Capítulo 12

1327 Words
Kiara O silêncio daquela cobertura parecia pesado demais depois que Lorenzo entrou no quarto. Continuei parada na varanda tentando recuperar o ar enquanto minhas mãos tremiam sem controle. O lado esquerdo do meu rosto queimava por causa do tapa e o gosto de sangue ainda permanecia na minha boca. Mas pior do que a dor física… Era o caos dentro de mim. Passei a mão lentamente pelo canto machucado dos lábios fechando os olhos por alguns segundos enquanto o vento da madrugada batia contra minha pele. Lá embaixo o Rio continuava vivo como se nada estivesse acontecendo. Carros passavam pelas avenidas iluminadas, música ecoava distante de algum lugar e pessoas continuavam suas vidas sem imaginar que a minha estava desmoronando aos poucos. Respirei fundo tentando controlar as lágrimas. Eu odiava chorar. Principalmente por causa de homem. Mas naquele momento parecia impossível segurar.Porque Lorenzo tinha razão em uma coisa. Eu nunca esqueci Ícaro Navarro. Nunca. Nem nos dias em que tentei convencer a mim mesma que ele estava morto. Nem nas noites em que Lorenzo me abraçava enquanto eu permanecia acordada olhando o teto em silêncio.Nem quando aceitei colocar o sobrenome Navarro no meu nome sabendo que pertencia à família errada.Uma parte minha continuava presa naquele garoto da laje. E isso me destruía. Abri os olhos lentamente encarando a cidade mais uma vez até meu olhar parar involuntariamente na cobertura do outro lado da avenida. Escura. Silenciosa. Mas eu sentia ele. Sentia de um jeito absurdo. Como se os olhos de Ícaro ainda estivessem sobre mim mesmo sem conseguir enxergar ele naquela escuridão.Meu peito apertou forte. Porque depois de anos imaginando como seria reencontrar ele… a realidade era muito pior do que qualquer fantasia que criei na cabeça. Ícaro não voltou como o garoto que partiu. Voltou diferente. Frio. Perigoso. Com algo sombrio escondido dentro do olhar. E talvez fosse exatamente isso que mais mexia comigo. A forma como o tempo endureceu ele. A forma como mesmo distante eu conseguia sentir a raiva queimando dentro dele. Passei os braços ao redor do próprio corpo tentando afastar o frio estranho que percorria minha pele enquanto lembranças antigas começavam a invadir minha mente outra vez. Eu lembrava perfeitamente do primeiro beijo. Da primeira vez que ele segurou minha mão escondido no baile. Da madrugada em que subimos na laje apenas para observar o nascer do sol enquanto ele dizia que um dia sairia do morro comigo. Promessas. Todas destruídas pelo sangue daquela família. Soltei uma risada baixa completamente amarga enquanto lágrimas voltavam a cair. Como a vida podia ser tão c***l? Porque no final das contas nenhum de nós realmente conseguiu fugir daquele passado. Nem eu. Nem ele. Nem Lorenzo. O som da voz de Lorenzo dentro do quarto me trouxe de volta pra realidade imediatamente. Ele discutia no telefone com alguém relacionado ao morro enquanto andava de um lado pro outro claramente nervoso. E aquilo me assustava.Porque eu conhecia Lorenzo o suficiente pra saber quando ele começava a perder o controle.Ele estava desconfiando. Talvez não soubesse exatamente da verdade ainda. Mas sentia. Sentia que alguma coisa tinha mudado. E se Lorenzo descobrisse que Ícaro estava vivo… Meu Deus. Fechei os olhos rapidamente sentindo o desespero crescer dentro do peito.Ia ser guerra.Não apenas entre eles.Mas dentro da própria família Navarro.Porque Lorenzo jamais aceitaria perder espaço agora. E Ícaro… Ícaro nunca voltaria apenas para assistir outro homem ocupando o lugar dele. Principalmente Lorenzo. Aquela rivalidade existia muito antes de mim. Desde adolescentes os dois disputavam tudo silenciosamente. Respeito. Poder. Atenção. Espaço dentro da família. Eu só virei mais um motivo no meio daquela guerra. Só que agora era diferente.Agora existia sangue demais envolvido.Meu celular vibrou novamente em minha mão fazendo meu coração disparar. Não precisei olhar pra saber quem era. Mesmo assim meus dedos hesitaram antes de abrir a mensagem. “Ele te bateu.” Meu corpo inteiro gelou.Olhei imediatamente para cobertura escura do outro lado da avenida. A respiração falhou.Porque