Quando cheguei ao terraço do prédio, avistei aquela cabeleira escura, sentado no banco do balcão, um copo de cappuccino estava à sua frente.
— Bom dia — recitei ao me aproximar.
— Bom dia. — Sorria de lado.
Sentei-me em um banco ao seu lado. O copo térmico de cappuccino foi deslizado à minha frente pela mão do outro.
— Achei que estivesse tomando.
— Não, pedi para você.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer.
— Então, onde estão os papéis? — Destampei o cappuccino, absorvendo do cheiro que se exalou no ambiente. Vi meus olhos fechados, aproveitando, quando os abri novamente, os orbes escuros do outro me fitavam intenso.
Um sorriso dele e foi como se Matthew fosse trazido de volta à realidade, virando-se para a maleta no banco vazio ao nosso lado, tirou alguns papéis. Suspirei, vendo o grande trabalho que teremos pela frente.
Não sei quanto tempo se passou, cheguei quase às sete horas em ponto. Akemi passou por nós quando começamos a falar sobre o que fazer ou não. Meus cabelos caíram para frente como no dia anterior e o rapaz repetiu o processo de colocá-lo atrás de minha orelha, tentei ignorar, apesar de o coração sambar no peito.
— Deveria prendê-lo, se não quiser que isso que faço vire rotina. — Dava um sorriso ladino, a voz saiu mais baixa do que quando falávamos de trabalho.
— Do jeito que anda, virará — sussurrei de volta.
Enquanto encaro todas as faltas de cores em seus olhos, sinto o frio crescente em minha barriga, além do grande frio que chega no estômago. Estou me sentindo desconcertado, completamente abalado em minhas estruturas. É até engraçado perceber o quão rápido bate o meu coração. Há quanto tempo não me sinto dessa maneira? O pensamento passou correndo pela minha cabeça como uma maneira de realmente me faz questionar como estou reagindo. No entanto, não havíamos notado a moça estática próxima a nós até que um pigarrear da ruiva nos fez percebê-la. Também me dei conta de que já são oito da manhã.
— Bom dia — ela se pronunciou, tanto eu quanto Matthew a encaramos e repetimos a sua sentença em coro. A moça apertou com um pouco mais força a alça da bolsa. — No que estão trabalhando? — Aproximou-se, tentando parecer não tão incomodada com as coisas que havia presenciado.
— Na verdade, já estávamos subindo. — Começou a juntar os papéis, guardando dentro da mesma maleta, de certa forma, é verdade, mas ainda faltam alguns ajustes aqui e ali. — Vamos? Temos trabalhos a fazer, nós três. — Sorria, tomando a dianteira para nos guiar para o elevador.
Subimos todos juntos no elevador e ao chegar, Matthew seguiu para a sua sala, eu não fui direto para a minha pelo motivo de que preciso de um favor da mulher que nos acompanha. Que, devo dizer, não parecia agradada de fazê-lo para mim.
A tarde passou estranha entre Akemi e eu, o bom de tudo foi que ela não teve muita utilidade no trabalho ao que eu necessitava fazer; cá estou, mais uma vez, com a ficha do Hikaru, que resolveu ligar para o Matthew e citar algumas coisas que depois de analisadas com calma, precisam sofrer alterações, daí a reunião urgente para amanhã. A ordem do Chefe foi para que eu desse prioridade aos trabalhos do dia e não as coisas relacionadas à reunião. Okay, vamos fazer isso. O trabalho não é duro, mas ainda assim acabou por ocupar bastante do tempo.
— Matthew. — Abri a porta que dá para a área de seu escritório. — Acabei as atas das reuniões dos outros setores e ainda tenho tempo aqui. Posso terminar de adiantar as coisas para amanhã. — Coloquei o classificador sobre sua mesa.
— Já revistei a minha maleta, acabei esquecendo alguns papéis importantes em meu apartamento — suspirou. — Está quase na hora de você ir embora, podemos trabalhar em minha casa. Te trarei amanhã ou, dependendo da hora que acabarmos, posso te levar para casa.
— Não acho que seja uma boa ideia. Posso levar para minha e amanhã chegar cedo para conferir.
— Se fosse fácil assim, eu teria dito isso. — Me encarou, sorria um pouco. — Aquele maldito. — Inspirou o ar com força.
