícara.
— Bem, eu não sou japonês. Sou alemão — expliquei.
— Alemão? Você não tem cara e nem fala daquele jeito, sabe? De quem está sempre bravo.
— Vivo há tanto tempo aqui que a única coisa que me resta é um leve sotaque.
— Isso é verdade. — Deu uma leve e descontraída risada.
— Mas sobre o que gostaria de conversar? — investiguei.
— Em quanto tempo você foi contratado após a entrevista? — Sua face ficou séria de repente.
— Uns dois dias depois... Eu acho. — Franzi a testa, em que isso é relevante?
— Não achou estranho?
— Sim, mas quem liga? — Dei de ombros, voltando a prestar atenção ao cappuccino que deixava uma fumaça quase invisível no ar.
— Tem razão. O emprego é seu, para que se preocupar?! Diga-me, a Akemi ainda dá em cima dele?
— Sim, mas como sabe? — O encarei com ar surpresa.
— Eu trabalhei para o Matthew. Saí há um ano.
— E ela já trabalhava com ele?
— Pelo que sei, ela era secretária de seu pai, Matthew a manteve no cargo. Apenas quando entrei para a empresa que ela se deslocou à sala de espera e consequentemente para ser recepcionista.
— E... — Ponderei perguntar. — Por que você saiu?
— Problemas meus e dele. — Prensou um lábio ao outro. — Mas não é algo que falo muito, assim como também não quero distorcer a visão que você pode ter de seu chefe.
— Tudo bem, imagino que deva ser uma razão bem pessoal. — Remexi meus quadris sobre o banco próximo ao balcão.
— Não entenda m*l o que eu disse. Não quero dizer o contrário sobre o Williams ser um ótimo superior — confirmou.
— Sim, percebo isso.
Okay, essa conversa está indo de lugar nenhum a um beco sem saída. Por que não cortamos o papo sobre trabalho, hein?
E como se lesse os meus pensamentos, Makoto resolveu puxar o papo para outra direção. Ótimo, agora sim estamos fazendo algum progresso, por mínimo e ínfimo que seja.
Progredimos em assuntos diversos. Desde conversas sobre nossos gostos e como é a Alemanha, passeamos também sobre o que eu achava da Ditadura de Adolf Hitler, visto que sou do país em questão. Falamos também sobre a Queda do Muro de Berlim e seu significado para o povo alemão. Apesar de não ser assuntos que penso sempre, foi bem bacana ver a visão de alguém de fora sobre as questões.
Enquanto conversávamos, notei que é uma pessoa bem animada e extrovertida. Seus olhos foram perdendo o brilho extremamente inquisitivo de quando estávamos falando sobre o Matthew, por exemplo. Parece alguém interessante para se ter como amigo.
Quando subimos, nos despedimos e prometemos nos encontrar novamente, não para papear sobre ofício ou coisas assim, mas para continuar nos conhecendo. O Hikaru me encarava e mais do que o olhar do Makoto, o dele me incomodou ao cubo.
Quando estávamos a sós, Matthew não pôde deixar de querer saber sobre o que conversamos quando descemos.
— Nada demais. Apenas fiquei sabemos que ele trabalhou aqui, e que vocês tiveram problemas — ele me encarou como quem diz “E ele se atreveu a falar quais?” —, mas ele não disse nada sobre isso. — Juntei mais rapidamente os papéis sobre a mesa de reuniões. — Espero que tenha tido uma boa conversa com o Hikaru.
— Aquele lá — bufou. — Ah! — Sentou-se desleixadamente na cadeira, passando a mão sobre a testa, parecendo preocupado. — Estamos bem, não tivemos nenhuma briga. Isso é um progresso e tanto, acredite.
— Vocês têm muitas ideias contrárias?
— Mais ou menos isso. Apenas sabemos admitir quando uma ideia é boa, e sempre procuramos brechas para criticar o outro sobre um erro grotesco. — Ouvi seu riso de leve. — É infantil e cômico.
Os meus dias seguintes de trabalho me incomodaram fortemente. Akemi não me chamava mais para almoçar, apenas me recepcionava com um “Bom dia” e “Tchau”. E isso tudo pelo fato de que o meu Chefe me chamou pelo apelido que ela nem sabe que fora dado por ele? Pensei em ter algum tipo de conversa com ela, mas... Tratei de afugentar o pensamento.
