Capítulo 2

1119 Words
Zuko — Xangai A fumaça do charuto subia lentamente pelo ar frio da cobertura enquanto as luzes de Xangai iluminavam a enorme parede de vidro atrás de Ícaro Navarro. A cidade nunca dormia. Carros importados cortavam as avenidas como vultos brilhantes, letreiros neon refletiam nos prédios gigantescos e o som distante da metrópole invadia o silêncio pesado do ambiente. Mas nada daquele luxo impressionava mais Zuko. Depois de tudo que viveu, dinheiro tinha virado apenas consequência. O verdadeiro poder estava no medo. E isso ele tinha de sobra. Ícaro permaneceu parado observando a vista com os olhos escuros carregados de frieza enquanto segurava o copo de whisky entre os dedos tatuados. O terno preto perfeitamente alinhado contrastava com as cicatrizes espalhadas pelo pescoço e pelas mãos. O garoto expulso do morro anos atrás não existia mais. O homem refletido naquele vidro era perigoso demais para sentir culpa. Ou pelo menos era isso que ele tentava acreditar. Atrás dele os homens permaneciam em silêncio absoluto esperando autorização para falar. Ninguém ousava interromper Zuko quando ele ficava daquele jeito. Quieto. Pensativo. Porque geralmente era nesses momentos que alguém acabava morto. — O carregamento já saiu do porto. A voz veio baixa. Ícaro não virou imediatamente. Terminou o whisky devagar antes de colocar o copo sobre a mesa de mármore n***o. — Quantas horas? — Seis até atravessar a fronteira. Ele assentiu lentamente. Então finalmente virou o corpo encarando os homens espalhados pela cobertura luxuosa. Todos armados. Todos perigosos. Todos leais a ele porque sabiam exatamente do que Zuko era capaz. O olhar de Ícaro passou por cada rosto sem pressa até parar em Kenji, seu braço direito desde que chegou na Ásia anos atrás. — E os russos? — Resolveram aceitar o acordo. Um sorriso frio apareceu no canto da boca dele. Claro que aceitaram. Recusar proposta de Zuko geralmente significava desaparecer do mapa. Ícaro caminhou lentamente até a enorme mesa no centro da sala observando os documentos espalhados ali. Armas. Rotas. Dinheiro. Números absurdos que fariam qualquer homem comum enlouquecer. Mas para ele aquilo era rotina. Construiu um império inteiro usando ódio como combustível. Cada nota que ganhou carregava um pedaço da vingança que alimentava dentro do peito. Porque enquanto o mundo via um empresário milionário vivendo no luxo asiático, dentro dele ainda existia o garoto sangrando na lama depois de ser traído pela própria família. E essa ferida nunca cicatrizou. O celular vibrou sobre a mesa. O ambiente inteiro ficou silencioso na mesma hora. Kenji observou quando Ícaro pegou o aparelho e estreitou os olhos ao ver o número desconhecido. Ele atendeu sem alterar a expressão. — Fala. Do outro lado houve silêncio por alguns segundos antes da voz surgir rouca e carregada de nervosismo. — O morro mudou desde que você saiu. Ícaro ficou imóvel. Aquela voz brasileira depois de tantos anos trouxe memórias que ele preferia manter enterradas. — Quem tá falando? — Isso não importa. O que importa é que teu tio tá ficando mais poderoso a cada dia. Se você pretende voltar… a hora é agora. O maxilar dele travou imediatamente. O nome do tio ainda tinha o poder de despertar o pior dentro dele. Otávio Navarro. O homem que roubou tudo. A cadeira. O poder. A família. A vida que deveria ser dele. Ícaro apertou o celular com força enquanto sentia a raiva subir queimando devagar dentro do peito. — E por que eu acreditaria em você? — Porque eu vi teu pai morrer. Aquilo fez o silêncio dominar a cobertura inteira. Os homens perceberam a mudança imediata na expressão dele. O olhar escureceu. A postura endureceu. Como um animal pronto para atacar. — Repete. — Você ouviu. A respiração de Ícaro ficou pesada. Durante anos ele tentou descobrir quem matou o pai. Investigou aliados antigos, policiais corruptos, inimigos do morro e até membros da própria família. Mas nunca encontrou prova nenhuma. Só perguntas. Sempre perguntas. — Quem matou ele? A voz saiu baixa. Perigosa. Do outro lado o homem respirou fundo antes de responder: — Volta pro Rio e eu te conto tudo. A ligação caiu. Ícaro continuou olhando para o celular por alguns segundos sem se mover. O silêncio da cobertura agora parecia sufocante. Até que ele começou a rir baixo. Mas não era um riso de felicidade. Era pior. Kenji conhecia aquele som. Conhecia porque já tinha visto Zuko destruir homens inteiros depois de rir daquele jeito. — Preparar o jatinho — Ícaro falou finalmente. — Nós vamos voltar pra casa. Os homens se entreolharam imediatamente. Casa. Zuko nunca chamava o Rio de casa. Nunca. Kenji deu um passo à frente. — Tem certeza disso? Ícaro ergueu os olhos lentamente. Frio. Violento. Decidido. — Passei anos construindo poder pra esse momento. — pegou o charuto novamente enquanto caminhava até a janela — Tá na hora de arrancar tudo que roubaram de mim. A cidade brilhava diante dele enquanto as lembranças voltavam fortes demais. A chuva. O sangue do pai. Os gritos. A humilhação. A dor. E principalmente aquele olhar. O olhar satisfeito do tio enquanto destruía sua vida. Ícaro fechou os olhos por poucos segundos sentindo o ódio consumir cada parte do seu corpo. Então outra imagem apareceu na mente dele. Kiara. O sorriso dela. Os olhos claros encarando os dele escondidos nos bailes do morro anos atrás. A garota que ele beijou escondido pela primeira vez atrás da quadra. A única pessoa que fazia ele esquecer quem era. O peito dele apertou imediatamente. Porque diferente do resto do morro… lembrar dela ainda doía. Kiara deveria ter sido apenas uma memória esquecida no passado. Mas nunca foi. Mesmo longe. Mesmo depois de tantos anos. Mesmo tentando apagar tudo. Ela continuava viva dentro dele. Ícaro soltou a fumaça devagar encarando a própria imagem refletida no vidro. Talvez voltar pro Rio fosse um erro. Talvez aquela vingança destruísse o pouco de humanidade que ainda existia dentro dele. Mas já era tarde demais para voltar atrás. Homens como Zuko não nasciam para ter paz. Nasciam para guerra. E a guerra dele estava apenas começando. Horas depois o jatinho particular cruzava o céu escuro enquanto Ícaro permanecia sentado sozinho observando as nuvens pela janela. O relógio caro brilhava discretamente no pulso enquanto os dedos tamborilavam devagar sobre o braço da poltrona. O silêncio dentro da aeronave contrastava completamente com o caos que acontecia dentro da mente dele. Voltar significava mexer em feridas abertas. Significava enfrentar fantasmas. Significava olhar nos olhos dos homens que tentaram matar ele. Mas acima de tudo… Significava reencontrar Kiara. A mulher que nunca esqueceu. A mulher que jamais poderia tocar. Porque no Rio as coisas tinham mudado. E agora ela carregava o sobrenome do homem que Ícaro mais odiava naquele mundo.
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