– Eu tinha 17 anos quando contraí a Gripe Espanhola, em 1918.
Com um suspiro pesaroso, ele evitou o olhar dela, enquanto continuava - Não tenho muitas memórias anteriores a essa época, a não ser que era muito próximo à minha mãe humana e que estava ansioso para ter idade o suficiente para ir para a Grande Guerra. Queria ser um dos heróis que eles tanto pintavam na época. – ele não pode deixar de rir sombriamente com a ironia do fato de que um monstro como ele um dia tinha desejado ser um herói – Mas não tive tempo de sequer completar a maioridade. A pandemia condenou não só a mim, mas também meus pais. Meu pai se foi primeiro. Não me lembro muito dele e não somente porque as lembranças humanas costumam se esvair com o tempo, se não nos esforçamos para preservá-las. Acho que era porque ele não passava muito tempo em casa. Era um advogado de sucesso. – ele narrou tranquilamente, perfeitamente consciente de que estava dando detalhes sem importância, apenas para postergar aquele momento, apesar da face concentrada e interessada de Bella. – Me lembro um pouco melhor da minha mãe. Éramos parecidos, especialmente na aparência. Os mesmo cabelos rebeldes e de cor estranha... Os mesmo olhos verdes... – enquanto percorria as lembranças extremamente turvas e agridoces em sua mente, um sorriso acabou surgindo em seu rosto conforme se recordava da face indistinta de sua mãe humana. Ele vira um pouco dela através das lembranças de Carlisle também, mas tinha a impressão de que aquelas feições moribundas e abatidas, em seus últimos dias de vida, não faziam jus a quem ela havia sido verdadeiramente.
- Seus olhos eram verdes? – Bella perguntou, parecendo quase encantada.
- Foi o que eu ouvi. – Edward sorriu tristemente diante da reação dela – Apesar das lembranças estarem se esvaindo com o tempo, quero tentar manter as recordações sobre a minha mãe vivas... O nome dela era Elizabeth. – ele suspirou pesadamente - Ela doou a própria saúde para tentar me manter vivo no meio de todo aquele caos. Não teria piorado tanto se não tivesse deixado de cuidar de si mesma para cuidar de mim... Mas não adiantou. Nós dois nos tornamos moribundos em pouco tempo. Parecia não haver mais salvação para nós... Mas ela ainda tinha uma última esperança...
Após alguns instantes de silêncio, em que nenhum dos dois sequer respirou enquanto Bella permanecia observando-o com expectativa, ele finalmente se resignou o suficiente para voltar a falar – No hospital em que estávamos havia um médico... Seu nome era Carlisle Cullen. – a mera menção a seu pai imortal, especialmente enquanto ele estava sendo observado por aquela mulher tão encantadora, quase o deixou paralisado pela onda de culpa que o tomou: como ele podia sequer estar sendo tão egoísta a ponto de querer continuar usufruindo da companhia dela, quando ele não era nada mais do que um traidor do estilo de vida do homem que não fizera nada além de acolhe-lo e considera-lo um filho...?
- O Dr. Cullen é um vampiro?! – o arfar perplexo de Bella o tirou de seus devaneios e, foi com igual surpresa, que ele se deu conta do porque ela parecia tão pasma.
- Você o conhece? – ele perguntou, em choque.
- Ele é médico em Forks. – Bella contou, ainda completamente surpresa, ao mesmo tempo em que algumas peças pareciam estar se juntando em sua mente – Ele me atendeu algumas vezes quando tive alguns... Acidentes. – ela murmurou envergonhada, mas logo completou, antes que Edward pudesse fazer qualquer pergunta – Eu costumava ser um pouco... Desastrada. Mas isso não importa. – ela negou com a cabeça veementemente – Agora entendo porque ele tinha a pele tão fria e porque ele e os filhos eram tão bonitos e misteriosos...
- Filhos? – Edward sentiu um pequeno sorriso se formar em seu rosto – Ele e Esme conseguiram construir uma família?
- Você não os conhece? – Bella parecia mais surpresa do que nunca – Não conhece Rosalie, Alice, Emmett e Jasper?
