Zuko
Kenji saiu do escritório fechando a porta atrás dele enquanto o silêncio tomava conta da cobertura outra vez.
Continuei parado diante da enorme parede de vidro observando diretamente o apartamento dela do outro lado da avenida. A cidade brilhava abaixo dos meus pés, carros passavam pelas ruas iluminadas e o Rio seguia vivendo normalmente sem imaginar a tempestade que estava começando a nascer naquela noite.
Mas minha atenção estava presa em outro lugar.
Nela.
A cobertura continuava iluminada enquanto eu segurava a pasta entre os dedos observando novamente a fotografia de Kiara. Era estranho demais ver ela tão perto depois de tantos anos. Durante muito tempo minha mente tentou transformar aquela mulher apenas em memória.
Fracassei miseravelmente.
Porque bastou olhar pra ela outra vez e tudo voltou.
A saudade.
A raiva.
O desejo.
O ódio pelo jeito que tudo terminou.Soltei o ar lentamente enquanto meus olhos voltavam para varanda dela.Foi então que comecei a perceber movimentação dentro do apartamento. Uma silhueta masculina atravessou a sala primeiro.
Lorenzo.
Mesmo de longe eu reconheceria aquele desgraçado em qualquer lugar.
Meu maxilar travou na mesma hora.
O ódio veio instantâneo.
Violento.
Porque aquele filho da p**a estava vivendo a vida que deveria ser minha.
Minha família.
Meu território.
Minha mulher.
Os dedos apertaram a pasta com força enquanto eu observava ele caminhando pelo ambiente luxuoso completamente tranquilo sem imaginar que o homem que tentou apagar anos atrás agora observava cada passo seu.
Então ela apareceu.
Kiara surgiu alguns segundos depois caminhando lentamente pela sala enquanto prendia o cabelo ainda úmido do banho. A luz de um dos ambientes acendeu iluminando parte do rosto dela e por alguns segundos o tempo simplesmente desacelerou.
Linda.
Meu Deus.
Mais linda do que qualquer lembrança que carreguei durante anos. O vestido leve marcava o corpo dela enquanto andava distraída pela cobertura sem imaginar que eu estava olhando.
Sem imaginar que eu voltei, meu peito queimou forte. Porque naquele instante percebi uma coisa perigosa demais:
Eu ainda queria ela.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo sabendo que era errado.
Mesmo sabendo que aquilo podia destruir a guerra inteira antes dela começar.
Baixei os olhos lentamente para pasta em minhas mãos até encontrar o número do celular dela anotado na última folha.
Fiquei encarando aqueles números por alguns segundos.
Aquilo era loucura.
A parte racional da minha mente dizia pra deixar ela fora disso.Pra focar no plano.
Na vingança.
No morro.
Mas então meus olhos voltaram pra varanda iluminada dela outra vez.
E eu perdi completamente a vontade de ser racional. Peguei o celular devagar sentindo algo estranho apertar meu peito enquanto digitava o número.
Cada toque parecia mais pesado que o outro.
Até que a ligação começou a chamar.
Minha respiração ficou lenta.
Controlada.
Mas por dentro o caos já tinha começado.
Do outro lado da avenida vi Kiara pegar o celular em cima da bancada da sala. Ela olhou a tela confusa por alguns segundos antes de atender.
— Alô?
Fechei os olhos rapidamente ao ouvir a voz dela depois de tantos anos.
Merda.
Aquilo bateu forte demais.
Permaneci em silêncio apenas ouvindo a respiração dela atravessando a ligação enquanto observava ela caminhar lentamente pela sala.
— Quem tá falando?
Minha mão apertou o celular com força.
Ela ainda tinha o mesmo jeito quando ficava nervosa.
A mesma mania de andar devagar enquanto tentava entender as coisas.
Sorri sozinho observando cada movimento dela através do vidro distante.
— Se isso for brincadeira eu vou desligar.
Então finalmente falei.
Baixo.
Rouco.
Do jeito que sabia que ela reconheceria imediatamente.
— Ainda gosta de tomar banho quente quando está nervosa.
Do outro lado ela congelou na mesma hora.
Mesmo distante, consegui perceber o instante exato em que o corpo dela travou.
Meu peito apertou violentamente.
Porque nenhuma mulher nunca me olhou como Kiara olhava.
E talvez por isso eu nunca consegui esquecer ela de verdade.
Percebi quando a voz dela começou a tremer no celular.
Então ouvi minha voz saindo da boca dela depois de anos.
— Ícaro…
Fechei os olhos por poucos segundos
sentindo aquela única palavra destruir qualquer muralha que constroí dentro de mim durante todo esse tempo.
Porque o jeito que ela dizia meu nome ainda me quebrava inteiro.