Lorenzo
O poder muda os homens.Mas no meu caso ele só revelou quem eu realmente era.
A fumaça do cigarro subia lentamente pelo quarto enquanto eu permanecia sentado na varanda da cobertura observando as luzes do morro ao longe. O Rio nunca dormia. Sempre tinha carro passando, música tocando ou alguém tentando sobreviver em algum canto daquela cidade maldita.
E no topo de tudo aquilo estava eu.
Lorenzo Navarro.
O homem que herdou o império da família Navarro depois da queda de Ícaro.
Soltei a fumaça devagar sentindo o gosto amargo do whisky ainda queimando na garganta enquanto observava a madrugada silenciosa. Lá embaixo a cidade parecia pequena vista daquela altura.
Mas eu sabia que aquilo era ilusão.
Porque o Rio engolia homens fracos sem dificuldade. E eu precisei aprender cedo demais a nunca parecer fraco.
As pessoas adoravam me comparar com Ícaro quando éramos mais novos.
Sempre ele.
Sempre o favorito.
O filho perfeito do grande chefe.
O herdeiro.
O futuro dono do morro.
Aquilo me irritava num nível absurdo.Porque não importava o que eu fizesse… nunca era suficiente enquanto Ícaro existisse.
Ele entrava nos lugares e naturalmente chamava atenção. Os soldados respeitavam ele. As mulheres olhavam pra ele. Até meu pai parecia admirar aquele desgraçado mais do que admirava o próprio filho.
E eu odiava isso.
Odiava profundamente.
Enquanto Ícaro recebia respeito sem precisar pedir, eu precisava conquistar cada pedaço do meu espaço na força. Cresci aprendendo que naquele mundo só existiam duas opções:
Ou você dominava…
Ou virava sombra de alguém.
E eu nunca aceitei viver na sombra dele.
Bebi mais um gole de whisky enquanto lembranças antigas atravessavam minha cabeça outra vez. Ícaro sempre foi impulsivo demais. Violento demais. Tinha fogo dentro dele e todo mundo conseguia enxergar aquilo.
Inclusive Kiara.
Meu maxilar travou imediatamente ao pensar nela.
Kiara…
Talvez essa tenha sido a única coisa que eu realmente quis só pra mim.
Porque desde a adolescência era impossível não olhar praquela garota. Linda. Inteligente. Diferente das outras meninas do morro que se jogavam em qualquer homem armado com dinheiro no bolso.
Ela tinha personalidade.
E isso me atraía.
Mas então Ícaro apareceu no caminho outra vez.
Claro.
Sempre ele.
Lembro perfeitamente da primeira vez que percebi que existia alguma coisa entre os dois. Os olhares escondidos durante os bailes, o jeito que ela mudava quando ele aparecia e principalmente a forma que Ícaro olhava pra ela.
Como se estivesse disposto a matar qualquer um que encostasse nela aquilo me consumia por dentro. Porque no fundo eu sabia.
Sabia que ela nunca me enxergaria do jeito que enxergava ele.
E não existe coisa pior pro ego de um homem do que perceber que perdeu antes mesmo da disputa começar.
Passei a mão lentamente pelo rosto tentando afastar aquelas memórias irritantes enquanto observava o reflexo da cidade no vidro da varanda.
Quando Ícaro desapareceu, tudo mudou.
O morro virou um caos depois da morte do tio. Meu pai assumiu o controle total da comunidade e pela primeira vez na vida todos começaram a olhar pra mim de forma diferente.
Sem Ícaro existindo… o caminho finalmente ficou livre.
E eu aproveitei cada oportunidade.
Aprendi rápido como o jogo funcionava. Fiz alianças. Ganhei respeito. Construí medo. Porque no final das contas era isso que mantinha homens poderosos vivos naquele lugar.
Medo.
Só que junto com o poder veio ela.
Kiara estava destruída depois do desaparecimento dele. Qualquer i****a conseguia perceber isso. Os olhos dela perderam brilho, ela parou de sorrir direito e começou a viver como se estivesse apenas sobrevivendo.
No começo tentei me aproximar devagar.
Sem pressão.
Sem forçar nada.
Ajudei a família dela financeiramente quando as coisas apertaram. Passei a proteger ela dentro do morro. Estava sempre presente.
E aos poucos ela foi deixando eu entrar.
Não completamente.
Nunca completamente.
Mas o suficiente.
Até hoje existe uma parte dela que não me pertence.
E eu sei disso.
Talvez o pior seja justamente isso.
Saber.
Porque homem nenhum gosta de sentir que divide espaço dentro da cabeça da própria mulher. Levantei lentamente caminhando até dentro do quarto enquanto observava a porta do banheiro fechada.Kiara estava estranha naquela noite.
Distante.
Mais nervosa que o normal.
Meu instinto gritava que alguma coisa estava errada.
E instinto no nosso mundo raramente falha.
Peguei o celular em cima da cama vendo várias mensagens relacionadas ao morro chegando sem parar. Problemas pequenos.
Cobranças. Negócios.
Rotina.
Mas minha atenção continuava voltando pra ela. Talvez porque nos últimos meses eu tenha começado a perceber coisas que antes fingia não ver.
Kiara me respeitava.
Cuidava de mim.
Dormia na minha cama.
Mas amor?
Aquilo era outra coisa.
E eu nunca tive certeza se ela realmente me amava. A pior parte é que acho que sei exatamente quem ela nunca esqueceu.
O nome dele ainda incomodava mesmo depois de anos.
Ícaro Navarro.
O fantasma da família.
O homem que desapareceu deixando perguntas demais.Meu pai sempre dizia que ele morreu naquela noite.
Mas no fundo…
Eu nunca acreditei completamente nisso também. Porque homens como Ícaro não morrem fácil.
Eles voltam.
E quando voltam… geralmente trazem destruição junto.