- Não. – ele suspirou tristemente, mais envergonhado do que nunca – Eu... Bem... Posso ter sido o primeiro filho deles, mas não fiquei por perto por muito tempo. – Edward desviou o olhar do dela, sabendo que deveria parar de fugir do assunto e finalmente ser honesto com ela – Na época em que fui criado, minha mãe tinha percebido que havia algo especial em Carlisle. Então, ela pediu a ele que me salvasse. Carlisle era um vampiro com quase três séculos na época. Por anos procurara por uma companhia, mas, quando não a encontrou, começou a se perguntar se não poderia criar uma por si mesmo. O pedido de minha mãe o fez me escolher, já que naquela mesma noite eu me tornei órfão. Estava completamente sozinho e minha vida humana não tinha mais salvação. Por isso, ele tomou sua decisão. E me transformou.
- Ainda m*l posso acreditar que o Dr. Cullen é um vampiro... – Bella sussurrou depois de um longo momento de silêncio, enquanto Edward ainda estava renuindo forças para voltar a falar – Eu... Eu pensei que era difícil para os vampiros ficarem... Tão perto dos humanos. – ela refletiu lentamente – Como ele conseguiu... Se tornar um médico?
- Como eu disse, Carlisle viveu por muito tempo. – um sorriso carinhoso e triste surgiu naturalmente no rosto de Edward – E, essencialmente, ele é um homem admirável. Desde o primeiro segundo em que abriu os olhos para essa nova vida, não quis machucar nenhum ser humano, assim como você. – o sorriso se ampliou ainda mais – Ao longo dos anos, ele foi desenvolvendo cada vez mais sua capacidade de resistir à tentação do sangue humano, até o ponto de conseguir cursar a faculdade de medicina e fazer procedimentos como cirurgias. Pouco mais de 70 anos atrás, quando eu o deixei, ele era praticamente imune ao desejo por sangue humano e capaz de estar ao redor de dezenas de humanos feridos sem nem sequer se lembrar que tinha sede.
- Isso parece incrível... – ele esperou que ela continuasse, conforme seus olhos se iluminavam com fascínio, mas os segundos se passaram e ela não lhe deu qualquer acesso aos muitos pensamentos que pareciam estar povoando sua mente naquele momento, até finalmente perguntar – Por que... Por que você foi embora? Quer dizer... – aquele era talvez o momento em que Bella estivera mais envergonhada em frente a ele – Por que não ficou com a família Cullen?
Por um momento, Edward se permitiu apenas olhar para ela. Por mais que sempre soubera que aquele momento chegaria em breve, uma parte dele ainda estava ressentida por ter chegado tão rápido. Era dolorosamente óbvio como ele não tinha direito de estar ao lado dela, mesmo que os dois fossem da mesma espécie. Durante anos, ele achara que aquela meia-vida roubava almas, transformando seres humanos, como ele fora um dia, em monstros sombrios e sanguinários, como o que ele era agora. Mas Bella era uma exceção. Ela era como um raio de luz na noite mais escura. Na verdade, ela era como a mais pura claridade. Resplandecente.
Naqueles últimos dias, ela havia iluminado tanto sua meia-noite eterna que ele até mesmo tinha se esquecido como era sensação... A consciência de ser um monstro.
E, agora, estava na hora de voltar para a escuridão.
Sentindo a agonia começar a dominá-lo de maneira quase opressiva, Edward se questionou se aquela sensação excruciante vinha do desespero de logo ter que estar sozinho naquela existência sangrenta novamente, ou se era a certeza de que Bella o desprezaria assim que soubesse sobre sua dieta.
Ou, talvez, a dor viesse da destruição daquela ideia ridícula que sua mente... A fantasia maravilhosa, e ao mesmo tempo impossível, de que talvez... Apenas talvez... Existisse uma pequena possibilidade de que ele pudesse ter a companhia dela para sempre. De que ela retribuísse aquele sentimento crescente dentro do peito dele – o mesmo sentimento que ele nem sequer tivera coragem de nomear ainda...
A fantasia de que um dia ele e Bella, aquele puro raio de luz, pudessem ser companheiros.
Era amargamente risível. Era ridículo.
E, principalmente, era impossível.