aquilo significava que Ícaro viu tudo. Meu Deus. Levei a mão ao peito sentindo o coração acelerar violentamente. Outra mensagem chegou segundos depois. “Se eu atravessar essa avenida agora… eu mato ele.” Fechei os olhos imediatamente.E pela primeira vez naquela noite senti medo de verdade. Porque eu conhecia Ícaro. Conhecia a violência que existia dentro dele quando perdia o controle. E depois de tudo que sofreu… Depois dos anos carregando ódio… Eu sabia que ele seria capaz. Capaz de transformar aquela cidade inteira num inferno apenas para destruir Lorenzo Navarro. “Sim… ele me bateu.” Enviei a mensagem com as mãos tremendo enquanto lágrimas continuavam descendo pelo meu rosto sem controle.Meu peito estava apertado demais.O lado da minha boca ardia por causa do tapa e a marca vermelha dos dedos de Lorenzo começava a aparecer devagar no meu pescoço. Me encostei na parede da varanda tentando recuperar o ar enquanto olhava novamente para cobertura escura do outro lado da avenida. Silenciosa. Mas eu sabia que ele estava ali. Observando. Outra lágrima caiu enquanto meus dedos voltavam rapidamente para tela do celular. “Eu posso te ver Ícaro? Por favor…” A mensagem foi enviada imediatamente. Meu coração disparou forte.Fiquei olhando a tela esperando alguma resposta enquanto o medo e a ansiedade se misturavam dentro de mim de um jeito sufocante.Então os dois risquinhos ficaram azuis. Ele visualizou. Fechei os olhos sentindo a respiração falhar outra vez. Por alguns segundos nada aconteceu. Até que uma nova mensagem apareceu na tela. “Alguém vai aí te buscar. O nome dele é Kenji.” Meu corpo inteiro arrepiou. “Ele vai te levar pra um lugar onde eu vou estar te esperando.” Levei a mão até a boca tentando controlar o choro. Meu Deus. Aquilo estava realmente acontecendo. Depois de anos acreditando que talvez nunca mais visse Ícaro Navarro… agora eu estava prestes a encontrar ele outra vez. E isso me assustava tanto quanto me destruía. Olhei rapidamente para dentro da cobertura. Lorenzo ainda discutia ao telefone completamente alterado sem perceber nada ao meu redor. A voz dele ecoava nervosa pelo quarto enquanto falava sobre problemas no morro. Era minha chance. Respirei fundo tentando controlar o nervosismo enquanto pegava apenas o celular e saía da varanda em silêncio. Meu coração batia tão forte que parecia impossível Lorenzo não escutar.Passei pelo quarto rapidamente. Ele continuava distraído demais na ligação para perceber. Então saí. Do jeito que eu estava. Sem bolsa. Sem pensar direito. Sem conseguir acreditar na loucura que estava fazendo. O elevador parecia lento demais enquanto descia pelos andares daquele prédio luxuoso. Minhas mãos continuavam tremendo e a mente girava sem parar. O que eu diria quando visse ele? Como Ícaro estaria depois de todos esses anos? E principalmente… O que aquilo faria com a minha vida? As portas do elevador finalmente abriram no térreo.O vento frio da madrugada bateu contra meu rosto assim que saí do prédio. A avenida estava relativamente vazia naquela hora e as luzes do Rio deixavam tudo com aparência quase irreal. Então eu vi. Um carro preto estacionado do outro lado da rua. Os vidros escuros escondiam completamente quem estava dentro. Meu coração disparou violentamente. Por alguns segundos fiquei imóvel encarando o veículo enquanto a razão gritava para voltar.Aquilo era perigoso. Errado. Mas meu corpo já não obedecia mais razão nenhuma quando se tratava de Ícaro. A porta do motorista abriu lentamente. Um homem oriental alto saiu primeiro observando tudo ao redor antes de olhar diretamente para mim. Frio. Sério. Perigoso. Kenji. Ele caminhou até mim calmamente, mantendo as mãos dentro dos bolsos do casaco preto. — Kiara? Assenti devagar. Ele abriu a porta traseira do carro sem dizer mais nada. — O Zuko tá esperando. Ouvir aquele vulgo saindo da boca dele fez meu estômago gelar. Porque aquilo tornava tudo ainda mais real. Respirei fundo tentando ignorar o medo enquanto entrava no carro. A porta fechou atrás de mim. E naquele instante senti claramente: Minha vida estava prestes a mudar completamente outra vez.
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