— Não há como adiá-la? — Sentei-me na cadeira de frente para ele. Recordo-me de quando estive nessa mesma posição para fazer a minha entrevista.
— Isso é outra coisa que, se fosse possível, eu já teria feito. Mas o Hikaru precisa viajar. Logo, precisamos resolver o quanto antes, já que a viagem dele é para trazer outro livro, caso seja aprovado.
— Bem, estarei pronto quando você estiver. — Minha barriga ficou gelada só por dizer tais palavras. Já foi estranho ir somente para casa com ele e ser trazido para o trabalho, imagina cogitar ir à sua casa.
Acalme-se, Mihael, é pelo trabalho. Apenas isso. Consegui me tranquilizar um pouco enquanto mantinha a situação pensada desse jeito. O que devo dizer que não era a coisa mais fácil do mundo, de maneira alguma.
— Vamos, Mike. — Não abriu a porta que vem da sala dele, mas sim a que dá direto para a recepção. O primeiro pensamento que me veio foi que ele estava a fim de provocar a Akemi. — Pegue o que achar que será necessário. Estou no carro esperando. — Puxou a maçaneta, fechando-a.
Suspirei. Com que cara eu sairei agora? Até consegui rir por causa disso, aquele riso visivelmente nervoso e apenas isso. Não que ela tenha algo a ver com a minha vida, é só que os sentimentos dela já duram por anos a fio, e... Oh, merda. Não quero que pense que estou na intenção de roubá-lo ou algo assim. Até porque, ela deveria saber que nosso relacionamento se desenvolveu diferente já desde o início, tudo por conta do meu cargo. Não há muito o que eu possa fazer, é o meu trabalho.
Peguei apenas a pasta do Hikaru, assim como do contrato e demais coisas relacionadas à união das duas empresas. Respirei fundo quando puxei a porta e estava saindo, Akemi ergueu os olhos da agenda em sua mão para me encarar. Prensei meus lábios uns nos outros.
— Até mais, Mike. — Notei seu tom de ironia, mas fiz esforço para ignorar.
— Até mais, Watanabe. — No caminho até encontrar o outro, fui repassando toda a situação desde o acontecimento da manhã até agora para comentar. — A Akemi está p**a. Você a provocou. — Entrei no automóvel já disparando. — Não deveria ter feito isso, sabe que ela gosta de você.
— E daí? O que tenho a ver com isso? — Silêncio no ambiente. — Exato, nada. O sentimento não é recíproco. Isso é tudo o que aquela pessoa precisa saber.
— Não é a isso que me refiro. Fica aparentando que estamos indo fazer qualquer coisa, menos trabalhar.
— E estamos? — Não me encara por estar olhando para o trânsito, mas seu tom é travesso.
— Não.
— Você sabe disso? — brincava.
— Sei. — Franzi o cenho.
— Eu também. E considero suficiente que apenas os envolvidos estejam cientes. Ninguém mais precisa saber dessa situação ou você acha que deve satisfações para todos?
— Ah — suspirei. — Está bem, isso acaba aqui.
— Quer dizer, então, que você cede rápido? — Paramos em uma sinaleira, seus olhos vieram em mim.
— Isso é uma pergunta de diversos sentidos.
— Entenda como quiser, somente responda. — Abriu um sorriso sugestivo.
— Depende. Não quero brigar com você aqui. Mas em outras situações, pode ser que seja diferente.
— Não estamos em ambiente um chefe e empregado. Esteja à vontade se seu desejo for algo a mais com relação ao assunto — ria de de leve.
— Eu disse que não.
Ele me encarou um pouco mais. Faltam quinze segundos para a sinaleira ser liberada.
— Você está de cabelos presos hoje. É para não acontecer mais uma vez? — investigou.
— Não fiz pensando nisso. — Dei de ombros.
— Que bom. — Fez uma pausa. — Mantenha solto. Eu gosto. — Voltou os olhos para a estrada, finalmente acelerando de volta.
— Você também está de cabelos presos.
— Não me envolva, o assunto em pauta é você. Irá soltá-lo quando chegarmos a minha casa.
— Mas...
— Mas? Meu ambiente, minhas regras. — Sua risada continha graça. — E a primeira delas é que, você não deve manter o cabelo preso. — Ainda tinha um sorriso sapeca nos lábios, com uma expressão de quem acha graça ninguém saber do que se trata seus pensamentos.