Mas ele ainda queria contar tanto a ela... Ainda havia algumas coisas que ela não sabia sobre vampiros... Poucas, sem dúvida, mas, ainda assim... E também havia o pai dela. Era queria ajuda-lo. Queria se certificar de que Bella poderia ter alguma tranquilidade em meio à sua imortalidade. É claro, ele poderia fazer aquilo longe dela, mas ainda havia tantas coisas que os dois poderiam fazer juntos...
E lá estava ele de novo, procurando desculpas para mantê-la com ele.
Procurando maneiras de manter a claridade em meio às suas sombras.
Estava na hora de permitir que Bella soubesse que estava ao lado de um monstro. E, principalmente, permitir que ela se afastar dele.
Com um último olhar para o rosto confuso dela, – o rosto mais bonito e encantador que ele já vira em toda a sua existência – ele finalmente se resignou com um suspiro, sabendo que agora aquela existência passaria de torturante para absolutamente insuportável.
Não havia como voltar a suportar a escuridão, depois de experimentar a beleza da luz.
- Durante alguns anos, eu e Carlisle vivemos como pai e filho. Ele me apresentou ao sangue animal e à toda sua filosofia de vida... Me ensinou sobre bondade e sobre proteger a vida humana... Porém, alguns anos depois dele ter encontrado Esme e os dois terem se apaixonado... Eu... Eu comecei, estupidamente, a me ressentir de que ele restringia meu apetite, me privando do prazer do sangue humano do qual todos os outros vampiros usufruíam desde sempre. Então, eu... Abandonei os dois. Me desgarrei de nossa família... E passei a matar humanos.
No segundo em que conseguiu forçar a confissão para fora de sua garganta, – falando-a de maneira tão veloz que ela não teria conseguido entender se ainda tivesse ouvidos humanos – Edward sentiu seu corpo tornar-se de pedra, enquanto aguardava a reação de Bella às suas palavras. E, ao vê-la arregalar os olhos em choque, ele percebeu que, impossivelmente, o tormento de tê-la desprezando-o era infinitamente mais potente do que ele previra. Contudo, conforme os segundos se passaram e ela apenas desviou o olhar para o chão, parecendo triste, Edward foi ficando cada vez mais tenso e apavorado, sem entender o que ela estava fazendo. Onde estavam os gritos, a explosão? A óbvia repulsa? O que ela estava esperando para expulsar um monstro como ele de sua vida?
- É por isso que você nunca caça comigo? – foi somente o que ela disse, por fim; o que não deixou de pegá-lo completamente de surpresa.
É claro que ela havia percebido. Bella era talvez uma das pessoas mais observadoras e perspicazes que ele já conheça. Obviamente ela não deixaria aquilo passar e, provavelmente, também devia estar querendo perguntar aquilo a ele desde o primeiro dia, já que a curiosidade era clara em sua voz. Desolado, ele sentiu um buraco se formar em seu peito, enquanto os poucos e preciosos minutos que ainda tinha com ela se esvaiam diante dele.
- Sim. – ele admitiu com um sussurro, a voz quase sufocada.
- Oh. – Bella disse simplesmente e, ao invés de começar a gritar sobre como ele era hediondo e monstruoso, conforme Edward esperava, ela apenas o olhou ainda mais fixamente, agora parecendo preocupada – Você deve estar com muita sede. Nunca vi você beber nada. – agora ela estava definitivamente preocupada – Pode ir para a cidade caçar se quiser. Vou esperar aqui.
Pasmo, ele apenas pode continuar ali, petrificado, aguardando pela explosão que, conforme os segundos foram se transformando em longos minutos, ele finalmente se deu conta de que não viria. O que, mais do que qualquer reação que ele imaginou que ela poderia ter, o pegou de surpresa. Porque ela parecia tão calma, tão...?
Compreensiva?
- Você me ouviu? – ele questionou, exasperado, mas, principalmente, incrédulo – Eu não sou como você, Bella. Eu não caço animais. Desde que deixei Carlisle e Esme, escolhi caçar apenas humanos... Machucá-los e mata-los. – as palavras passaram por sua língua com um gosto amargo, soando quase como um choramingo.
Bella engoliu em seco e se encolheu, assustada – Você... Faz com eles o que... Aquele vampiro fez comigo? – a voz dela saiu fraca, quase quebradiça.