— Não é como se eu estivesse odiando você — ela começou do nada, enquanto procura uns telefones na agenda, estes que pedi para que procure.
— Como?
— É que... — Respirou fundo. — Você conseguiu ser chamado por um apelido, é secretário particular e está sempre sendo solicitado. Sei que é ridículo, mas eu estou com um pouco de ciúmes da atenção que sempre mendiguei e que você, em um dia, conseguiu.
— Não foi em um dia — apontei. — E, eu não quero nada com ele. — Me assustei com a percepção que ela havia tido. — Além disso, você é comprometida, não é por ele ser um empresário do alto que vai querer mulheres que tenham um anel. Só para constar, não é por você terminar com o Suigetsu e dar em cima dele, solteira, que vai te fazer ser notada com bons olhos.
— Não precisava ser tão duro. — Tinha uma expressão séria.
— Não estou sendo duro. Terminar com um e partir para outro não é exatamente a melhor coisa a se fazer, suas intenções ficaram bastante óbvias. Será como se você estivesse atrás do dinheiro, não de qualquer outra coisa que esteja te atraindo.
— Está bem. — A fala saiu seca, mas parecia conter algum tipo de aceitação perante a isso, sabendo que provavelmente seria dessa maneira.
Que seja, a minha consciência está limpa quanto a qualquer coisa com relação a essa situação. Minutos depois, recebi o que havia ido fazer ali, pegar um número de telefone.
Ouvir o que a ruiva havia me dito me fez repensar a relação que construí com meu Chefe em tão pouco tempo. Faz quase dois meses e meio que fui contratado. Nossa relação não é nada amigável do tipo como vi com Hikaru e Makoto, mas também não é nada profissional como a da Akemi. Entendi sua chateação, mas não fiz por m*l. Acredito que não há o que eu possa fazer a não ser lamentar a sua posição.
A deixei sozinha em seu posto na sala de espera enquanto atendia ao telefone, já sabemos com quem ela conversou, e notei um suspiro triste vindo de seu nariz quando o ouviu tocar. Era de se esperar. Porém, não tenho tempo de sentir pena de ninguém, há trabalho a ser feito.
Em minha sala, liguei para o número ao qual fui pegar na mão da ruiva, é de uma livraria para avisar que um carregamento com os novos livros que vão para a estante, que Hikaru e Matthew haviam decidido na reunião; o carregamento deve chegar hoje, no fim da tarde. Feito isso, não tinha mais nada sobre a mesa para se fazer, o que significa, folga para um cappuccino.
Bati na porta da sala do Chefe para perguntar se havia mais algum trabalho para aquele horário, e obtendo resposta negativa, avisei que estaria descendo para a lanchonete.
— Espere por mim, irei também, quero sua opinião sobre uma ideia que estive pensando.
— Está bem.
Quando passamos pela Akemi e Matthew avisou que estávamos lá embaixo, quase me senti m*l por ela. Quase. Não estou sendo insensível, o que me mais me ronda a cabeça são pensamentos relacionados ao seu namorado. Não acho certo namorar alguém enquanto se pensa em outra pessoa.
Na lanchonete, tomei minha bebida, a qual o moreno pediu igual. Me contando sobre a ideia que teve para aumentar as vendas e conversamos sobre outras coisas banais, essa que não são profissionais.
— Fico surpreso que não tenha tido namoradas no colegial — comentou.
— Não vejo o porquê.
— Como não? Você é um belo rapaz, Naru. — Levou a xícara na boca, seus olhos me encaram pela borda da porcelana, pisquei algumas vezes, captando suas palavras. Talvez a minha reação não tenha sido a que ele esperava, pois baixei a cabeça e sorri um sorriso de garota tímida por cortejos. Meus cabelos caíram para frente e para completar a cena, ele passou os dedos de modo a colocar uma mecha dos fios atrás de minha orelha. — Não foi a minha intenção lhe constranger — falou baixo.
— Claro que não, só não me é comum elogios assim.
— Deveria ser. — Não está sorrindo, mas sua face carrega uma expressão divertida.
— Não irei lhe contrariar. — Tomei a bebida.
