Capítulo 06 - O Monstro (Parte 02)

1627 Words
- E isso não foi sua culpa. – ele afirmou, querendo desesperadamente tirar aquele olhar triste do rosto dela – Se eu estivesse mais atento, teria ouvido aqueles humanos antes e poderia ter tirado você dali mais cedo. - Mas nós dois estávamos à mesma distância deles. – ela afirmou, parecendo querer confortá-lo, mas também confusa sobre o que ele estava dizendo – Você não conseguiria ouvi-los antes de mim, Edward. Não se sinta culpado. Eu deveria ter me controlado mais... – ela fungou, desolada. Era quase risível como, tão ansioso quanto estava por conhece-la melhor naqueles últimos dias, ele não contara a ela aquele mero detalhe. E, pela primeira vez em sua vida, ele se sentiu tímido e temeroso sobre contar sobre seu dom. Na verdade, ele nunca realmente tivera que revelar aquilo para as pessoas antes: recluso desde seus primeiros anos de vida, jamais se mostrara necessário que ele contasse sobre isso para alguém. Mas, o que Bella acharia sobre sua estranha habilidade? - Bella, eu... – discretamente, ele engoliu em seco – Há algo que eu preciso contar... Sobre mim. Com os olhos arregalados, Bella pareceu momentaneamente temerosa, mas, ao invés de dizer o que estava em sua mente, ela simplesmente assentiu lentamente e permaneceu em silêncio, fazendo-o conter um grunhido. Será que algum dia sua mente silenciosa se tornaria menos frustrante? Provavelmente não. Mas aquela era apenas uma das muitas coisas que o fascinava sobre ela. Reunido coragem, ele tomou uma respiração profunda, antes de começar a falar. - Ainda não contei a você, mas... Alguns de nós, vampiros, depois de transformados, manifestamos alguns... Talentos, por assim dizer. Dons que vão além da força, velocidade, indestrutibilidade e imortalidade. - Que tipo de dons? – os olhos dela brilharam de curiosidade, arregalados de uma maneira tão fascinada que o fez rir. - Cada talento é único, até onde eu sei. – ele lhe contou – Carlisle tinha a teoria de que, talvez, isso tivesse algo a ver com as habilidades que se destacavam em nós quando ainda éramos humanos. Achava que o veneno poderia aprimorar não apenas nossos corpos físicos, mas também nossos talentos. - Você tem um dom? – ela perguntou, quase arfante, parecendo impressionada – Qual é? - Bem, sim... – ele engoliu em seco mais uma vez, com os ombros tensos como rochas – Escute... Eu sei que vai parecer loucura, mas... Eu leio mentes. – ele deixou a confissão escapar, imediatamente se retesando, aguardando a reação dela. De início, a expressão absolutamente horrorizada dela fez seu coração apertar. Por alguns milésimos de segundo, ele achou que havia chegado o momento em que ela o deixaria. Contudo, logo ele foi surpreendido mais uma vez quando ela arfou, literalmente em pânico. - Você estava lendo a minha mente esse tempo todo?! Seu choramingo desesperado era igualmente cômico e intrigante e, talvez com mais intensidade do que nunca, Edward quis saber o que já devia ter se passado pela cabeça dela para que estivesse tão aterrorizada por ele possivelmente ter escutado. Tanto que, ao vê-la olhar ao redor em absoluto pânico, ele instintivamente agarrou se pulso, com medo de que ela corresse para longe. O que será que havia de errado para deixa-la tão envergonhada? - Bella, tenha calma. – ele pediu, dividido entre um meio sorriso divertido e a curiosidade pela reação dela – Eu não posso ler a sua mente. Ao simples som daquela revelação, ela relaxou por completo, apesar de ainda restar um pouco de desconfiança em sua expressão. - Não está dizendo isso só para me consolar, está? - Não. – ele riu – Estou dizendo a verdade. Consigo ouvir os pensamentos de qualquer pessoa, desde que ela esteja a pelo menos alguns quilômetros perto de mim, a não ser os seus. E, acredite, pode ser muito frustrante às vezes. – ele suspirou, fingindo irritação. - Menos m*l. – ela sorriu, claramente aliviada, mas logo a curiosidade a dominou novamente e ela o encarou, intensamente interessada – Então você não consegue desligar? Ouve todos o tempo inteiro? - Sim, o que também pode ser bastante incômodo, na maioria das vezes. – ele deu mais um suspiro, agora enfadado – Por isso prefiro me manter isolado, ou geralmente tento ignorar a torrente de vozes quando estou perto das cidades. Quando não me concentro em uma em específico, se tornam mais um zumbido irritante do que qualquer outra coisa. - Parece estressante. - ela comentou, parecendo preocupada com ele. - Não se preocupe, tive bastante tempo para aprender a lidar com isso. – sorrindo gentilmente, ele tocou uma das têmporas – Atualmente, se tornou mais uma vantagem do que um problema. Me ajuda a saber quando um humano está por perto, ou quando ele está começando a desconfiar que há algo de errado comigo, ou quando preciso... – de repente ele mordeu a própria