O tom magoado dela o atingiu de maneira mais forte do que ele imaginara e, perturbado, ele ansiosamente tentou se explicar, ainda que debilmente – Não... Eu procuro não ser tão... Sádico. – ele conteve um rugido diante da mera lembrança da transformação de Bella – Geralmente sou rápido. E tento escolher... Assassinos, torturadores, psicopatas... Sei que sou um monstro, mas ainda assim não quero ter sangue inocente nas mãos. – ele resmungou mais para si mesmo do que para ela, sabendo que aquela explicação pobre dificilmente seria o suficiente para Bella: por mais que ele quisesse se colocar como, ainda que minimamente, diferente do ser hediondo que a condenara àquela não-vida miserável, era um esforço ridículo. No fundo, ele e Laurent eram iguais. E, sem dúvida, agora seriam também iguais aos olhos de Bella.
Sentindo a vazio em seu peito pulsar como uma ferida maltratada, ele esperou por sua repulsa iminente.
Porém, como sempre ela o surpreendeu.
Pois um pequeno sorriso doce, cheio de simpatia, surgiu no rosto dela e Bella balançou a cabeça, visivelmente aliviada.
- Isso é ótimo. – o sorriso dela aumentou quando ela o olhou diretamente – Obrigado por me explicar isso. Agora, acho que você realmente deveria ir caçar. – ela olhou para o céu acima deles, onde o sol começava a se pôr no horizonte – Não se preocupe. Vou esperar você aqui, como das outras vezes.
Por um segundo, ele se perguntou se vampiros podiam delirar. Talvez essa fosse a explicação para porque ela parecia tão calma e compassiva após ele revelar que bebia sangue humano, que ceifava vidas como o maldito vampiro que a atacara e a transformara. Sim, certamente aquilo deveria ser apenas sua imaginação, tentando confortá-lo. Senão, qual era a outra explicação?
Por que ela ainda estava ali com ele?
- Você... Você quer que eu volte para cá? – foi tudo que ele conseguiu perguntar, com a voz baixa e incrédula.
- Hã... Sim. – Bella inclinou a cabeça, confusa – Ou nós vamos caminhar mais quando você voltar?
- Como... Como pode estar tão calma? – ele a questionou, agora profundamente perturbado – Eu mato humanos para beber o sangue deles. Não entende isso?
- Eu entendi. – Bella respondeu devagar, parecendo assustada e preocupada enquanto o encarava – É o que a maioria dos vampiros fazem, certo? Eu e o Dr. Cullen somos uma exceção, não? Você achou que eu ficaria com raiva de você? – ela concluiu, tristemente surpresa – Edward, não há porque eu me ressentir por você não querer tomar as mesmas decisões que eu. Posso não querer machucar as pessoas, mas não posso te obrigar a fazer o mesmo. Nunca ficaria com raiva de você por simplesmente ser um vampiro normal. – ela deu um pequeno sorriso tranquilizador – Está tudo bem.
- Tudo bem?! – ele exclamou, agora quase possesso – Como o fato de eu ser um monstro pode estar bem?
- Você não é um monstro. – ela respondeu, surpresa, mas também parecendo tão irritada quanto ele.
- Sim, tem razão, talvez eu seja até pior. – ele riu com escárnio – Durante anos, persegui monstros. Conheço suas mentes e do que são capazes. Mas eu ainda fui aquele que ceifei suas vidas para conseguir colocar seu sangue dentro de mim. – o rugido baixo fez seu peito tremer de ódio e repulsa por si mesmo – Qual a diferença entre eles e eu, então? Vidas são vidas. E o vermelho nos meus olhos veio das deles. Sim, eles não eram inocentes. Mas o que é um ser que se alimenta de monstros e se utiliza deles para sobreviver, se não um monstro também? – sua voz, antes colérica, foi se tornando baixa e resignada. Por mais doloroso que fosse para ele dizer aquelas verdades, infelizmente Bella precisava ouvi-las para dar-se conta do que ele realmente era – Sem dúvida o pior monstro de todos: aquele que tem uma parte da maldade de todos os outros dentro de si. Bebi cada gota do sangue deles e agora são parte de mim. Posso sentir isso toda vez que caço. Toda vez que vejo o vermelho dos meus olhos. Não percebe, Bella? – ele tentou reunir coragem o suficiente para olhá-la diretamente, mas não conseguiu, permanecendo com o olhar cravado no chão – Não sou digno de estar perto de alguém como você, assim como não fui digno de continuar sendo o filho de Carlisle e Esme. Vocês não merecem estar na presença de alguém tão terrível quanto eu.
