Zuko
A noite caiu sobre a Barra da Tijuca trazendo consigo o brilho das avenidas movimentadas e o silêncio perigoso da cobertura de Ícaro Navarro. Do lado de fora, o Rio continuava vivendo normalmente, pessoas lotavam restaurantes luxuosos, carros importados cortavam as ruas iluminadas e a música alta escapava dos bares próximos à praia.
Mas dentro daquela cobertura o clima era outro.
Guerra.
Ícaro permanecia sentado no enorme sofá preto da sala principal enquanto observava os relatórios espalhados sobre a mesa de centro. Rotas de armamento. Nomes de aliados. Comunidades rivais. Policiais comprados. Tudo organizado perfeitamente.
Ele estudava o Rio como um predador observa território antes do ataque.
O copo de whisky descansava entre seus dedos enquanto os olhos percorriam cada informação com calma absoluta. A expressão fria escondia o caos calculado acontecendo dentro da mente dele.
Kenji entrou na sala alguns minutos depois segurando um tablet.
— Consegui tudo que você pediu.
Ícaro ergueu os olhos lentamente.
— Fala.
Kenji colocou o aparelho sobre a mesa mostrando fotos, mapas e movimentações financeiras.
— Otávio aumentou o domínio nos últimos anos. Tá movimentando muita carga pelo porto e fechou aliança com dois complexos menores. Mas tem problema interno acontecendo.
O olhar de Ícaro estreitou discretamente.
Problema interno significava rachaduras.
E rachaduras destruíam impérios.
— Que tipo de problema?
— Dinheiro sumindo. Soldados insatisfeitos. E teu primo tá fazendo merda.
Aquilo chamou sua atenção imediatamente.
— Lorenzo?
Kenji assentiu.
— Teu primo tá se achando dono do mundo. Gastando demais, mexendo com mulher errada e criando atrito com outras comunidades.
Ícaro encostou lentamente no sofá enquanto um sorriso frio surgia no canto da boca.
Lorenzo sempre foi impulsivo.
Fraco emocionalmente.
O tipo de homem que se perde quando recebe poder cedo demais.
Diferente dele.
— Continua.
— O morro tá forte por fora. Mas por dentro…
— Kenji deslizou outra foto na tela — …já
começou a apodrecer.
Ícaro observou a imagem em silêncio.
Homens armados discutindo numa viela.
Expressões tensas.
Desconfiança.
Perfeito.
Ele sabia exatamente como aquilo terminava.
Porque foi assim que o tio derrubou o próprio irmão anos atrás.
Criando divisão antes do golpe final.
O telefone da cobertura tocou no mesmo instante.
Kenji atendeu rapidamente e depois olhou para Ícaro.
— Os caras da Penha chegaram.
Ícaro levantou devagar, ajeitando a camisa preta de manga longa enquanto caminhava até a enorme varanda. O vento noturno bagunçou alguns fios do cabelo dele enquanto observava as luzes da cidade.
Era engraçado.
Depois de tantos anos ele finalmente estava de volta.
E ninguém fazia ideia.
O elevador particular abriu poucos minutos depois, revelando três homens acompanhados de seguranças armados. Todos entraram na cobertura observando o ambiente luxuoso com discrição. O líder deles era Marcelo, conhecido como Caveira, um dos responsáveis pelo fornecimento em parte da Penha.
Homem perigoso.
Inteligente.
E ganancioso.
Exatamente o tipo de pessoa que Ícaro sabia manipular.
— Então você é o tal Zuko — Caveira comentou observando ele de cima abaixo.
Ícaro permaneceu imóvel.
— Depende de quem pergunta.
O homem deu uma risada curta caminhando pela cobertura.
— Ouvi muita história, tua lá fora.
— Espero que as melhores.
O clima ficou pesado imediatamente.
Nenhum dos dois homens gostava de abaixar a cabeça.
Mas Caveira percebeu rápido que o homem parado diante dele era diferente dos criminosos comuns do Rio. Existia algo frio demais em Ícaro. Algo perigoso demais.
— Vamos direto ao assunto — Caveira falou finalmente. — O que você quer no Rio?
Ícaro caminhou lentamente até o bar, servindo mais whisky no próprio copo antes de responder:
— Expansão.
— Só isso?
— E controle.
O silêncio caiu entre eles.
Caveira cruzou os braços observando a postura calma de Zuko.
— Tu sabe que o Rio não funciona igual lá fora né? Aqui todo mundo quer ser rei.
Ícaro virou o rosto lentamente encarando ele.
— Então tá na hora de alguém lembrar quem nasceu pra mandar.
A tensão aumentou instantaneamente.
Os seguranças trocaram olhares discretos enquanto Kenji permaneceu imóvel próximo da parede observando tudo.
Caveira abriu um sorriso de canto.
— Gostei de você.
Ícaro não respondeu.
Porque não precisava.
Homens como ele dominavam ambientes sem esforço.
— Quanto tu consegue fornecer? — Caveira perguntou.
— O suficiente pra deixar teus concorrentes de joelhos em menos de dois meses.
Aquilo chamou atenção de verdade.
Caveira estreitou os olhos.
— E o que você ganha com isso?
Ícaro tomou um gole lento do whisky antes de responder:
— Espaço.
Não era mentira.
Mas também não era toda verdade.
Porque o verdadeiro objetivo dele nunca foi apenas dominar rotas.
Era destruir o império do tio peça por peça até não sobrar nada.
As reuniões continuaram madrugada adentro.
Números absurdos eram discutidos enquanto alianças começavam a nascer silenciosamente dentro daquela cobertura milionária na Barra.
E quanto mais acordos fechava…
Mais perto, Ícaro ficava da vingança.
Horas depois os homens finalmente foram embora, deixando a cobertura silenciosa outra vez.
Kenji caminhou até a varanda encontrando Ícaro observando o mar distante.
— Tá funcionando rápido demais — comentou.
Ícaro permaneceu calado por alguns segundos.
— Porque eles tão desesperados.
— E isso é bom?
Um sorriso sombrio apareceu no rosto dele.
— Desespero faz homem inteligente cometer erro.
O celular vibrou novamente em sua mão.
Dessa vez era uma foto.
Ícaro abriu a imagem e imediatamente sentiu o corpo inteiro endurecer.
Kiara.
Ela aparecia saindo de um restaurante luxuoso na Zona Sul usando um vestido preto elegante enquanto Lorenzo segurava sua cintura diante dos fotógrafos.
Linda.
Intocável.
E completamente proibida.A mandíbula dele travou com força,anos se passaram e o mundo mudou.
Mas bastava olhar pra ela por alguns segundos para sentir o mesmo incêndio antigo queimando dentro do peito.
Kenji percebeu a mudança no olhar dele.
— Quem é?
Ícaro bloqueou o celular lentamente antes de virar o rosto para cidade.
A voz saiu baixa.
Fria.
Mas carregada de algo pior que raiva.
— O único problema capaz de destruir tudo.