Capítulo 4

994 Words
Zuko A noite caiu sobre a Barra da Tijuca trazendo consigo o brilho das avenidas movimentadas e o silêncio perigoso da cobertura de Ícaro Navarro. Do lado de fora, o Rio continuava vivendo normalmente, pessoas lotavam restaurantes luxuosos, carros importados cortavam as ruas iluminadas e a música alta escapava dos bares próximos à praia. Mas dentro daquela cobertura o clima era outro. Guerra. Ícaro permanecia sentado no enorme sofá preto da sala principal enquanto observava os relatórios espalhados sobre a mesa de centro. Rotas de armamento. Nomes de aliados. Comunidades rivais. Policiais comprados. Tudo organizado perfeitamente. Ele estudava o Rio como um predador observa território antes do ataque. O copo de whisky descansava entre seus dedos enquanto os olhos percorriam cada informação com calma absoluta. A expressão fria escondia o caos calculado acontecendo dentro da mente dele. Kenji entrou na sala alguns minutos depois segurando um tablet. — Consegui tudo que você pediu. Ícaro ergueu os olhos lentamente. — Fala. Kenji colocou o aparelho sobre a mesa mostrando fotos, mapas e movimentações financeiras. — Otávio aumentou o domínio nos últimos anos. Tá movimentando muita carga pelo porto e fechou aliança com dois complexos menores. Mas tem problema interno acontecendo. O olhar de Ícaro estreitou discretamente. Problema interno significava rachaduras. E rachaduras destruíam impérios. — Que tipo de problema? — Dinheiro sumindo. Soldados insatisfeitos. E teu primo tá fazendo merda. Aquilo chamou sua atenção imediatamente. — Lorenzo? Kenji assentiu. — Teu primo tá se achando dono do mundo. Gastando demais, mexendo com mulher errada e criando atrito com outras comunidades. Ícaro encostou lentamente no sofá enquanto um sorriso frio surgia no canto da boca. Lorenzo sempre foi impulsivo. Fraco emocionalmente. O tipo de homem que se perde quando recebe poder cedo demais. Diferente dele. — Continua. — O morro tá forte por fora. Mas por dentro… — Kenji deslizou outra foto na tela — …já começou a apodrecer. Ícaro observou a imagem em silêncio. Homens armados discutindo numa viela. Expressões tensas. Desconfiança. Perfeito. Ele sabia exatamente como aquilo terminava. Porque foi assim que o tio derrubou o próprio irmão anos atrás. Criando divisão antes do golpe final. O telefone da cobertura tocou no mesmo instante. Kenji atendeu rapidamente e depois olhou para Ícaro. — Os caras da Penha chegaram. Ícaro levantou devagar, ajeitando a camisa preta de manga longa enquanto caminhava até a enorme varanda. O vento noturno bagunçou alguns fios do cabelo dele enquanto observava as luzes da cidade. Era engraçado. Depois de tantos anos ele finalmente estava de volta. E ninguém fazia ideia. O elevador particular abriu poucos minutos depois, revelando três homens acompanhados de seguranças armados. Todos entraram na cobertura observando o ambiente luxuoso com discrição. O líder deles era Marcelo, conhecido como Caveira, um dos responsáveis pelo fornecimento em parte da Penha. Homem perigoso. Inteligente. E ganancioso. Exatamente o tipo de pessoa que Ícaro sabia manipular. — Então você é o tal Zuko — Caveira comentou observando ele de cima abaixo. Ícaro permaneceu imóvel. — Depende de quem pergunta. O homem deu uma risada curta caminhando pela cobertura. — Ouvi muita história, tua lá fora. — Espero que as melhores. O clima ficou pesado imediatamente. Nenhum dos dois homens gostava de abaixar a cabeça. Mas Caveira percebeu rápido que o homem parado diante dele era diferente dos criminosos comuns do Rio. Existia algo frio demais em Ícaro. Algo perigoso demais. — Vamos direto ao assunto — Caveira falou finalmente. — O que você quer no Rio? Ícaro caminhou lentamente até o bar, servindo mais whisky no próprio copo antes de responder: — Expansão. — Só isso? — E controle. O silêncio caiu entre eles. Caveira cruzou os braços observando a postura calma de Zuko. — Tu sabe que o Rio não funciona igual lá fora né? Aqui todo mundo quer ser rei. Ícaro virou o rosto lentamente encarando ele. — Então tá na hora de alguém lembrar quem nasceu pra mandar. A tensão aumentou instantaneamente. Os seguranças trocaram olhares discretos enquanto Kenji permaneceu imóvel próximo da parede observando tudo. Caveira abriu um sorriso de canto. — Gostei de você. Ícaro não respondeu. Porque não precisava. Homens como ele dominavam ambientes sem esforço. — Quanto tu consegue fornecer? — Caveira perguntou. — O suficiente pra deixar teus concorrentes de joelhos em menos de dois meses. Aquilo chamou atenção de verdade. Caveira estreitou os olhos. — E o que você ganha com isso? Ícaro tomou um gole lento do whisky antes de responder: — Espaço. Não era mentira. Mas também não era toda verdade. Porque o verdadeiro objetivo dele nunca foi apenas dominar rotas. Era destruir o império do tio peça por peça até não sobrar nada. As reuniões continuaram madrugada adentro. Números absurdos eram discutidos enquanto alianças começavam a nascer silenciosamente dentro daquela cobertura milionária na Barra. E quanto mais acordos fechava… Mais perto, Ícaro ficava da vingança. Horas depois os homens finalmente foram embora, deixando a cobertura silenciosa outra vez. Kenji caminhou até a varanda encontrando Ícaro observando o mar distante. — Tá funcionando rápido demais — comentou. Ícaro permaneceu calado por alguns segundos. — Porque eles tão desesperados. — E isso é bom? Um sorriso sombrio apareceu no rosto dele. — Desespero faz homem inteligente cometer erro. O celular vibrou novamente em sua mão. Dessa vez era uma foto. Ícaro abriu a imagem e imediatamente sentiu o corpo inteiro endurecer. Kiara. Ela aparecia saindo de um restaurante luxuoso na Zona Sul usando um vestido preto elegante enquanto Lorenzo segurava sua cintura diante dos fotógrafos. Linda. Intocável. E completamente proibida.A mandíbula dele travou com força,anos se passaram e o mundo mudou. Mas bastava olhar pra ela por alguns segundos para sentir o mesmo incêndio antigo queimando dentro do peito. Kenji percebeu a mudança no olhar dele. — Quem é? Ícaro bloqueou o celular lentamente antes de virar o rosto para cidade. A voz saiu baixa. Fria. Mas carregada de algo pior que raiva. — O único problema capaz de destruir tudo.
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