Alguns minutos tensos de total silêncio se passaram, como se nem mesmo o vento ousasse se intrometer no diálogo deles naquele momento. Por fim, Bella falou novamente, com a voz soando como nada mais do que um sussurro, mas ainda assim determinada e inabalável.
- Você está errado. – ela afirmou e ele podia dizer que ela estava procurando seu olhar – Você não vê, Edward? Está se sentindo dessa maneira porque se importa com as vidas deles, porque se sente culpado por tirá-las. – o óbvio sorriso e o carinho na voz dela o deixaram igualmente emocionado e agitado – É claro que você não é m*l como diz. Se fosse, jamais teria me ajudado e eu estaria morta agora.
- Isso é diferente! – ele argumentou, exasperado.
- É? – ela perguntou ceticamente - Porque me ajudou então?
Nervoso, ele engoliu em seco. Aquela conversa, como sempre acontecia quando se tratava de Bella, estava indo por caminhos completamente surpreendentes e imprevisíveis. Talvez ela fosse mais parecida com Carlisle e Esme do que ele imaginara. Ao invés de repeli-lo, ela estava tentando convencê-lo de que ele estava errado sobre si mesmo.
E por que havia uma parte dele tão tentada a acreditar nela?
Talvez porque, se ele realmente não fosse um monstro, poderia continuar ao lado dela. Talvez até mesmo para sempre.
E não havia uma única célula do corpo dele que não ansiasse por estar com Bella.
Uma pena que ela estava errada.
- Eu nunca tinha sentido com ninguém o que senti quando vi você pela primeira vez, Bella. – ele decidiu ser sincero com ela; por mais que aquelas palavras expusessem demais sentimentos sobre os quais nem mesmo ele tinha se permitido refletir ainda, era necessário que ela entendesse que o que ele fizera fora uma exceção e não uma regra – Quando vi o que ele estava fazendo com você e ainda queria fazer... Nunca tinha sentindo tanto ódio antes. Nem experimentado um instinto protetor como aquele. Você compreende? Não foi a minha bondade... – a última palavra parecia tão patética que deixou um gosto azedo em uma língua quando ele a disse – Que me levou a interferir. Foi esse instinto... Essa sensação que eu sequer sei nomear... – Edward lutou para se expressar – Essa necessidade instantânea que tive de proteger você... Como se uma parte minha soubesse, desde sempre, que eu jamais poderia deixar nada te machucar, mesmo antes de saber que você existia. – ele finalmente se interrompeu, quase tímido, pela quantidade de coisas intensas e íntimas que havia revelado até ali – Tudo isso teve a ver exclusivamente com você. Com ninguém mais.
- Acredito em você. – ela murmurou depois de um momento, parecendo igualmente constrangida – Eu sei como é... A sensação. – a voz suave disse aquilo tão baixo que ele se perguntou se ela realmente queria que ele escutasse – Mas isso não prova que está certo sobre você mesmo. – ele estava pronto para voltar a argumentar, quando ela continuou a falar, determinada – Me diga: acha que os homens que matou... Os assassinos e maníacos... Se sentiam como você se sente? Acha que tinham remorso? Que se afastavam das famílias por não se acharem dignos de estarem com elas? Que eles chamavam a si mesmos de monstros?
Empertigado, Edward abriu e fechou a boca várias vezes, tentando encontrar um argumento que a respondesse diretamente sem fugir do assunto. Por fim, ele apenas cruzou os braços sobre o peito e grunhiu, contrariado.
- Eu sei que não. – realmente não havia como ele argumentar quanto àquilo – Mas isso ainda não muda nada. A culpa ainda está comigo, independente se eu a percebo ou não.