língua, furioso consigo mesmo pelo que estava prestes a dizer. E, obviamente, perceptiva e curiosa como sempre, Bella não deixou de perceber sua frase incompleta e, mesmo que temorosa, perguntou a ele. - Quando você precisa fazer o quê? – timidamente, ela inclinou a cabeça suavemente para o lado. - Esqueça. – ele tentou ansiosamente deixar o assunto de lado; por mais que ela já soubesse, admitir aquele tipo de perversidade era terrivelmente vergonhoso – Isso não importa mais agora. Parecendo triste com sua resposta, Bella desviou os olhos desapontados para o chão e um momento de silêncio se passou antes que ela falasse novamente, com a voz frágil e baixa. - Pode começar a ser sincero comigo, sabe? – ela mordeu o lábio, obviamente desconcertada, mas não havia sequer uma nota de ressentimento em sua voz – Prometo que sou confiável. E... Também sou sua amiga... Certo? – ela engoliu em seco, tão insegura que ele teve vontade de bater em si mesmo por ter colocado aquela expressão no rosto dela; ela realmente acreditava que ele estava evitando responder porque não a considerava digna de confiança? Por que a mente dela sempre ia por caminhos tão surreais e incompreensíveis? - É claro que confio em você, Bella, é só que... Não é o tipo de coisa sobre a qual quero conversar... Especialmente com você. - com um grunhido seco, irritado consigo mesmo por conta daquele deslize, ele finalmente esclareceu em voz baixa – O que eu quis dizer era que... Me ajudava quando eu precisava... Caçar. – ele se explicou, fazendo questão de colocar aquele verbo no passado, mas a última palavra saiu quase como um rosnado contido, cheio de repulsa por si mesmo, especialmente diante do olhar de Bella – Mas não se preocupe com isso. Agora não importa mais. E... É claro que você é minha amiga. – ele sorriu timidamente para ela. Por mais que houvesse uma parte primitiva que quisesse nada mais do que lutar para torna-la sua parceira, ele não sucumbiria àqueles desejos egoístas. Bella merecia infinitamente mais do que ser assediada por seu único amigo naquela nova vida. Ele sem dúvidas teria que se acostumar com o fato de que sua amizade e confiança eram as maiores dádivas que poderia ter. Seu amor, por outro lado, era inacessível para um homem como ele, sem dúvida. Ele sabia perfeitamente disso. E é claro que ele seria forte o suficiente para permanecer satisfeito sendo apenas amigo de Bella, como um cavalheiro. Certo? - Então... – o estonteante e carinhoso sorriso que Bella lhe deu o tirou completamente de seus pensamentos turbulentos, tornando-o apenas deslumbrado – Acho que nós dois precisamos caçar agora, certo? O jeito animado como ela disse aquilo, como se eles fossem duas crianças prestes a partir em uma aventura, provocou uma risada tranquila em Edward. Sim, ele estava chegando em um limite perigoso de dias com sede, mas a presença de Bella era capaz de fazê-lo esquecer até mesmo o crescente incômodo da sede naqueles últimos dias. De fato, mesmo inconscientemente, ele havia abdicado do sangue humano assim que ela surgira em sua vida. E agora, havia uma alegria e expectativa tão puras e enervantes em saber que eles poderiam caçar juntos, em parceria, que ele se pegou sorrindo para ela também, sentindo-se surpreendentemente leve. Era quase chocante como a aceitação dela tirara dele um peso enorme dos ombros. De fato, há muito tempo, ele havia esquecido como era se sentir em paz. Contudo, ao olhar para ela, não havia outra maneira de descrever como ele se sentia. Conhecendo a si mesmo, em breve seus muitos fantasmas voltariam para assombrá-lo e roubar-lhe aquele leveza, mas, enquanto isso não acontecia, ele aproveitaria aquele sentimento extraordinário – a felicidade de estar ao lado dela e apenas se permitir viver o momento. Com um sorriso satisfeito, que, como já esperava, fez Bella ficar um pouco de boca aberta, ele brincou, divertidamente. - Sim, nós dois precisamos caçar. Mas nada de cervos dessa vez. – ele fez uma careta de novo, provocando-a - Chegou a hora de eu lhe apresentar aos prazeres do sangue de um carnívoro. - Você às vezes é tão convencido... – ela fez uma careta divertida de volta para ele, mas, para sua total surpresa, também estendeu a mão temerosamente, oferecendo-a a ele. Por um milésimo de segundo, ele apenas permaneceu paralisado, preso no júbilo e no choque de Bella querer andar de mãos com ele, mesmo depois de tudo o que acontecera naquele dia. E, mesmo sabendo que havia uma grande possibilidade de que ela um dia percebesse o erro que era desperdiçar sua companhia ao lado dele e simplesmente deixa-lo para trás, foi com um grande sorriso, e um arrepio de prazer ao sentir a maciez da pele fria, que Edward cobriu a mão dela gentilmente. E sua parte esperançosa orou para que nunca tivesse que soltá-la.
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