Clarinda estava em sala de aula. Tinha conseguido uma turma noturna de Literatura Inglesa e americana. Com aquelas aulas , o seu principal objetivo era fugir de casa durante a noite e só voltar quando o marido já estivesse dormindo, porque não queria ter contato nenhum com Jackson.
Era sua segunda semana com a turma e já tinha seus alunos preferidos.
Era um bairro periférico, e a escola parecia abandonada pelo Estado, mas tinha potencial. A direção era boa e realmente tentava fazer alguma coisa pelos alunos.
Foi um bom debate na aula, mas somente sete alunos participaram, os outros não haviam lido o conto exigido, em seguida, apresentou a capa do livro Frankenstein.
— Eu posso fornecer dez livros emprestados, que é o que tenho no meu carro. Vocês terão duas semanas para ler e vão revezando os exemplares entre a turma.
Um dos alunos mais agitados gritou do fundo da sala:
— Eu não vou ler isso, não!
Mas se calou imediatamente ao receber o olhar de outro aluno.
Aquele era Donal.
Donal parecia ter mais iniciativa dentro da sala e, de alguma maneira, tinha se tornado uma espécie de protetor de Clarinda. Quando ele olhava para alguém daquele jeito, os outros geralmente entendiam o recado.
— Se todos vocês lerem — Clarinda continuou —, podem escolher um prato e eu faço para todo mundo. Podemos fazer como uma noite de cinema.
— Isso é coisa de criança, professora.
Uma aluna reclamou.
— Não. Isso é coisa de pessoas que gostam de se divertir. E é o que eu posso oferecer.
Alguns riram, mas no fundo todos gistaeam da ideia.
Clarinda apoiou as mãos sobre a mesa.
— Outra coisa: fiz a inscrição de todos vocês no vestibular.
Houve alguns segundos de silêncio antes de alguém responder:
— Nós não vamos passar.
— Todos aqui têm potencial. Todos. E eu estou torcendo por vocês.
Quando a aula terminou, Clarinda recolheu seus materiais, guardou tudo na bolsa e caminhou em direção ao carro.
Donal a acompanhou.
Ela agradeceu pela p******o mentalmente, mas não disse nada até que ele falou:
— A senhora está com o braço ferido, não está?
Clarinda instintivamente aproximou o braço do corpo.
— Eu me machuquei.
— Eu sei que a senhora é casada.
Ela parou.
Donal também.
— Seu marido está battendo na senhora?
— Não.
— Porque, se estiver, é só me dar uma foto dele que eu faço ele dar uma volta para nunca mais voltar.
Por um momento, Clarinda quase disse que era exatamente aquilo que queria.
Quase.
Mas não podia aceitar uma coisa daquelas. Não podia permitir que um aluno matasse Jackson e ainda corresse o risco de ser preso por causa dela.
— Foi só um acidente. Estou bem.
Eles chegaram ao carro.
Clarinda abriu a porta traseira, pegou uma cópia de Frankenstein e entregou a Dono.
— Na próxima aula eu pego os outros e distribuo para outros alunos.
Donal segurou o livro.
— A senhora tem a minha palavra de que todo mundo vai ler. Vou ajudar.
— Obrigada, Donal.
Ele ficou olhando para ela por alguns segundos.
— A senhora me trata bem. É boa gente. Por isso estou ajudando. E pode ficar tranquila que ninguém aqui vai ferir a senhora.
Clarinda sorriu .
— Precisa de uma carona?
— Não, professora. Tenho umas coisas por aí para resolver. Faço tudo a pé ou de moto.
— Então até a próxima aula.
— Até.
Clarinda entrou no carro.
Assim que pegou o celular, seu pequeno momento de tranquilidade desapareceu.
Havia pelo menos quinze chamadas de Jackson.
Quinze.
Ela ficou olhando para a tela por alguns segundos antes de colocar o aparelho de lado.
Não queria voltar para casa.
Ligou o carro e começou a dirigir, mas, no meio do caminho, mudou de direção. Encontrou um posto de combustível aberto e entrou. Estacionou em uma área iluminada, desligou o motor e permaneceu dentro do veículo.
Pouco depois, um frentista se aproximou e bateu levemente no vidro.
Clarinda abaixou um pouco.
— Está tudo bem, senhora? Ou senhorita... Não sei.
— Está tudo bem. Estou esperando uma amiga. Ela está vindo, mas só deve chegar ao amanhecer. Vou esperar aqui. Tem algum problema?
— Não. Mas, se quiser, estaciona um pouco mais para a frente. Ali é mais seguro. Eu vou trabalhar a noite inteira e posso ficar dando uma olhada no seu carro.
Ele fez uma pequena pausa.
— Se me der uma gorjeta.
Clarinda segurou a bolsa, abriu a carteira e entregou algumas notas para ele.
— Eu agradeço muito.
— Pode ficar tranquila. Estaciona ali que eu fico de olho.
Ela agradeceu novamente, ligou o carro e avançou até o lugar indicado.
Depois desligou o motor.
Pegou o celular.
Mais uma chamada de Jackson.
Clarinda deixou tocar até parar.
Naquela noite, ela preferia dormir dentro de um carro estacionado em um posto de combustível a voltar para casa e ficar perto do próprio marido.