- Está errado de novo. – ele percebeu que aquele tom vitorioso havia voltado para a voz de Bella, como se ela tivesse ganhado dele mais uma vez – Isso definitivamente muda tudo. Se você se sente culpado, pode se arrepender. Se pode se arrepender, pode passar a fazer o que acha certo. – ela o encorajou e o brilho ofuscante de esperança que ele viu em seus olhos, quando finalmente teve coragem o suficiente para fita-la, foi suficiente para fazê-lo engasgar – Eu sei que talvez seja muito difícil, pelo que você sempre me conta sobre sangue humano, mas... Você já se alimentou só de animais antes, não foi? Por que não tenta de novo? Sei que sou muito nova nisso, mas... Podemos nos ajudar. – ela lhe lançou um sorriso tão gentil e luminoso que ele se sentiu momentaneamente desnorteado – Se você acha que é um monstro porque bebe sangue humano, então pode parar. Não precisa continuar a se sentir desse jeito.
A maneira simples e ainda assim determinada como ela disse aquilo, como se ele fosse capaz de fazer tudo o que quisesse e deixar o passado para trás, momentaneamente o encheu de esperança. Ele podia se imaginar tendo aquela vida com ela: voltando a se alimentar apenas de animais, voltando a ter olhos dourados e novamente podendo andar entre os humanos sendo mais do que uma sombra sorrateira. Ele poderia levar Bella para conhecer o mundo, visitar as paisagens que inspiraram suas histórias favoritas, descobrir coisas novas juntos... Talvez eles até mesmo poderiam visitar Carlisle e Esme algum dia e conhecer a família que eles haviam formado.
E, talvez, ele também pudesse explicar a ela sobre o que eram parceiros. A intensidade do sentimento imortal que transcendia o que os humanos chamavam de amor. O laço de parceria e companheirismo mais inquebrável de todos. Um sentimento tão indescritível que era capaz de modificar até pedras vivas, como ele.
Um monstro não era digno daquele tipo de milagre, sem dúvida. Mas, se ele pudesse ser apenas um homem novamente, mesmo que imortal...
Quem sabe ele pudesse se tornar um ser digno de ser o companheiro de Bella.
A onda devastadora de sentimentos que o percorreu quando aquele pensamento tomou forma foi tão intensa que o fez voltar à realidade. O que ele estava pensando afinal? Havia quase 70 anos de sangue em suas mãos. Ele jamais poderia voltar a ser digno de qualquer coisa, muito menos de alguém tão extraordinária quanto Bella. Balançando fortemente a cabeça para dissipar aquelas fantasias sublimes e ridículas, ele trincou os dentes, antes de responde-la.
- Eu já fui longe demais, Bella. Não há como voltar atrás agora.
- Por que não? – ela praticamente rugiu para ele, deixando claro o quanto ele a estava perturbando.
- Mesmo que eu tente voltar à minha antiga dieta... Mesmo que eu não mate mais... – ele engoliu em seco, tentando controlar um soluço – Nada disso vai apagar tudo o que eu já fiz. Alguém que já tirou tantas vidas quanto eu jamais teria redenção.
- Isso não é sobre apagar o passado, Edward. - Bella argumentou, quase desesperada – É sobre construir um futuro. Todo mundo que procura redenção cometeu algum erro, não percebe? Mas só vai conseguir colecionar mais motivos para se martirizar, se não decidir mudar o presente. – ela exclamou, aproximando-se ainda mais dele.
Paralisado pelos sentimentos confusos e antagônicos que o dominavam, ele apenas a encarou, desnorteado.
- Não sei mais se sou capaz. – ele murmurou, por fim.
- É claro que você é. – Bella sorriu, andando o último passo de distância que os separava e colocando a mão em sua bochecha, em um gesto reconfortante – Você me salvou uma vez... – ela sorriu docemente, colocando a outra mão sobre seu peito, bem em cima de seu coração silencioso – Pode salvar a si mesmo também.