Matthew é intimidante, de certa forma. Talvez não seja por querer, mas seus olhos parecem críticos e isso desconcerta qualquer um que se sinta observado pelo par de obsidiana.
Conversamos durante mais alguns minutos, terminamos nosso cappuccino e rumamos de volta para o andar de seu escritório.
— Iremos tomar mais cappuccinos juntos. — Com as mãos dentro dos bolsos da calça, erguendo assim o casaco do paletó, isso o faz parecer um pouco mais casual que um jovem Chefe de empresa. — Amanhã, nesse mesmo horário. — Movimentou seus olhos para me encarar de soslaio.
— Está bem, se não houver trabalho a ser feito. — Olhei meu reflexo no espelho do elevador.
— Nessa hora, eu direi que esqueça o trabalho. — Sorria mínimo. — Será uma ordem direta minha, não vai desobedecer, vai?! — Ergueu a sobrancelha, seguindo para fora da máquina.
Fiquei estático por um momento, só tomando noção quando as portas começaram a se fechar, pus a mão impedindo que me fechasse lá dentro novamente e segui o moreno que já havia adentrado a sala de espera. Akemi acompanhava suas costas com os olhos quando empurrei as portas e segui à minha sala, nem deixei que a ruiva fizesse qualquer tipo de comentário, se é que ela pretendia tal coisa.
Afundei na cadeira, jogando o pescoço para trás do encosto. Passei as mãos nos cabelos caídos e suspirei ao sentir os fios ainda atrás da orelha. A cena repercutiu em minha mente, e devo dizer que minhas bochechas ruborizaram. Esfreguei as mãos em todo o rosto, tentando afastar tudo aquilo que a rondava, deixei os braços morrerem ao meu lado logo depois disso.
À hora de final do expediente chegou, e não me demorei a chegar em casa, partindo direto para o chuveiro. O ar entrou fortemente em meu pulmão na tragada que dei ao sentir a água caindo em meu corpo.
Isso não está certo... A mente resmunga a mesma sentença diversas vezes.
Após o banho, o café tomado foi rápido, mas bem aproveitado. A televisão na sala me faz companhia para não haver apenas silêncio na residência. Morar sozinho é, muitas vezes, solitário, ainda mais quando já se forma uma rotina de estar sempre com alguém quase o dia todo, com o amigo e companheiro de apartamento viajando, estou só. Mas estou bem do jeito que estou, mesmo com a cabeça apontando que o que está acontecendo dentro do escritório não seja o correto, sorrisos não deixam de dançar em meus lábios, assim como aquele friozinho na barriga pela expectativa do dia seguinte. Não quero causar discórdia, mas se isso está me fazendo bem, de certa forma, não tenho o porquê de meter o dedo e mexer. Que continue da maneira que está aqui e que ela, por si só, se modifique quando houver a necessidade natural.
Verifiquei os meus e-mails antes de me preparar para dormir. Lá estavam algumas atas, relatórios, documentos fiscais e coisas parecidas da empresa, todas do dia e, além deles, um e-mail do Chefe, o que se fez necessária uma ligação por parte dele após a minha resposta.
— Eu não estava esperando a ligação deles. — Suspirou do outro lado.
— Tudo bem, posso chegar um pouco mais cedo e fazer.
— Chegarei cedo também, você precisará de ajuda.
— Não se incomode, já fiz isso outras vezes, além disso, a reunião é para a sexta. Depois de amanhã. — Fechei a tela do notebook, dando completa atenção para o homem na linha telefônica.
— Mais um motivo para que aceite a ajuda, não? — Senti seu sorriso de quem esperava por essa resposta e tinha algo para rebater. — Não suba, resolveremos tudo tomando cappuccino. Boa noite, Naru — finalizou.
— Boa noite, Matthew. — Passei os dedos pela testa.
Bem, eu já tenho uma pequena noção agora do que o começo da minha manhã do dia seguinte está me reservando. E, sinceramente, não sei o que pensar e nem como me sentir quanto a isso. O que é frustrante, mas, ao mesmo tempo, traz a sensação gostosa do desconhecido.
Eram onze horas no relógio quando a luz principal foi apagada e o abajur aceso. O sono chegou rápido, e não foi difícil acordar no outro dia.