Capítulo 14

680 Words
— Não. A resposta saiu imediatamente. Sem dúvida. Sem hesitação. Os olhos de Ícaro permaneceram presos nos meus por alguns segundos enquanto minha respiração continuava completamente desregulada pela proximidade dele. A mão tatuada ainda segurava meu queixo com firmeza e eu conseguia sentir a tensão atravessando cada parte do corpo dele. Como se aquela resposta tivesse mexido mais do que ele gostaria de admitir. O maxilar dele travou discretamente antes de soltar meu rosto devagar. Então desviou os olhos. Foi rápido. Mas eu percebi. Percebi porque conhecia Ícaro melhor do que qualquer pessoa um dia conheceu. Aquilo aliviou ele. Meu peito apertou imediatamente. — Onde você estava esse tempo todo, Ícaro? A pergunta saiu baixa enquanto eu observava ele caminhar lentamente pela sala enorme. O silêncio caiu outra vez. Pesado. Ícaro pegou outro copo de whisky servindo a bebida calmamente antes de responder sem olhar pra mim: — Eu me chamo Zuko agora. Arrepiei inteira. Porque a forma que ele falou aquilo parecia definitiva demais. Fria demais. Como se realmente tivesse enterrado o próprio passado. Ele virou o whisky de uma vez só antes de continuar: — O Ícaro morreu no dia que meu pai morreu… e eu fui tratado como traidor e assassino dele. A dor escondida naquela frase atingiu meu peito violentamente. Meu Deus. Passei anos imaginando o que aconteceu depois daquela noite… mas ouvir aquilo diretamente dele fazia tudo parecer ainda pior. — Eu nunca acreditei nisso — falei imediatamente. — Nunca acreditei que você matou seu pai. Ele soltou uma risada baixa completamente amarga enquanto caminhava até a janela novamente. — Mas todo mundo acreditou. A voz saiu carregada de ódio. Raiva antiga. Daquelas que apodrecem alguém por dentro durante anos. — Teu tio fez questão disso. Meu coração apertou mais forte. Então ele sabia. Sabia exatamente quem destruiu a própria vida. Ícaro permaneceu olhando a cidade por alguns segundos antes de continuar falando. — Aquela noite foi armada. Eu descobri tarde demais. Quando percebi já tinha homem me caçando pelo morro inteiro querendo minha cabeça. Fechei os olhos sentindo um arrepio atravessar meu corpo. Porque eu lembrava do caos daquela madrugada. Os tiros. Os gritos. O sangue espalhado pela chuva. — Eles quase me mataram naquela noite — ele continuou baixo. — Fui jogado praticamente morto fora do Rio por gente que ainda era leal ao meu pai. A garganta apertou imediatamente. Agora fazia sentido a cicatriz. O olhar frio. A transformação. Ícaro não apenas fugiu. Ele sobreviveu. E sobreviver muda qualquer pessoa. — Pra onde você foi? Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder: — Primeiro Paraguai. Depois Ásia. Meus olhos arregalaram discretamente. Ásia. Então era verdade. Aquele homem diante de mim realmente construiu uma nova vida do outro lado do mundo. — Eu passei anos aprendendo como o poder realmente funciona — ele falou calmamente enquanto girava o copo vazio entre os dedos. — Dinheiro. Arma. Droga. Influência. O morro é pequeno perto do que existe lá fora. A frieza na voz dele me assustava. Porque Ícaro antes era movido pela emoção. Mas Zuko… Zuko parecia movido apenas por estratégia. — E por que voltou agora? Dessa vez ele olhou diretamente pra mim. Os olhos escuros queimaram nos meus. — Porque tudo que era meu foi roubado. Meu coração disparou imediatamente. Ele se aproximou devagar outra vez. Lento. Intenso. Até parar bem na minha frente. — Roubaram meu nome. Mais perto. — Minha família. Mais perto. — Meu lugar. A respiração falhou quando a mão dele segurou lentamente minha cintura. Firme. Possessiva. Então ele abaixou o rosto ficando perigosamente próximo do meu. — E levaram você também. Meu corpo inteiro arrepiou. Porque o jeito que ele falou aquilo… Meu Deus. Parecia promessa. Parecia guerra. Ícaro — não… Zuko — fechou os olhos rapidamente como se estivesse lutando contra algo dentro dele. A mão apertou minha cintura com mais força antes de abrir os olhos novamente. E naquela hora eu percebi uma coisa assustadora: Ele voltou pro Rio disposto a destruir qualquer um que estivesse no caminho dele. Inclusive Lorenzo Navarro.
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