Engolindo com dificuldade, ele permaneceu paralisado naquela posição, com as mãos dela sobre ele, enquanto os pensamentos se digladiavam como lâminas em sua mente. Céus, havia uma parte dele que desejava ardentemente que ela estivesse certa. Que ele poderia sair daquela realidade sombria e fazer parte de um mundo iluminado como o de Bella. Estar ao lado dela e abandonar a agonia que o perseguira todos os dias naquelas últimas décadas. Ainda assim, era tão difícil abandonar as memórias: nítidas e perfeitamente vívidas em sua mente sem falhas, elas eram provas indiscutíveis de sua monstruosidade. Era quase impossível acreditar que elas não cobrariam seu preço algum dia. E, principalmente, era difícil acreditar que ele mereceria qualquer tipo de piedade – e muito menos de felicidade – depois de ter feito tudo aquilo. Ele tivera certeza daquilo durante tanto tempo...
Então porque ele se sentia tão esperançoso quando olhava para os olhos dela daquela maneira? Como se tivesse estado errado o tempo todo? Como se verdadeiramente tudo fosse possível?
Ele estava mais certo do que nunca de que Bella era como a mais luminosa claridade.
Mas seria ele capaz de entrar no mundo dela também? Ela poderia realmente aceita-lo? Ou ele que acabaria por maculá-la, levando-a para sua escuridão, como já fizera quando não conseguira salvar sua vida humana?
Ele estava disposto a aceitar esse risco?
Confuso, indeciso e ardendo na agonia agridoce que o medo e a esperança haviam lhe trazido, ele colocou a mão sobre a de Bella, sem realmente saber se queria afastá-la ou apenas trazê-la para mais perto.
- Bella, eu...
Espero que tenha sido um urso ou coisa assim. É mais impressionante do que uma árvore queimada. Garantia de mais curtidas.
Trincando os dentes, ele virou a cabeça para o lado, reconhecendo o som dos pensamentos há poucos quilômetros dali. Eram altos, quase estridentes. Dois campistas despreocupados, em busca de paisagens atraentes para uma boa foto nas redes sociais. Ainda não estavam perto o suficiente para que Bella tivesse sentido seu cheiro, especialmente não quando o vento estava a favor deles, mas aquilo poderia mudar em breve. E, por mais que Bella tivesse um autocontrole notável, ela certamente jamais seria capaz de resistir ao cheiro de sangue humano com apenas 04 dias naquela nova vida...
Céus, eles precisavam sair dali imediatamente, antes que...
Não, ele não a deixaria fazer aquilo. Certamente a destruiria.
- Bella! – ele arfou, em pânico, agarrando seus ombros e começando a empurrá-la para longe, o que obviamente a fez se retesar, permanecendo no lugar – Você tem que sair daqui! Depressa!
- Eu não vou a lugar nenhum, Edward! – ela grunhiu, batendo o pé com tanta força na terra que algumas pequenas rochas ao redor pularam – Você tem que entender que...
- Não, Bella, você não entende! Temos que ir! – absolutamente desesperado, ele a pegou no colo repentinamente, colando o rosto dela em seu peito, esperando que aquilo pudesse abafar o perfume do sangue quente ali perto, mesmo sabendo que aquilo seria impossível.
- Edward! O que você está fazendo? – ela arfou, incrédula, quando ele começou a correr o mais rápido que podia.
- Há humanos por perto. – ele respondeu, tentando afastar-se do cheiro enquanto o vento ao redor deles uivava por conta da velocidade, instável – Eu sinto muito, Bella. Eu deveria ter estado mais atento. Poderia tê-los ouvido antes se não estivesse tão distraído...
- Humanos? – assustada, ele a viu erguer um pouco a cabeça para encará-lo – Mas eu achei que humanos tinham um perfume irresistível. Eu nem sequer senti o cheiro de nada fora do comum...
E, de repente, lá estava. Não era nada mais do que uma nota quente trazida pela brisa c***l que decidira ficar contra eles naquele exato momento, mas ainda assim era concreto e sedutor, como uma carícia quente. Foi quando ele se deu conta de que o destino é que fora verdadeiramente c***l. Em pânico, ele avistou, pela mente de um dos campistas, o corte na mão de seu colega, feito após ele escorregar e tentar se segurar em uma pedra pontiaguda, vertendo sangue fresco.
Aterrorizado, ele viu Bella inspirar o ar profundamente, enquanto seus olhos se tingiam de um preto sedento e seus lábios se repuxavam sobre os dentes, expondo os caninos úmidos de veneno.